Me Chame do Que Você É: Os Disfarces do Totalitarismo

Ler a maioria dos jornais brasileiros, americanos e europeus é fazer uma descoberta surpreendente: parece que não existem mais partidos ou políticos de esquerda.

  

Todos os partidos e políticos de esquerda agora são chamados de “centro” ou “centro-esquerda”.

  

Acabaram também as forças políticas de direita. Agora, quem não é de esquerda é automaticamente chamado de extrema-direita.

  

Isso é uma pirueta ideológica absurda, incompatível com o verdadeiro jornalismo e com o que mostra a história.

  

Vamos explicar:

Assinatura do Pacto Molotov–Ribbentrop entre Stalin e a Alemanha nazista

O mundo é hoje dividido entre duas visões de organização política, econômica, social e moral da sociedade: a esquerda e a direita.

  

Nas democracias modernas, a esquerda é formada pelos comunistas, socialistas e social-democratas.

  

Nessas democracias, a direita é formada pelas forças que se opõem à esquerda: conservadores, liberais e libertários.

  

E os extremos?

A extrema-esquerda é formada pelos elementos radicais de esquerda, que também são socialistas ou comunistas.

  

A diferença entre a esquerda e a extrema-esquerda não é de natureza, é de intensidade. Dizendo de outra forma: a extrema-esquerda quer exatamente as mesmas coisas que a esquerda – partido único, ditadura do proletariado, fim da propriedade privada, coletivização e estatização da economia. A diferença é que, enquanto a esquerda obedece – mais ou menos – às regras do jogo democrático (até chegar ao poder, claro) a extrema-esquerda pratica abertamente diversas formas de violência, como ameaças a opositores, distúrbios de rua, “ocupações”, assassinatos, terrorismo e guerrilha (o enfrentamento armado ao Estado).

  

Mas a diferença entre a direita e o que se convencionou chamar de “extrema-direita” não é de intensidade, mas de natureza. É fácil constatar isso: a direita moderna é formada por conservadores, liberais e libertários. Todas essas correntes de pensamento têm como foco o indivíduo. Todas elas consideram os direitos à vida, à liberdade e à propriedade como direitos naturais sagrados. Todas pregam um Estado enxuto, cuja função principal é garantir os direitos do indivíduo e interferir o mínimo possível na vida e na iniciativa privadas. Isso é exatamente o oposto do que pregam as ideologias chamadas de “extrema-direita”: fascismo e nazismo.

  
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Isso leva muitas pessoas a perguntar como fascismo e nazismo podem ser “de direita” se o seu ideário – totalitário, ultraviolento, coletivista e adorador do Estado – nada tem a ver com o ideário dos conservadores, liberais ou libertários que formam a direita.

  

Isso leva pensadores a questionar se fascismo e nazismo têm, realmente, algo a ver com a direita, ou se são, na verdade, simples variantes do totalitarismo de esquerda. Por exemplo, no seu livro “Sobre Moeda e Inflação”, o economista Ludwig von Mises se refere ao “nacional-socialismo” como “a versão alemã do comunismo”[1].

  

Essa linha de argumentação encontra sustentação em elementos inquestionáveis: as inúmeras semelhanças entre as doutrinas fascista e comunista; o passado socialista de Mussolini, o líder italiano inspirador do fascismo; e o fato histórico, facilmente comprovável, de que nazismo é uma abreviatura do termo alemão que significa “nacional-socialismo”, ou socialismo nacional. O nome completo do partido nazista alemão era Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. O nome diz tudo. Por que algum partido se denominaria socialista, se não o fosse?

Confirmações dessa tese vêm de locais improváveis, como o livro Regras Para Radicais, do ativista americano de esquerda Saul Alinsky, guru de toda a esquerda moderna. Alinsky admite que “alguns grupos da extrema-esquerda foram tão longe no círculo político que se tornaram indistinguíveis da extrema-direita[2]”. Exatamente: isso acontece porque a “extrema-direita” é, na verdade, uma mera variante da extrema-esquerda.

  

É fácil perceber os inúmeros pontos em comum entre os regimes comunistas e fascistas: glorificação do Estado, desprezo pelo indivíduo e seus direitos, coletivização forçada, partido único e uso da violência – campos de concentração, tortura, tribunais de exceção, assassinato de opositores – como instrumento de ação política. A única diferença entre o fascismo e o comunismo é que o fascismo mata em nome da “raça” enquanto o comunismo mata em nome da “classe”.

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Para quem é assassinado, isso não faz diferença alguma.

  

O confronto entre comunismo e fascismo, segundo a opinião de muitos, longe de representar um conflito entre ideologias opostas, seria apenas a disputa monstruosa entre dois regimes totalitários assassinos, competindo pelo monopólio do poder[3]. É um fato histórico a aliança entre comunistas soviéticos e nazistas alemães no início da Segunda Guerra Mundial. Através da assinatura do pacto Ribbentrop-Molotov comunistas e nazistas dividiram a Europa entre eles. Vale lembrar que o pacto foi finalmente violado pela Alemanha. Se dependesse dos comunistas, a aliança com os nazistas teria perdurado até hoje.

  

Fascismo não é o oposto, e muito menos o contrário, do comunismo; na verdade, é sua alma gêmea. Fascismo e comunismo são monstros gerados do mesmo ovo de serpente. Ambos têm o mesmo objetivo; colocar no poder um pequeno grupo que goza de poder absoluto, enquanto a maioria da sociedade é reduzida à servidão e à pobreza mais absoluta.

  

Fascismo e nazismo nada têm a ver com o pensamento da direita moderna – o pensamento liberal de Hayek e Mises, o pensamento conservador de Burke e Kirk ou as ideias libertárias de Walter Block e Hans-Hermann Hope. Ao contrário: os maiores oponentes dos regimes totalitários, nos dias de hoje, são exatamente os liberais e os conservadores (no campo político, principalmente esses últimos).

  

Repetindo: as pautas principais da direita moderna são a defesa da liberdade, da autonomia e da independência do indivíduo, a defesa dos direitos naturais – principalmente direito à vida, à propriedade e à autodefesa – e a rejeição a todo tipo de tirania e coletivismo. Portanto, diz a lógica mais básica, nenhum movimento político que viole esses princípios pode ser considerado “de direita”. Por definição, não existe liberal ou conservador extremista.

  
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Por isso, da próxima vez que um comunista usar os crimes do fascismo para atacar a direita, explique isso a ele: fascismo nada tem a ver com direita. Fascismo é um regime totalitário nascido da costela do comunismo, ao qual está ligado por ideias, políticas, líderes e crimes.

  

Fascismo, nazismo, comunismo e socialismo são ideologias totalitárias, promotoras do extremismo, do atraso e da miséria, nascidas no mesmo berço e que pertencem à lata de lixo da história.

  

Como disse Francis Fukuyama em um recente artigo para o The Wall Street Journal, “todos os anos, centenas de milhares de pessoas – às vezes milhões – deixam países pobres, violentos e mal-governados em busca de uma vida melhor. Seu destino de escolha nunca é a China, a Rússia ou a Venezuela. Em vez disso, eles procuram sociedades liberais bem governadas, onde seus filhos terão maior liberdade e oportunidade[4]’.

  

[1] Mises, Ludwig v.; Sobre Moeda e Inflação, LVM Editora, 2017, p.116.

  

[2] Alisnky, Saul. Rules for Radicais, Vintage Books, 1989, p.xxii.

  

[3] Uma descrição da catástrofe que resulta desse embate pode ser encontrada no livro Berlin 1945, que descreve os últimos dias da Segunda Guerra Mundial, quando o Exército Vermelho da União Soviética invadiu a Alemanha e ocupou Berlin.

  

[4] https://www.wsj.com/articles/the-long-arc-of-historical-progress-11651244262?page=1

Texto de Roberto Motta, Engenheiro Civil pela PUC-RJ, Mestre em Gestão pela FGV-RJ e tem cursos do programa de MBA da George Washington University. Roberto tem mais de 30 anos de experiência como executivo em grandes empresas, incluindo 5 anos como consultor do Banco Mundial nos EUA. Conheça as obras do autor!