Grupo Gorki estreia “Mahagonny” no Teatro Marista

Grupo Gorki estreia “Mahagonny” no Teatro Marista

Montagem inspirada na obra de Bertolt Brecht reúne teatro, música ao vivo e movimento em apresentação no dia 11 de outubro, em Ribeirão Preto, antes de seguir para a capital de São Paulo

Ribeirão Preto (SP), 6 de outubro de 2026 – Em Mahagonny, tudo parece permitido. Prazer, liberdade, justiça e até a sobrevivência, porém, dependem de uma condição: ter dinheiro para pagar. É a partir dessa cidade fictícia, criada por Bertolt Brecht no final da década de 1920, que o Grupo Teatral Gorki constrói seu novo espetáculo, “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny”, com estreia no domingo, 11 de outubro, às 19h30, no Teatro Marista (R. Cmte. Marcondes Salgado, 1280, Centro), em Ribeirão Preto.

  

A montagem teatral em formato de musical épico contemporâneo chega aos palcos no ano em que se completam 70 anos da morte de Bertolt Brecht, ocorrida em 1956. A data amplia o interesse pelo legado do dramaturgo alemão e oferece ao grupo a oportunidade de aproximar sua obra de questões contemporâneas e de uma perspectiva brasileira.

  

Dirigida por Antonio Resende, a produção reúne teatro, música ao vivo e trabalho corporal para abordar as relações entre consumo, desigualdade social, poder econômico e mercantilização da vida. Após a apresentação em Ribeirão Preto, o espetáculo terá uma breve temporada nos dias 21 e 22 de novembro, na Cia da Revista, em São Paulo.

  

Mais do que remontar a obra original, o grupo propõe uma adaptação estruturada que preserva princípios do teatro de Brecht e incorpora referências a outros trabalhos do dramaturgo. “A proposta surgiu do interesse em revisitar uma das obras mais contundentes de Bertolt Brecht e estabelecer um diálogo entre seu pensamento político e as contradições da sociedade contemporânea. Ao invés de realizar uma simples remontagem da ópera original, o objetivo foi desenvolver uma adaptação que preservasse rigorosamente os princípios do teatro épico brechtiano, mas que reorganizasse sua linguagem para o formato de um musical contemporâneo, potencializando sua capacidade crítica e aproximando a obra das discussões atuais”, explica Antonio Resende.

  

A montagem trabalha com recursos como o distanciamento, a ruptura da ilusão teatral e a exposição crítica das ações, além de incorporar colagens de textos, poemas e referências a outras obras de Brecht, entre elas “A Ópera dos Três Vinténs” e “Happy End”.

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Cidade regulada pelo dinheiro
Em Mahagonny, a liberdade está condicionada ao poder de compra. Para Resende, essa lógica aproxima a obra das contradições do presente. “Vivemos um período marcado pelo fortalecimento da lógica mercantil, pelo consumo como valor central das relações humanas e pela transformação da cultura em produto. A produção teatral discute justamente uma sociedade em que tudo passa a ter valor apenas na medida em que pode ser comprado”, afirma o diretor geral.

  

Embora tenha sido escrita em um contexto de crise econômica e social, a obra mantém, segundo Resende, a capacidade de dialogar com questões contemporâneas. “A cidade fictícia criada por Brecht revela uma lógica em que o dinheiro se torna o principal regulador das relações humanas, transformando desejos, afetos, justiça e liberdade em mercadorias. Essa crítica permanece atual diante do crescimento das desigualdades, do consumismo e da transformação das relações sociais em relações de mercado”, analisa.

  

Pesquisa iniciada em 2025
O processo de criação começou em 2025, quando o Grupo Teatral Gorki foi contemplado pelo Edital CULTSP PRO, por meio do Programa de Qualificação Artística. Durante essa etapa, a companhia recebeu orientação quinzenal da atriz Lara Hassum e desenvolveu uma investigação sobre os arquétipos presentes na obra e os princípios do teatro épico.

  

Antonio Resende responde pela construção das cenas. Caio Vilela assina a direção musical e as composições originais, enquanto Nathan Ranhel conduz a direção de movimento e as coreografias. A montagem conta com 12 atores, quatro músicos e uma equipe técnica e criativa formada por mais de 30 profissionais.

  

No início de 2026, o projeto passou da pesquisa para a etapa de produção. “Foi nesse momento que reunimos profissionais cujas pesquisas estéticas dialogavam com a proposta artística de Mahagonny e iniciamos a execução do projeto a partir das possibilidades reais de orçamento”, relata a coordenadora de produção, Giovanna Federzoni.

  

Segundo a produtora, as decisões precisaram conciliar a concepção artística com as condições de uma produção independente. “Como em grande parte das produções independentes, cada escolha artística precisou ser pensada em equilíbrio com os recursos disponíveis, buscando preservar a potência criativa da montagem sem perder de vista sua viabilidade de produção.”

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A organização das agendas também esteve entre os desafios. O elenco se reúne duas vezes por semana, e a maioria dos integrantes concilia os ensaios com outros trabalhos em horário comercial.

  

Grotesco e decadência
A cenografia, concebida por Beatriz Moura Leite, parte da imagem de uma cidade construída sobre a ruína de seus próprios valores. Parte dos materiais utilizados no cenário foi encontrada em depósitos de ferro-velho e locais de descarte, incorporando marcas do tempo, do uso e do abandono.

  

Esses elementos não funcionam apenas como solução de produção. Eles integram a dramaturgia visual do espetáculo: Mahagonny promete prosperidade, mas se ergue sobre um processo de deterioração ética, social e econômica.

  

Os figurinos, criados por Felipe Marques, passaram por processos de envelhecimento e desgaste. Cenário, objetos, visagismo, movimento e atuação compartilham uma estética marcada pelo exagero, por gestos desajustados e pela representação de um espaço em colapso. “Essa estética traduz visualmente a própria essência de Mahagonny. A cidade é formada por restos, fragmentos e materiais descartados, simbolizando uma sociedade construída sobre aquilo que foi consumido, explorado e abandonado. O grotesco rompe com padrões tradicionais de beleza para revelar um mundo corrompido pelo dinheiro, em que a decadência moral também se manifesta na arquitetura, nos figurinos, nos objetos e nas próprias relações humanas”, observa Resende.

  

Os sete pecados capitais servem como matrizes para a composição das personagens. A partir deles, o elenco desenvolveu comportamentos, gestos e presenças cênicas ampliados pela linguagem farsesca.

  

O trabalho corporal privilegia movimentos ritmados e não naturalistas. A proposta é evitar que o público acompanhe as personagens apenas por identificação emocional, estimulando uma leitura crítica de suas ações e das estruturas sociais representadas em cena.

  

Música como comentário da ação
A música se afasta do funcionamento convencional dos grandes musicais. Em vez de apenas acompanhar ou ampliar emocionalmente as cenas, ela comenta a ação e evidencia contradições das personagens. “Nesta adaptação, a música não serve para intensificar emoções ou promover identificação sentimental, como ocorre frequentemente nos musicais comerciais. Seguindo rigorosamente o pensamento brechtiano, ela atua como elemento crítico, comentando as ações, revelando contradições e aprofundando o discurso dramatúrgico”, explica o diretor.

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O trabalho vocal foi desenvolvido com referências ao Singspiel alemão, gênero que articula música, canto e diálogos falados. A interpretação mantém canto e texto a serviço da narrativa, em contraste com convenções vocais associadas aos musicais comerciais norte-americanos.

  

A partir desses procedimentos, o grupo define a montagem como um “anti-musical dramático”: uma encenação que utiliza recursos do teatro musical, mas recusa uma construção voltada exclusivamente ao entretenimento ou à catarse emocional.
“Mais do que oferecer respostas, o espetáculo pretende provocar perguntas. Esperamos que o público deixe o teatro questionando quais valores organizam nossa sociedade, quais relações estabelecemos com o dinheiro, o consumo e o poder, e até que ponto naturalizamos mecanismos de exploração, desigualdade e mercantilização da vida”, conclui Resende.

  

Serviço
Espetáculo: “Mahagonny” com Grupo Gorki | Ribeirão Preto
Local: Teatro Marista – Ribeirão Preto (SP) | R. Cmte. Marcondes Salgado, 1280 – Centro
Data: 11 de outubro de 2026 (domingo)
Horário: 19h30
Ingressos: https://grupogorki.com.br/eventos/mahagonny

São Paulo
Local: Cia da Revista
Datas: 21 e 22 de novembro de 2026
Horário e Ingressos: informações em breve

Ficha técnica
Texto: Adaptação da obra Ascenção e Queda da Cidade de Mahagonny

Direção geral: Antonio Resende

Assistência de direção: João Pedro Mendes

Direção de movimento: Nathan Ranhel

Direção musical e regência: Caio Vilela

Orientação de pesquisa: Lara Hassum

Concepção cenográfica: Beatriz Moura Leite

Cenografia e cenotecnia: Eliton Silva (Pita)

Concepção de objetos cênicos: Ricardo Brabrikovisk e Eliton Silva
Figurino: Felipe Marques
Visagismo: Carol Camillo
Light designer e operação de luz: Gabriel Ferreira
Operação de som: João Pedro Mendes
Músicos: Caio Vilela, Eden Santos, Izabela Ito e Jão
Elenco: Alexandre Guidorizzi, Ana Sartorio, Bianca Nardini, Gabriely Urbano, Gabriel Tostes, Henrique Bertolini, Isis Sthefani, Lukas Cavalcante, Mauricio Puntel, Romã, Santiago de Paula e Victória Soares
Assistência de produção: Mikael Campos Marceniuk e Milena Oliveira
Coordenação de produção: Giovanna Federzoni
Produção executiva: Giovanna Federzoni e Rafa Ramirez
Assessoria de imprensa: Verbo Nostro Comunicação Planejada
Designer Gráfico: Lívia Azevedo
Fotografia: Danilo César