Estimativa do INCA para 2026–2028 projeta 78.610 casos anuais; diagnóstico precoce e avanços da medicina de precisão ampliam possibilidades de tratamento
O Outubro Rosa começa em 2026 diante de um cenário que combina um grande desafio de saúde pública a avanços importantes no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama. O Brasil deverá registrar 78.610 novos casos da doença por ano no triênio 2026–2028, segundo a publicação “Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil”, lançada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) em 4 de fevereiro de 2026. A projeção corresponde a 71,57 casos para cada 100 mil mulheres.
Excluídos os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama permanece como o mais incidente entre as mulheres brasileiras, respondendo por cerca de 30% dos novos casos de câncer na população feminina. Segundo o Atlas de Mortalidade por Câncer do INCA, com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), foram registradas 20.849 mortes por câncer de mama no Brasil em 2024, dado mais recente disponível.
Para a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Dra. Clarissa Baldotto, a mobilização do Outubro Rosa é fundamental, mas a atenção à doença precisa ultrapassar os limites do calendário.
“Outubro é um mês importante para colocar o câncer de mama no centro da conversa, mas essa atenção não pode se restringir a outubro. Informação, prevenção, investigação de sinais suspeitos, diagnóstico oportuno e acesso ao tratamento precisam fazer parte do cuidado com a saúde da mulher durante todo o ano. Quando falamos de uma doença com essa incidência no Brasil, estamos falando de uma agenda permanente de saúde pública”, afirma.
Diagnóstico precoce faz diferença
Apesar dos avanços terapêuticos, identificar a doença precocemente continua sendo uma das principais estratégias para aumentar as possibilidades de cura e permitir, em muitos casos, tratamentos menos agressivos.
“Quando diagnosticamos o câncer de mama no estádio I, as chances de sucesso do tratamento são muito altas, podendo ficar acima de 90%, dependendo do subtipo do tumor e das características de cada paciente. Quanto mais cedo fazemos o diagnóstico, maiores são as possibilidades de cura e, muitas vezes, conseguimos realizar tratamentos menos agressivos, com menor impacto na qualidade de vida da mulher”, afirma a Dra. Daniele Assad, diretora da SBOC.
A recomendação do Ministério da Saúde para o rastreamento populacional é a realização de mamografia a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos. Mulheres de 40 a 49 anos e acima de 74 anos podem ter acesso ao exame de rastreamento no SUS por demanda, após orientação sobre riscos e benefícios. Sinais ou sintomas suspeitos devem ser investigados independentemente da idade.
Tecnologia ajuda a tratar melhor — e também a tratar menos
A medicina de precisão vem transformando a maneira como o câncer de mama é compreendido e tratado. Testes moleculares, biópsia líquida e análise do DNA tumoral circulante (ctDNA) permitem conhecer melhor as características biológicas do tumor e, em situações específicas, acompanhar sua evolução.
“Hoje temos testes moleculares, biópsias líquidas e a pesquisa do DNA tumoral circulante, o ctDNA, que nos ajudam a conhecer melhor as características do tumor e, em situações específicas, acompanhar a evolução da doença”, explica Dra. Daniele Assad.
Um exemplo recente chegou ao Brasil em setembro. A Anvisa aprovou o camizestranto, em combinação com um inibidor de CDK4/6, para determinados casos de câncer de mama avançado ou metastático com receptor hormonal positivo e HER2 negativo nos quais é detectada uma mutação no gene ESR1 durante o tratamento. O estudo que embasou a estratégia utilizou ctDNA para identificar a mutação antes da progressão clínica ou radiológica, permitindo antecipar a mudança terapêutica.
Outra frente importante é usar a tecnologia para descobrir quem pode receber menos tratamento sem perder eficácia.
“O PET/CT vem sendo estudado em protocolos de tratamento neoadjuvante, especialmente na doença HER2 positiva, para avaliar precocemente a resposta ao bloqueio do HER2. A ideia é tentar identificar pacientes com uma resposta muito boa que, no futuro, possam eventualmente ser tratadas com bloqueio anti-HER2 sem necessidade de quimioterapia”, explica Dra. Daniele.
“Isso mostra uma tendência muito importante da oncologia atual: não é apenas desenvolver tratamentos mais eficazes, mas também identificar quais pacientes podem ser tratadas com menos toxicidade, sem comprometer a eficácia”, acrescenta.
Novas terapias ampliam possibilidades
Os conjugados anticorpo-droga (ADCs) estão entre as áreas de maior avanço. Em 2026, a Anvisa aprovou novas indicações para medicamentos dessa classe em diferentes subtipos do câncer de mama, entre eles o trastuzumabe deruxtecana. Em pacientes com câncer de mama HER2-positivo em estágio inicial e doença invasiva residual após tratamento antes da cirurgia, o estudo DESTINY-Breast05 mostrou redução de 53% no risco de recorrência invasiva ou morte, em comparação com T-DM1.
Também houve avanços para pacientes com tumores receptor hormonal positivo/HER2 negativo e para o câncer de mama triplo-negativo, ampliando as possibilidades de tratamento de acordo com as características de cada tumor.
Para Dra. Daniele Assad, essa transformação aponta para uma oncologia cada vez mais individualizada: “A tecnologia está nos ajudando não só a tratar melhor, mas também a entender quem realmente precisa de cada tratamento, caminhando cada vez mais para uma medicina personalizada”.
Neste Outubro Rosa, os números brasileiros reforçam a necessidade de manter o câncer de mama como prioridade durante todo o ano. Ao lado do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento, os avanços científicos abrem caminho para uma oncologia mais precisa, capaz não apenas de oferecer novas terapias, mas de identificar qual tratamento é necessário para cada paciente e quando é possível tratar com menos toxicidade.
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