O El Niño previsto para o ciclo 2026-2027 pode colocar as empresas brasileiras diante de um risco financeiro e operacional em quase todos os setores da economia. Com projeções de um dos eventos mais intensos das últimas décadas, o fenômeno climático deve causar reação em cadeia, atingindo desde a produção e operação, passando pelo balanço, folha de pagamento, crédito, seguros, investimentos e planejamento tributário.
De acordo com Junior Rozante, CEO do Grupo RZ3 – especializado em planejamento tributário, estruturação financeira e planejamento estratégico para empresas em crescimento -, não se trata apenas de um problema restrito a uma determinada área. “Experiências em mais de 50 setores da economia mostram que eventos que parecem restritos a uma área técnica, tributária, jurídica ou, neste caso, climática quase sempre se revelam transformações transversais, que atingem a operação inteira. Por isso, o El Niño deve ser tratado como um risco de gestão”, afirma.
Um risco que atravessa o balanço
Os impactos da seca extrema em algumas regiões e chuvas intensas em outras começam com perdas e atrasos na produção, danos aos ativos, o que gera redução de estoques no varejo, além de exigir provisões adicionais para perdas, afetando diretamente os resultados do balanço e na avaliação dos bancos e investidores.
No campo trabalhista, paralisações, picos de demanda de mão de obra desorganizada, tendem a elevar rescisões, uso de seguro-desemprego e contratações emergenciais, com reflexo direto em encargos e em passivo trabalhista contingente.
Na área financeira, os riscos de inadimplência e das renegociações podem pressionar o capital de giro e as cláusulas contratuais de empréstimos ou financiamentos (covenants) de empresas expostas ao fenômeno. Empresas são obrigadas a adiar investimentos e gastos não-essenciais, para redirecionar os recursos financeiros para soluções de capacidade de lidar com as adversidades e enfrentamento climático.
No campo fiscal, decretos de calamidade vêm acompanhados de moratórias, prorrogação de prazos e renegociações de tributos federais, mas também maior fiscalização sobre o uso desses benefícios.
Já no mercado de seguros, o aumento da sinistralidade tende a pressionar prêmios e pode revelar lacunas na cobertura de empresas que nunca haviam testado a sua apólice para eventos climáticos de grande magnitude.
Setores que requerem atenção
O executivo ressalta ainda que os impactos do El Niño não se restringem ao segmento agrícola ou de sustentabilidade. “Atinge todos os setores expostos ao clima, no caso do Brasil, a maioria deles”.
Agronegócio – Dados históricos da Cepea/Esalq e do IBGE mostram que estiagem no Norte e Nordeste, enchentes na região Sul e precipitação irregular no Centro Oeste e Sudeste, provocados pelo El Niño, comprometem a produção agropecuária de forma acentuada.
Entre os desafios que o setor deve enfrentar estão a revisão de valor de estoques e de ativos biológicos, maior necessidade de provisões e crédito para perdas em operações sem cobertura, pressão sobre custo da mão de obra devido a colheita mais curta e entressafra mais longa.
A ferramenta Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), que orienta janelas de plantio menos expostas ao risco climático, e acelerar investimentos na irrigação, sementes tolerantes à seca, biotecnologia e monitoramento por satélite áreas ganham importância na contingência.
Logística e transporte – Chuvas intensas comprometem rodovias e ferrovias e operação dos portos. Enquanto a estiagem prolongada afeta o nível de rios usados para navegação de transporte de cargas, como o do Rio Madeira e o do Tietê-Paraná. Esses gargalos geram multas contratuais por atrasos recorrentes na entrega, perdas em cargas sujeitas a deterioração.
As empresas de logística tendem a acelerar investimentos em rotas alternativas, armazenagem descentralizada e tecnologia de rastreamento climático em tempo real. Estas decisões pressionam o Capex (investimento de bens de capital) de curto prazo, mas reduzem a exposição futura.
Varejo – Quebras de safra pressionam o preço de alimentos, reduzem o poder de compra do consumidor e afetam diretamente o mix de produtos nas gôndolas. O efeito mais imediato é sobre a gestão de estoques e sobre provisões para ruptura de fornecimento em categorias sensíveis ao clima, como hortifrúti, grãos e proteína animal.
No financeiro, redes com lojas concentradas em regiões de maior risco climático devem revisar capital de giro e política de crédito ao consumidor. O seguro patrimonial de lojas e centros de distribuição em áreas de risco de enchentes, geralmente subcontratado pelo varejo brasileiro, deve ser um dos pontos de maior atenção entre 2026 e 2027.
Energia – Um El Niño de grande intensidade tende a produzir efeitos regionais distintos sobre as bacias que alimentam os principais reservatórios, o que reforça a importância do acompanhamento feito pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e das decisões sobre despacho termelétrico ao longo de 2026 e 2027.
A crise nos reservatórios leva ao aumento do despacho térmico, que eleva o custo de encargos setoriais repassados à tarifa, além da revisão na projeção de caixa diante da volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças e possível acionamento de bandeiras tarifárias mais altas.
O episódio climático deve estimular o movimento para diversificação da matriz com fontes eólica e solar, menos dependentes do regime de chuvas.
Mineração – Em operações a céu aberto em Minas Gerais e no Norte do país, o excesso de precipitação aumenta as chances de paralisação operacional, saturação de pilhas de estéril. O resultado é menor produção com custo operacional fixo e com obrigações trabalhistas.
As paradas operacionais prolongadas pressionam a depreciação de ativos ociosos e podem exigir revisão de estimativas de vida útil de equipamentos expostos à umidade excessiva.
Investimento em estrutura de contenção, monitoramento geotécnico em tempo real e adequação às novas Normas Reguladoras de Segurança de Barragens ganham peso.
A importância de antecipar os preparativos
As projeções do recente boletim do Climate Prediction Center (CPC), dos Estados Unidos, indicam que o El Niño deve atingir seu pico no Hemisfério Sul no fim de 2026 e início de 2027, no mesmo período em que as companhias fecham orçamentos, renegociam crédito, renovam seguros e definem o planejamento fiscal do ano seguinte.
A recomendação de Rozante é que as empresas já comecem a preparar a contingência ainda em 2026, em vez de deixar cada área reagir isoladamente quando o problema já estiver instalado.
As medidas devem incluir mapeamento da exposição climática por unidade de negócio, revisão de cobertura de seguros em um cenário de El Niño histórico, avaliar covenants financeiros contra hipóteses de estresse e integrar as áreas fiscal, jurídica, financeira e de operações em um comitê único de resposta climática.
“O clima brasileiro está mudando de intensidade. E, com ele, também precisa mudar a forma como as empresas do país se preparam, se financiam, se protegem e planejam o ano que vem”, conclui.







