Pesquisa da Unifesp contribui para debate sobre mudança de nome de rua em São Paulo

Proposta, que busca mudar o nome para Sophia Gomide, dialoga com investigação sobre mulheres, circulação urbana e apagamentos históricos

A aprovação, na Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa da Câmara Municipal de São Paulo, do parecer de legalidade do Projeto de Lei 482/2025 recolocou em pauta o debate sobre memória urbana, violência contra as mulheres e os critérios que orientam as homenagens no espaço público. O projeto propõe alterar o nome da rua Peixoto Gomide, que atravessa os bairros da Bela Vista e Jardim Paulista, para rua Sophia Gomide.

  

A discussão dialoga diretamente com a pesquisa da historiadora Maíra Rosin, pesquisadora de pós-doutorado vinculada à Unifesp, junto ao grupo de pesquisa Cidade, Arquitetura e Preservação em Perspectiva Histórica, da EFLCH, que investiga as relações entre mulheres, cidades e circulação urbana. A partir da pesquisa Quando elas passam: o Plano de Avenidas e os embates político-culturais com as mulheres em São Paulo (1938-1945), ela coloca o debate sobre como políticas urbanas e discursos de modernidade afetaram a presença feminina na cidade.

  

O debate ganhou repercussão também a partir do artigo Vias sujas de sangue, publicado por Rosin na Revista Quatro Cinco Um. No texto, a autora recupera a história de Sophia Gomide, morta em 20 de janeiro de 1906 pelo próprio pai, Francisco de Assis Peixoto Gomide Júnior. Anos depois, em 1914, ele foi homenageado pela Câmara Municipal com o nome de uma das ruas mais conhecidas da cidade, sem que o assassinato da filha fosse mencionado nas honras oficiais.

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Segundo a Câmara Municipal, o objetivo do PL 482/2025 é promover uma reparação histórica e dar dignidade à memória de Sophia Gomide. Após a aprovação do parecer de legalidade na CCJ, a proposta segue sua tramitação legislativa. No sistema oficial da Câmara, o projeto aparece em fase de discussão e votação em primeiro turno.

  

A discussão em torno da mudança do nome da rua evidencia como a pesquisa histórica pode contribuir para revisitar narrativas naturalizadas na cidade e trazer à tona personagens, violências e apagamentos que permaneceram por décadas fora da memória pública. Nesse sentido, a investigação ajuda a ampliar o debate sobre quais trajetórias são celebradas nos logradouros da capital e quais histórias foram silenciadas.

  

Segundo a pesquisadora, “a pesquisa histórica tem um papel fundamental em revelar quem foram as figuras celebradas nas ruas da cidade. A revisão do nome da rua Peixoto Gomide mostra que a história não está apenas nos livros, mas também inscrita na própria paisagem urbana, e pode e deve ser debatida publicamente. A produção acadêmica tem papel importante na revisão crítica da história urbana e na ampliação do debate público sobre memória, gênero e direito à cidade. Quando esse conhecimento circula para além da universidade, ele também pode contribuir para processos concretos de reparação”.

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Já para o supervisor de pós-doutorado de Rosin, Fernando Atique, “a Câmara Municipal, ao incorporar a proposta de mudança de toponímia, revela o quão importantes são os estudos históricos, uma vez que a investigação feita por Rosin demonstra o papel social que a História tem na sociedade”.

  

Mais dois PLs foram protocolados para a mudança de mais dois nomes de ruas com nomes de feminicidas. São elas: rua Moacir Piza, também no Jardim Paulista, baseado no mesmo artigo da historiadora Maíra Rosin, e rua Alberto Dias, baseado na dissertação de mestrado de Fabrizio Franco, defendida na Unifesp em 2024 sob orientação do professor José Carlos Vilardaga.