Tecnologia desenvolvida ao longo de 15 anos de pesquisas na Unifesp começou com estudos de pigmentos naturais, passou pelo açaí e chegou à luteína
Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram um corante intraocular à base de luteína que reúne duas funções importantes nas cirurgias de retina: facilitar a visualização de estruturas microscópicas e transparentes do olho e contribuir para protegê-las dos efeitos da luz intensa utilizada durante os procedimentos.
A luteína é um pigmento natural da família dos carotenoides, encontrado em vegetais como couve, espinafre e milho e também presente naturalmente na retina humana. Além de atuar como antioxidante, a substância ajuda a absorver parte da luz azul. Essas características levaram os pesquisadores a estudar sua aplicação como corante cirúrgico, buscando associar contraste para a identificação das estruturas oculares a uma possível proteção contra o estresse oxidativo provocado pela iluminação do microscópio.
A tecnologia é resultado de 15 anos de pesquisas em cromovitrectomia, técnica que utiliza corantes para auxiliar o cirurgião na identificação das estruturas internas do olho. A linha de investigação começou com pigmentos naturais, passou pelo estudo do açaí e avançou até a formulação com luteína.
Ao longo desse percurso, os pesquisadores realizaram testes experimentais, avaliações pré-clínicas, análises em 78 olhos de cadáveres e estudos com pacientes.
“Desenvolver um corante intraocular à base de luteína exigiu uma longa jornada de investigação científica na Unifesp, passando por ensaios pré-clínicos, análises em dezenas de olhos de cadáveres e validação clínica em pacientes. É um exemplo de como a pesquisa cirúrgica desenvolvida no Brasil pode gerar soluções com potencial de aplicação internacional”, afirma Maurício Maia, professor livre-docente do Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo e um dos autores da inovação.
Em cirurgias de retina, estruturas como a membrana limitante interna e a hialoide são praticamente transparentes e precisam ser identificadas com precisão para serem manipuladas ou removidas. Na formulação estudada, a luteína produz contraste em tonalidade azul-esverdeada, facilitando a visualização dessas estruturas.
Ao mesmo tempo, a substância apresenta propriedades antioxidantes e capacidade de absorção da luz azul. Segundo os pesquisadores, isso pode contribuir para reduzir o estresse oxidativo causado pela exposição da retina à iluminação de alta intensidade utilizada durante a cirurgia.
“Além de proporcionar contraste para facilitar a identificação e a remoção de membranas muito finas, a luteína também atua na neutralização de radicais livres gerados pela luz intensa do microscópio”, explica Maia.
Nas fases de avaliação clínica, oftalmologistas de diferentes centros utilizaram o corante e participaram de protocolos comparativos com produtos sintéticos já empregados nas cirurgias de retina, como o azul brilhante. Segundo os pesquisadores, as avaliações apontaram resultados positivos em aspectos como contraste, precisão e estabilidade durante as manobras cirúrgicas.
“Submeter a tecnologia à avaliação de diferentes cirurgiões foi fundamental para verificar seu desempenho na prática e compreender sua aplicabilidade clínica”, destaca Maia.
A trajetória científica da pesquisa e os resultados das fases 1, 2 e 3 dos ensaios clínicos serão apresentados no 11º Congresso da Sociedade Pan-Americana de Retina e Vítreo, que será realizado em São Paulo, de 4 a 7 de novembro de 2026.
A pesquisa também abre possibilidades para novas aplicações de corantes à base de luteína em outras áreas da Oftalmologia, incluindo cirurgias de catarata e glaucoma, além do tratamento de traumas oculares e retinopatias proliferativas.













