A adoção de inteligência está em ritmo acelerado no universo fabril. É o que aponta a Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec), do IBGE. De acordo com o levantamento, a parcela das empresas industriais com 100 ou mais empregados que utilizavam IA passou de 16,9% para 41,9% de 2022 a 2024. O rápido avanço da tecnologia traz um desafio adicional ao setor, que é o de formar profissionais capazes não apenas de utilizar novas ferramentas, mas de compreender dados, algoritmos, riscos e aplicações da inteligência artificial no ambiente de trabalho.
O Formare, programa de qualificação profissional da Fundação Iochpe voltado a jovens em desvantagem socioeconômica, passou a incluir inteligência artificial em sua formação. Com 40 horas-aula, a nova unidade curricular está sendo ministrada nas unidades da Eaton, em Porto Feliz (SP); Bosch, em Curitiba (PR); Stellantis, em Porto Real (RJ); e Maxion, em Limeira (SP). O conteúdo foi estruturado pela equipe pedagógica do programa em conjunto com especialistas da Maxion Wheels e aborda três eixos: aplicações práticas de IA, fundamentos de algoritmos e estruturas de dados e ética e implicações sociais da tecnologia.
“O desafio da qualificação mudou. Não basta preparar o jovem para uma função que existe hoje se a tecnologia está modificando rapidamente a forma como essa função será exercida. A inteligência artificial precisa entrar na formação profissional não apenas como ferramenta, mas como uma competência que envolve saber interpretar dados, tomar decisões, identificar riscos e entender os limites da tecnologia”, afirma Claudio Anjos, presidente da Fundação Iochpe.
Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado em abril deste ano, mostra que apenas 44,5% dos brasileiros apresentam habilidade média-alta ou alta em tarefas digitais complexas, grupo que inclui o uso de inteligência artificial, planilhas e configuração de computadores e aplicativos. Entre os jovens de 16 a 24 anos, o índice é maior, de 65,7%, mas ainda deixa cerca de um terço dessa faixa etária abaixo dos níveis mais elevados de domínio dessas competências. A própria CNI identificou seis novas ocupações associadas à IA que começam a ganhar espaço no mercado, entre elas funções relacionadas a sistemas embarcados, automação cognitiva e manutenção preditiva industrial.
Da fábrica para a sala de aula
Iniciar as aulas em um ambiente fabril aproxima a formação da realidade em que a tecnologia já está sendo incorporada. Nas quatro unidades, os jovens têm contato com o tema dentro do ambiente empresarial, seguindo uma característica do Formare: profissionais das próprias companhias atuam como educadores voluntários e compartilham sua experiência prática com os alunos. Em vez de restringir o ensino à utilização de ferramentas de IA generativa, o currículo propõe situações em que os estudantes precisam identificar problemas, analisar dados, pesquisar soluções, avaliar benefícios e riscos e simular decisões sobre a adoção da tecnologia. O plano não exige conhecimento prévio de programação.
O plano de ensino reflete essa preocupação. Das 40 horas, 15 são dedicadas às aplicações práticas da inteligência artificial, 15 aos fundamentos de algoritmos e estruturas de dados e dez à ética e às implicações sociais, incluindo discussões sobre privacidade, decisões automatizadas e viés algorítmico. A proposta busca preparar jovens para uma realidade em que IA estará presente não apenas nas áreas de tecnologia, mas também em produção, manutenção, logística, qualidade, serviços e tomada de decisão nas empresas.
A preocupação com a formação acompanha uma mudança mais ampla no mercado de trabalho. Relatório publicado pela OCDE em junho de 2026 aponta que a falta de profissionais com as competências necessárias já é uma barreira à adoção de IA: cerca de 40% dos empregadores dos setores industrial e financeiro que ainda não adotaram a tecnologia apontam a falta de habilidades como um dos principais obstáculos. A organização também destaca que menos de 1% dos trabalhadores precisará dominar competências avançadas de IA, como desenvolver modelos; para a maioria, serão cada vez mais relevantes conhecimentos digitais, capacidade de usar e interpretar dados, solução de problemas, criatividade e inovação.
Para os jovens que estão entrando no mercado, a discussão ganhou ainda mais urgência. Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado em agosto de 2026, estima que 6,1% dos empregos atualmente ocupados por pessoas de 15 a 29 anos estão entre os mais expostos às transformações provocadas pela inteligência artificial. A entidade chama atenção para a necessidade de preparar essa população para mudanças nas tarefas e nas ocupações, em um cenário no qual o desemprego juvenil global voltou a crescer.
“Existe uma diferença importante entre ter acesso à inteligência artificial e estar preparado para trabalhar em um ambiente transformado por ela. Nosso objetivo é reduzir essa distância. O jovem precisa sair da formação sabendo usar a tecnologia, mas também sabendo perguntar por que determinada decisão foi tomada, quais dados estão por trás dela e quais consequências ela pode gerar. Essa capacidade crítica será tão importante quanto o domínio técnico”, acrescenta Anjos.
Sobre a Fundação Iochpe: organização sem fins lucrativos, mantém há 36 anos o Programa Formare, referência no Brasil em qualificação profissional de jovens em situação de desvantagem socioeconômica. Mantido em parceria com empresas de médio e grande portes, oferece cursos de formação profissional inicial para o mercado de trabalho a jovens de famílias de baixa renda do ensino médio matriculados em escolas públicas. Por meio do trabalho de educadores voluntários, o programa já formou mais de 28 mil jovens, e o índice de formalização no mercado de trabalho chega a 89% dos egressos nos últimos dez anos, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Plano CDE em 2023. Os cursos são certificados pela UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) aqui no Brasil, pela UTSLP (Universidade Tecnológica de San Luis Potosí) e UTCH (Universidade Tecnológica de Chihuahua), ambas no México, UTN (Universidad Tecnológica Nacional – Facultad Regional Córdoba), na Argentina, e pela SPPU (Savitribai Phule Pune University), na Índia.
Números Formare:
Empresas parceiras: 54 | Jovens impactados em 2025: +1.000 | Educadores voluntários atuantes em 2025: + 4.000 | 54 unidades no Brasil | 6 unidades no México | 1 unidade na Argentina | 1 unidade na Índia.
Mais informações: www.fiochpe.org.br
Assessoria de imprensa Formare
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