Dr. Diego Silva Leite Nunes –
Médico clínico e nutrólogo, Doutor em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor dos cursos de pós-graduação da Afya Educação Médica em Porto Alegre
O inverno no Rio Grande do Sul modifica não apenas a temperatura, mas também alguns dos nossos hábitos. As refeições tendem a ser mais elaboradas, alimentos mais calóricos aparecem com maior frequência à mesa e atividades ao ar livre podem diminuir. Massas, churrasco, sobremesas e o tradicional chimarrão fazem parte desse período e, dentro de uma alimentação equilibrada, não precisam ser vistos como um problema.
É comum ouvirmos que, no frio, sentimos mais fome. Existem mecanismos fisiológicos relacionados à regulação da temperatura corporal, ao gasto energético e ao apetite, mas eles não explicam, isoladamente, o aumento do consumo alimentar observado em algumas pessoas durante o inverno. Na prática, o ambiente e a mudança dos hábitos provavelmente têm papel importante: estamos mais expostos a preparações de maior densidade energética e, muitas vezes, consumimos refeições maiores e mais demoradas.
Isso não significa que determinados alimentos precisem ser excluídos. O problema costuma estar menos no churrasco ou na massa eventualmente consumidos e mais na frequência, no tamanho das porções e no conjunto da alimentação. Quando refeições volumosas e com elevado teor de gordura se tornam frequentes, algumas pessoas podem apresentar piora de sintomas como azia, refluxo, sensação de estômago cheio e desconforto após as refeições. A gordura pode retardar o esvaziamento gástrico e refeições muito volumosas também podem favorecer sintomas em indivíduos predispostos.
O chimarrão, consumido 12 meses por ano, é ainda mais convidativo no inverno. Alguns estudos discutem fatores pelos quais bebidas quentes como o chimarrão gaúcho, pode estar associado a câncer de esôfago. A evidência mais consistente na literatura médica em relação ao risco de câncer de esôfago está associada à temperatura elevada da bebida e à exposição térmica repetida da mucosa esofágica a altas temperatura (acima de 65°C). Assim, não é necessário abandonar o chimarrão, mas é prudente evitar o consumo em temperaturas excessivamente altas. Hoje já existem chaleiras elétricas que permitem definir a temperatura segura para nosso tradicional chimarrão.
O funcionamento intestinal também pode mudar durante o inverno. Algumas pessoas bebem menos água, reduzem o consumo de frutas, verduras e outros alimentos ricos em fibras ou tornam-se menos ativas. A combinação desses fatores pode contribuir para a constipação, especialmente em quem já apresenta predisposição.
Por isso, talvez seja mais útil pensar no inverno não como uma estação de proibições, mas de atenção aos hábitos. Manter frutas, verduras e legumes nas refeições, consumir fibras regularmente, preservar uma ingestão adequada de água e continuar fisicamente ativo são medidas simples e mais importantes do que excluir alimentos específicos.
Também vale prestar atenção à maneira como comemos. Refeições feitas com calma, porções adequadas e atenção aos sinais de fome e saciedade ajudam a evitar excessos. Uma salada antes do prato principal, por exemplo, pode ser uma estratégia simples para aumentar o consumo de vegetais e fibras sem transformar uma refeição em uma sequência de restrições.
Comer uma massa em família, fazer um churrasco no final de semana ou compartilhar um chimarrão fazem parte da nossa cultura e também da dimensão social da alimentação. Saúde não exige que esses hábitos desapareçam. Exige compreender que frequência, quantidade e contexto importam.
Uma relação saudável com a comida pressupõe justamente isso: fazer do alimento parte da vida, sem fazer da vida uma permanente preocupação com o alimento.








