Mercado da cannabis medicinal se aproxima de R$ 1 bilhão e acelera corrida por qualidade no Brasil

Mercado da cannabis medicinal se aproxima de R$ 1 bilhão e acelera corrida por qualidade no Brasil

Com mais de 873 mil pacientes em tratamento, expansão do setor pressiona indústrias a investir em tecnologia, rastreabilidade e controle de processos

O mercado da cannabis medicinal movimentou R$ 971 milhões no Brasil em 2025, segundo o Anuário de Mercado Growshops, Headshops e Marcas, elaborado pela consultoria Kaya Mind. O valor representa um crescimento de 8,4% em relação a 2024, impulsionado principalmente pelo aumento do número de pacientes e pela ampliação dos canais de acesso aos produtos.

Extraídos da planta Cannabis sativa, os compostos utilizados em tratamentos medicinais possuem propriedades terapêuticas relevantes, especialmente em casos de epilepsias refratárias, dores crônicas, distúrbios do sono, ansiedade e doenças neurodegenerativas. 

O levantamento aponta ainda que mais de 873 mil pessoas utilizaram produtos derivados da cannabis para fins terapêuticos no Brasil ao longo do último ano. As importações seguem como principal via de acesso aos medicamentos, concentrando 354 mil pacientes, o que equivale a cerca de 40,5% do total. Já as farmácias e as associações atenderam 293 mil e 226 mil pessoas, respectivamente. 

Aumento do uso exige preparo por parte das indústrias

A expansão do mercado de cannabis medicinal tem aumentado a demanda por processos laboratoriais mais seguros, padronizados e rastreáveis. Com o crescimento do uso do canabidiol e de outros derivados da planta, a indústria precisa investir em tecnologias capazes de garantir a qualidade e a consistência dos produtos.

Assim, a produção de derivados da cannabis medicinal exige padrões semelhantes ao da indústria farmacêutica, incluindo equipamentos como cromatógrafos e bomba calorimétrica, a fim de garantir segurança, estabilidade e padronização das formulações.

Leia Também:  BRZ patrocina Festa do Peão de Hortolândia 2025 e reforça presença na cidade

“A cannabis medicinal no Brasil entrou em um nível de exigência farmacêutica. Não há mais espaço para processos pouco controlados quando a saúde do paciente está em jogo. Apesar de já existirem tecnologias capazes de garantir rastreabilidade, pureza e consistência, a indústria ainda enfrenta um gargalo no controle efetivo dos processos”, afirma o engenheiro químico e especialista técnico da Biovera, Robson Ferreira.

Ainda segundo Ferreira, existe grande variabilidade entre produtores, principalmente porque a matéria-prima é sensível desde o cultivo até a etapa de formulação. Nesse cenário, o maior desafio não está apenas no acesso à tecnologia, mas na capacidade operacional para utilizá-la de forma consistente. “Quem não conseguir garantir reprodutibilidade e controle rigoroso dificilmente conseguirá escalar com segurança nesse mercado”, afirma.

Entre os equipamentos utilizados nesse processo também está o agitador mecânico, empregado na homogeneização, mistura e agitação de soluções em etapas que exigem maior potência e torque do que os agitadores magnéticos convencionais conseguem oferecer.

Empresas precisam antecipar padrões

“Em um mercado como o da cannabis medicinal, inovação sem compliance simplesmente não se sustenta. A regulação ainda está em evolução, mas as exigências de órgãos, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), já colocam o setor em um nível elevado de responsabilidade”, ressalta o engenheiro químico.

Segundo o especialista, esse cenário exige que as empresas antecipem regras, adotando padrões rigorosos desde o início da operação. Ou seja, é necessário investir em tecnologia e controle de processos antes mesmo da regulamentação estar totalmente consolidada.

Leia Também:  Hábitos que ajudam a reduzir o inchaço no dia a dia

“Na prática, isso cria uma barreira de entrada para novos players, mas ela é necessária. O mercado tende a se estruturar com base em qualidade e controle, não apenas em oportunidade. Quem entra preparado, com tecnologia e visão de longo prazo, ganha competitividade”, destaca Ferreira. 

Raio X do uso da cannabis no Brasil

Desde 2015, o poder público destinou R$ 377,7 milhões para o fornecimento dos produtos derivados da cannabis no país. O levantamento também aponta a existência de 27 hectares de cultivo em atividade mapeados no Brasil.

Os dados mostram ainda o avanço da cannabis medicinal em diferentes regiões do país. Atualmente, 85% dos municípios brasileiros já registraram ao menos um paciente tratado com cannabis medicinal desde 2019, enquanto o número de profissionais que prescreveram esse tipo de tratamento ultrapassa 55 mil.

Desde a publicação da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 327 da Anvisa, em 2019, os brasileiros podem adquirir produtos à base de canabidiol em farmácias. Ainda assim, a importação individual, que exige autorização prévia e depende de envio internacional, continua em expansão.

Em 2025, foram concedidas 194.682 autorizações para importação de produtos derivados da cannabis, um aumento de 16,3% em relação ao ano anterior e o maior número já registrado na série histórica. Os dados são da Cannect, empresa especializada em tratamentos com cannabis medicinal, suplementos e terapias integrativas.

Leia Também:  Carreta solidária que prepara refeições e lava roupas chega ao RS nesta quinta-feira

Pesquisas sobre o cultivo

Recentemente, a Diretoria Colegiada da Anvisa autorizou, em caráter excepcional, que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) realize pesquisas sobre o cultivo da Cannabis sativa no Brasil.

A autorização permite que a instituição desenvolva estudos em três frentes principais. A primeira envolve a preservação e a análise do material genético da planta, etapa importante para pesquisas científicas e futuros avanços no cultivo.

Outra linha da pesquisa busca ampliar o conhecimento científico e tecnológico sobre a cannabis medicinal. Já a terceira frente está relacionada ao cânhamo industrial, variedade da planta utilizada na produção de fibras e sementes.

Segundo a instituição, nenhum produto resultante das pesquisas poderá ser comercializado. 

Desinformação ainda é barreira 

Mesmo com o avanço dos tratamentos com derivados da cannabis, a desinformação ainda dificulta a aceitação social e o acesso a medicamentos regulamentados. Um dos principais desafios é a associação equivocada entre o uso terapêutico e o consumo recreativo da planta.

“O canabidiol não altera a percepção nem provoca efeitos psicoativos. Ele funciona como um regulador fisiológico, com efeito progressivo e seguro”, explica o médico Adam de Lima Alborta.

Enquanto o consumo recreativo está associado à busca por efeitos psicoativos, o tratamento medicinal envolve concentração padronizada, controle de dose e acompanhamento profissional. “No cenário medicinal, há previsibilidade farmacológica e indicação clínica precisa”, destaca Alborta.