Estudos apresentados em Chicago apontam novos caminhos para o tratamento do câncer ginecológico mais letal e reforçam uma oncologia cada vez mais personalizada
São Paulo, junho de 2026 – A reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), realizada em Chicago, apresentou avanços importantes que podem transformar o futuro do tratamento do câncer de ovário, considerado o tumor ginecológico de maior mortalidade entre as mulheres.
Entre os destaques esteve o estudo internacional TEDOVA/GINECO-OV244b/ENGOT-ov58, que investiga uma estratégia inovadora de manutenção baseada na combinação entre uma vacina terapêutica personalizada e imunoterapia.
A vacina experimental OSE2101 (Tedopi®️) foi desenvolvida para estimular o sistema imunológico a reconhecer e atacar células tumorais por meio de cinco alvos presentes no câncer: TP53, HER2, CEA, MAGE-A2 e MAGE-A3. O tratamento está sendo avaliado em mulheres com câncer de ovário recorrente sensível à platina, após resposta à quimioterapia.
Segundo os pesquisadores, a proposta é transformar tumores tradicionalmente pouco responsivos à imunoterapia em tumores mais suscetíveis à ação do sistema imunológico. O estudo avalia a vacina isoladamente ou em combinação com o imunoterápico pembrolizumabe, uma estratégia que poderá abrir caminho para uma nova categoria de tratamento de manutenção no câncer de ovário. Os resultados mostraram que a combinação entre vacina e imunoterapia reduziu em aproximadamente 47% o risco de progressão da doença ou morte, em comparação ao grupo controle, tornando-se um dos dados mais promissores apresentados na área de tumores ginecológicos durante a ASCO 2026.
“O conceito é extremamente interessante porque busca ensinar o sistema imunológico a reconhecer o tumor e, ao mesmo tempo, potencializar essa resposta com imunoterapia. Trata-se de uma abordagem que pode ampliar o controle da doença em um cenário onde ainda existem necessidades importantes não atendidas”, explica a Dra. Andrea Paiva Gadêlha Guimarães, presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos EVA.
ADC de nova geração mostra resultados promissores em doença resistente
Outro destaque da ASCO 2026 foi a atualização do estudo NAPISTAR 1-01, que avalia o medicamento experimental TUB-040, um conjugado anticorpo-droga (ADC) desenvolvido para pacientes com câncer de ovário resistente à platina.
O TUB-040 utiliza uma tecnologia conhecida como ADC, frequentemente comparada a um “míssil guiado”. O tratamento combina um anticorpo capaz de reconhecer a proteína NaPi2b — presente em mais de 95% dos casos de câncer de ovário seroso de alto grau — com um potente agente quimioterápico, o exatecan. Dessa forma, a medicação entrega o tratamento diretamente às células tumorais, reduzindo a exposição de tecidos saudáveis.
Dados apresentados no congresso mostraram taxas elevadas de resposta tumoral, respostas duradouras e um perfil de segurança considerado favorável, especialmente em um grupo de pacientes com poucas opções terapêuticas disponíveis.
Especialistas destacaram ainda a baixa incidência de alguns efeitos adversos importantes observados com outros medicamentos da mesma classe, como toxicidade pulmonar e ocular.
Embora ainda em fases iniciais de desenvolvimento, os resultados sugerem que o TUB-040 poderá representar uma nova alternativa terapêutica para pacientes com câncer de ovário resistente à platina.
Uma nova era no tratamento do câncer de ovário
Para a Dra. Andrea Paiva Gadêlha Guimarães, os estudos apresentados na ASCO 2026 refletem uma mudança importante na forma de tratar tumores avançados.
“Durante muitos anos, o tratamento do câncer foi baseado principalmente na cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Hoje estamos entrando em uma nova fase, na qual buscamos combinar diferentes tecnologias para atacar o tumor de maneira mais precisa e inteligente.”
“As vacinas terapêuticas representam uma das fronteiras mais promissoras da oncologia moderna. Diferentemente das vacinas preventivas, elas são desenvolvidas para estimular o sistema imunológico a reconhecer tumores já existentes e combater a doença de forma mais específica.”
Ela destaca ainda que o futuro do tratamento oncológico passa pela combinação de diferentes estratégias.
“Estamos caminhando para uma medicina cada vez mais personalizada. A integração entre vacinas terapêuticas, imunoterapia, terapias-alvo e novas tecnologias, como os ADCs, tem o potencial de ampliar o controle prolongado da doença, aumentar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida das pacientes.”
Os resultados apresentados na ASCO 2026 reforçam o movimento global de desenvolvimento de novas plataformas imunológicas e terapias-alvo de alta precisão, consideradas atualmente algumas das áreas mais promissoras da pesquisa oncológica mundial.
Sobre o EVA
O EVA – Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos é uma organização dedicada à promoção da pesquisa científica, educação médica, advocacy e disseminação do conhecimento sobre os cânceres ginecológicos. A entidade atua para ampliar o acesso das pacientes brasileiras às mais modernas estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento.
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