{"id":683508,"date":"2026-10-26T16:50:50","date_gmt":"2026-10-26T16:50:50","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=683508"},"modified":"2026-10-26T20:14:20","modified_gmt":"2026-10-26T20:14:20","slug":"o-tribunal-vota-mas-quem-escolhe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2026\/10\/o-tribunal-vota-mas-quem-escolhe\/","title":{"rendered":"O tribunal vota, mas quem escolhe?"},"content":{"rendered":"<p>Fl&aacute;vio Pascarelli<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem participa da escolha de um desembargador est&aacute; na Constitui&ccedil;&atilde;o. A d&uacute;vida que interessa, por&eacute;m, nasce antes de qualquer vota&ccedil;&atilde;o: a decis&atilde;o ser&aacute; mesmo tomada por quem recebeu essa compet&ecirc;ncia, ou apenas formalizada por essa pessoa?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ela se torna inevit&aacute;vel quando, ainda antes da delibera&ccedil;&atilde;o, circulam not&iacute;cias de que determinado candidato foi vetado e de que a lista a ser aprovada chegou pronta. Conversas e prefer&ecirc;ncias sempre existiram, e isso, por si s&oacute;, n&atilde;o decide nada. O que importa &eacute; saber se elas tomaram o lugar do ju&iacute;zo que cabia &agrave; institui&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O jurista Marcelo Neves, professor da Universidade de Bras&iacute;lia, oferece um modo de compreender esse deslocamento. Em &ldquo;Muito barulho para nada?&rdquo;, publicado na Folha de S.Paulo em 2007, ele explica que a corrup&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica n&atilde;o se restringe aos crimes de corrup&ccedil;&atilde;o. Ela pode ocorrer quando os crit&eacute;rios de uma esfera social se sobrep&otilde;em aos de outra, sem que esta consiga reagir. Entre seus exemplos est&aacute; a decis&atilde;o judicial tomada sob press&atilde;o pol&iacute;tica ou em raz&atilde;o de v&iacute;nculos pessoais.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aplicar esse conceito &agrave; composi&ccedil;&atilde;o dos tribunais exige um passo a mais. A interfer&ecirc;ncia de um ministro de tribunal superior numa escolha feita por desembargadores acontece entre pessoas que integram o pr&oacute;prio Judici&aacute;rio. O decisivo, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; de onde vem quem interfere, mas qual l&oacute;gica prevalece. Se a autoridade, a proximidade pessoal ou a expectativa de favores passam a valer mais do que as regras que regem a escolha, o crit&eacute;rio jur&iacute;dico foi substitu&iacute;do por outro, ainda que tudo se passe dentro de um mesmo Poder.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No quinto constitucional, o artigo 94 da Constitui&ccedil;&atilde;o divide a decis&atilde;o em etapas. O &oacute;rg&atilde;o de representa&ccedil;&atilde;o da advocacia ou do Minist&eacute;rio P&uacute;blico forma uma lista s&ecirc;xtupla, o tribunal escolhe tr&ecirc;s desses nomes e s&oacute; ent&atilde;o o Poder Executivo nomeia um deles. Cada etapa pressup&otilde;e que a anterior tenha sido exercida por quem a Constitui&ccedil;&atilde;o designou. Se a lista tr&iacute;plice &eacute; definida fora do tribunal, a etapa que lhe cabia existe apenas no papel: o tribunal vota, mas n&atilde;o escolhe.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Suponha-se que uma autoridade externa comunique o veto a um dos seis candidatos e, no mesmo movimento, apresente os tr&ecirc;s nomes que espera ver aprovados. Se essa comunica&ccedil;&atilde;o for apenas uma prefer&ecirc;ncia, sem efeito sobre os votantes, a delibera&ccedil;&atilde;o continuar&aacute; sendo do tribunal. Se funcionar como uma ordem que determina o resultado, a lista ter&aacute; sido formada fora dele. A sess&atilde;o pode ser p&uacute;blica e a vota&ccedil;&atilde;o pode parecer regular, e mesmo assim a vontade institucional ter&aacute; sido substitu&iacute;da.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H&aacute; uma diferen&ccedil;a entre esse veto informal e a avalia&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima de um requisito constitucional. Questionar o not&oacute;rio saber jur&iacute;dico ou a reputa&ccedil;&atilde;o ilibada de um candidato, com raz&otilde;es verific&aacute;veis e no procedimento devido, faz parte das responsabilidades de quem decide. Excluir algu&eacute;m porque uma pessoa influente n&atilde;o aceita o seu nome pertence a outra l&oacute;gica. Um ju&iacute;zo pede fundamento. O outro pede obedi&ecirc;ncia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mesmo vale para as promo&ccedil;&otilde;es de magistrados de carreira. Ali, a recusa do juiz mais antigo exige voto fundamentado de dois ter&ccedil;os do tribunal, e o merecimento se afere por crit&eacute;rios constitucionais e regras do Conselho Nacional de Justi&ccedil;a. H&aacute; espa&ccedil;o para avalia&ccedil;&atilde;o, mas a prefer&ecirc;ncia de uma autoridade alheia ao procedimento n&atilde;o &eacute; crit&eacute;rio de promo&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nada disso torna il&iacute;cita toda escolha controvertida, nem confere direito &agrave; vaga a quem foi mais bem votado na etapa anterior. A coincid&ecirc;ncia entre uma lista anunciada antecipadamente e o resultado final pode despertar d&uacute;vida s&eacute;ria, mas n&atilde;o prova, isoladamente, que os votantes tenham sido constrangidos. Para afirmar que houve captura da decis&atilde;o, &eacute; preciso saber de onde partiu a lista, qual era o conte&uacute;do do alegado veto, que meios de press&atilde;o foram empregados e que raz&otilde;es os respons&aacute;veis pela escolha efetivamente apresentaram.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A precis&atilde;o protege tanto os candidatos quanto a cr&iacute;tica &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es. Chamar de corrup&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica qualquer resultado que desagrada gasta o conceito at&eacute; ele n&atilde;o servir para nada. Fechar os olhos para uma delibera&ccedil;&atilde;o pilotada de fora, em nome do respeito &agrave;s formas, &eacute; pior, porque corr&oacute;i o tribunal por dentro sem que ningu&eacute;m perceba de fora. Entre a acusa&ccedil;&atilde;o precipitada e o sil&ecirc;ncio, h&aacute; o dever de examinar como a decis&atilde;o foi produzida.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; aqui que a reflex&atilde;o de Marcelo Neves rende mais. A corrup&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica n&atilde;o precisa come&ccedil;ar com uma mala de dinheiro. Pode come&ccedil;ar no momento em que a institui&ccedil;&atilde;o aprende que os seus pr&oacute;prios crit&eacute;rios valem menos que o poder de quem est&aacute; fora dela, quando o tribunal deixa de escolher e passa a conferir legitimidade a uma escolha alheia. A independ&ecirc;ncia judicial se mede tamb&eacute;m por isso: pela capacidade de dizer n&atilde;o a esse poder justamente quando ele chega antes da vota&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Fl&aacute;vio Pascarelli Lopes &eacute; desembargador do Tribunal de Justi&ccedil;a do Amazonas (TJAM) e diretor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas (Esmam). &Eacute; mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), doutor em Direito pela Universidade de Fortaleza (Unifor) e p&oacute;s-doutor pela Universit&agrave; del Salento, na It&aacute;lia. Realiza pesquisa de p&oacute;s-doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e &eacute; professor visitante do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Direito Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl&aacute;vio Pascarelli &nbsp; Quem participa da escolha de um desembargador est&aacute; na Constitui&ccedil;&atilde;o. 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