{"id":636512,"date":"2026-09-25T16:41:58","date_gmt":"2026-09-25T16:41:58","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=636512"},"modified":"2026-09-25T23:34:41","modified_gmt":"2026-09-25T23:34:41","slug":"a-suspeicao-como-ato-de-forca-institucional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2026\/09\/a-suspeicao-como-ato-de-forca-institucional\/","title":{"rendered":"A suspei\u00e7\u00e3o como ato de for\u00e7a institucional"},"content":{"rendered":"<p>Fl&aacute;vio Pascarelli<\/p>\n<p>Ainda &eacute; comum, na vida p&uacute;blica, a leitura de que declarar-se suspeito &eacute; uma forma de recuo. Como se o juiz, ao admitir que uma circunst&acirc;ncia pessoal recomenda seu afastamento de um julgamento, estivesse abandonando a responsabilidade que o cargo lhe confere. Penso o contr&aacute;rio: participar de um julgamento pode, sim, exigir coragem, mas &agrave;s vezes a maior coragem n&atilde;o est&aacute; em decidir, est&aacute; em admitir que n&atilde;o se deve decidir.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando se examina a imparcialidade, a pergunta de partida costuma ser simples: h&aacute; no juiz algum interesse capaz de influenciar o que ele vai decidir? A quest&atilde;o &eacute; indispens&aacute;vel, mas n&atilde;o me parece suficiente. Em certas situa&ccedil;&otilde;es, uma segunda pergunta precisa entrar em cena: mesmo que o magistrado tenha convic&ccedil;&atilde;o plena de que &eacute; imparcial, haveria circunst&acirc;ncias objetivas capazes de gerar d&uacute;vida leg&iacute;tima a respeito? Essa segunda pergunta desloca o problema da consci&ecirc;ncia individual para a confian&ccedil;a institucional.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O juiz sabe os motivos que o movem; a sociedade, n&atilde;o. Quem est&aacute; de fora, jurisdicionados, advogados, os pr&oacute;prios colegas de Tribunal, enxerga atos, rela&ccedil;&otilde;es e circunst&acirc;ncias, e &eacute; sobre esse material que cada um constr&oacute;i a confian&ccedil;a que deposita na Justi&ccedil;a. Por isso a imparcialidade n&atilde;o se resume a um estado psicol&oacute;gico do julgador. N&atilde;o basta sentir-se imparcial: o pr&oacute;prio procedimento decis&oacute;rio precisa oferecer raz&otilde;es objetivas para que os outros possam confiar nela.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa exig&ecirc;ncia est&aacute; longe de ser meramente ret&oacute;rica. O C&oacute;digo de &Eacute;tica da Magistratura Nacional coloca lado a lado independ&ecirc;ncia, imparcialidade, transpar&ecirc;ncia, prud&ecirc;ncia e integridade, virtudes institucionais que se complementam. Os Princ&iacute;pios de Bangalore caminham na mesma dire&ccedil;&atilde;o ao situar a imparcialidade tanto no conte&uacute;do da decis&atilde;o quanto no processo pelo qual ela &eacute; produzida, o que d&aacute; &agrave; integridade judicial uma dimens&atilde;o que ultrapassa a convic&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima do magistrado, e &eacute; isso que est&aacute; na antiga formula&ccedil;&atilde;o segundo a qual n&atilde;o basta que a Justi&ccedil;a seja feita: &eacute; necess&aacute;rio que seja percebida como feita.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algumas vezes essa ideia &eacute; tratada como preocupa&ccedil;&atilde;o excessiva com apar&ecirc;ncias. N&atilde;o &eacute;: institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas dependem de confian&ccedil;a, e o tribunal carrega, al&eacute;m da autoridade jur&iacute;dica, uma autoridade institucional que se constr&oacute;i no dia a dia, na medida em que as pessoas percebem que as decis&otilde;es saem segundo regras conhecidas, de julgadores independentes e imparciais, sem interesses ocultos ou influ&ecirc;ncias indevidas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&Eacute; justamente por isso que impedimento e suspei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o devem ser compreendidos somente como mecanismos processuais destinados a afastar magistrados efetivamente parciais. Eles cumprem tamb&eacute;m uma fun&ccedil;&atilde;o institucional: protegem o processo, protegem o Tribunal, protegem as partes e, em determinadas circunst&acirc;ncias, protegem o pr&oacute;prio magistrado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem passa muitos anos exercendo jurisdi&ccedil;&atilde;o acaba aprendendo que a vida institucional nem sempre cabe nas categorias abstratas com que trabalhamos. H&aacute; rela&ccedil;&otilde;es familiares, amizades, v&iacute;nculos profissionais anteriores, circunst&acirc;ncias pol&iacute;ticas e acontecimentos da vida capazes de criar situa&ccedil;&otilde;es em que o juiz tem certeza de que decidiria com independ&ecirc;ncia, mas percebe, ao mesmo tempo, que a sua participa&ccedil;&atilde;o deslocaria a discuss&atilde;o do m&eacute;rito para as suas motiva&ccedil;&otilde;es pessoais. &Eacute; a&iacute; que entra a prud&ecirc;ncia judicial. Afastar-se, nesses casos, n&atilde;o &eacute; confessar parcialidade: &eacute; admitir que a legitimidade de uma decis&atilde;o n&atilde;o &eacute; propriedade exclusiva de quem a profere.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H&aacute; ainda uma dimens&atilde;o que considero particularmente importante. O afastamento volunt&aacute;rio pode ampliar, em vez de diminuir, a liberdade institucional do magistrado. Pense-se num debate relevante sobre a independ&ecirc;ncia de um tribunal, sobre interfer&ecirc;ncias externas ou sobre a autonomia de seus membros. Se quem levanta a quest&atilde;o tem v&iacute;nculo pessoal com algu&eacute;m envolvido, o que disser corre o risco de ser lido como defesa de interesse privado, e a quest&atilde;o institucional fica encoberta pela circunst&acirc;ncia pessoal. Declarar o v&iacute;nculo e sair da decis&atilde;o permite separar duas coisas que jamais deveriam ser confundidas. O interesse pessoal pode ser abandonado sem perda alguma. O princ&iacute;pio institucional continua defendido ainda que o magistrado se retire da mesa.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez seja exatamente essa uma das provas mais duras da &eacute;tica judicial: abrir m&atilde;o de um poder que se tem juridicamente, quando us&aacute;-lo pode desgastar a credibilidade da institui&ccedil;&atilde;o que se quer proteger.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nosso tempo tende a confundir for&ccedil;a com perman&ecirc;ncia, como se a imagem de for&ccedil;a fosse a de quem n&atilde;o recua, n&atilde;o hesita e n&atilde;o admite limite. Essa concep&ccedil;&atilde;o pode servir &agrave; ret&oacute;rica do poder, embora nem sempre sirva &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es. O poder democr&aacute;tico &eacute; limitado por defini&ccedil;&atilde;o, e quem exerce poder deve possuir tamb&eacute;m a capacidade de reconhecer o momento em que n&atilde;o exercer esse poder constitui a forma mais respons&aacute;vel de preservar o pr&oacute;prio poder.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na magistratura, o peso dessa responsabilidade &eacute; ainda maior. Ju&iacute;zes decidem sobre liberdade, patrim&ocirc;nio, fam&iacute;lia, direitos fundamentais e destinos humanos, e a autoridade dessas decis&otilde;es n&atilde;o decorre apenas da investidura constitucional de quem as profere: depende tamb&eacute;m da confian&ccedil;a de que foram tomadas por algu&eacute;m sem interesse no resultado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso suspei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deve ser compreendida automaticamente como fraqueza. Em determinadas circunst&acirc;ncias ocorre exatamente o contr&aacute;rio: declarar um v&iacute;nculo, reconhecer seus poss&iacute;veis efeitos sobre a percep&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e afastar-se da decis&atilde;o pode representar uma demonstra&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a institucional. Porque h&aacute; momentos em que a melhor maneira de defender a independ&ecirc;ncia de um tribunal &eacute; votar. E h&aacute; momentos em que a melhor maneira de defend&ecirc;-la &eacute; n&atilde;o votar.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em qualquer das hip&oacute;teses, o que n&atilde;o pode se perder &eacute; a ideia sem a qual nenhuma jurisdi&ccedil;&atilde;o merece esse nome: a decis&atilde;o cabe a quem possa tom&aacute;-la com independ&ecirc;ncia, com imparcialidade e sem que paire sobre ela nenhuma d&uacute;vida leg&iacute;tima quanto aos interesses que a cercam.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Fl&aacute;vio Pascarelli &eacute; Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) , doutor em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), &eacute; desembargador do Tribunal de Justi&ccedil;a do Amazonas (TJAM) e diretor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas (Esmam).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl&aacute;vio Pascarelli Ainda &eacute; comum, na vida p&uacute;blica, a leitura de que declarar-se suspeito &eacute; uma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":636511,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[21201,15536],"tags":[19650],"class_list":["post-636512","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-justica","tag-juridico","wpcat-21201-id","wpcat-15536-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/636512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=636512"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/636512\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":636991,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/636512\/revisions\/636991"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/636511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=636512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=636512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=636512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}