{"id":597616,"date":"2026-08-31T13:58:57","date_gmt":"2026-08-31T13:58:57","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=597616"},"modified":"2026-08-31T19:20:08","modified_gmt":"2026-08-31T19:20:08","slug":"avanco-no-acesso-nao-garante-educacao-igual-para-todos-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2026\/08\/avanco-no-acesso-nao-garante-educacao-igual-para-todos-no-brasil\/","title":{"rendered":"Avan\u00e7o no acesso n\u00e3o garante educa\u00e7\u00e3o igual para todos no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Em relat&oacute;rio nacional, professora da Unifesp analisa como curr&iacute;culo, expectativas profissionais e perda de autonomia escolar ajudam a reproduzir desigualdades<\/p>\n<p>Um cartaz oferecendo vagas em supermercados para rapazes pode parecer comum em uma escola p&uacute;blica de ensino m&eacute;dio da periferia. Seria muito menos prov&aacute;vel encontr&aacute;-lo em uma escola privada frequentada por estudantes de alta renda. A diferen&ccedil;a ajuda a revelar uma dimens&atilde;o da desigualdade educacional que n&atilde;o aparece apenas nos n&uacute;meros de matr&iacute;culas: as escolas tamb&eacute;m oferecem expectativas de forma&ccedil;&atilde;o e horizontes profissionais distintos conforme a renda, a ra&ccedil;a, o g&ecirc;nero e o territ&oacute;rio de seus estudantes.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A cena &eacute; apresentada pela professora Marian &Aacute;vila de Lima e Dias, professora do Departamento de Educa&ccedil;&atilde;o e do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal de <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"cmtt_f40c12796f09aa4446e394ffc30a74f5\"  href=\"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/glossary\/sao-paulo\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>S&atilde;o Paulo<\/a> (Unifesp) &ndash; Campus Guarulhos, no texto &ldquo;A educa&ccedil;&atilde;o e a reprodu&ccedil;&atilde;o da desigualdade&rdquo;, publicado na quarta edi&ccedil;&atilde;o do Relat&oacute;rio do Observat&oacute;rio Brasileiro das Desigualdades. Produzido pelo Departamento Intersindical de Estat&iacute;stica e Estudos Socioecon&ocirc;micos (Dieese), no &acirc;mbito do Pacto Nacional pelo Combate &agrave;s Desigualdades, o documento acompanha &aacute;reas como renda, trabalho, educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, seguran&ccedil;a alimentar, seguran&ccedil;a p&uacute;blica, representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, meio ambiente, servi&ccedil;os b&aacute;sicos e desigualdades urbanas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Dos 48 indicadores analisados na edi&ccedil;&atilde;o de 2026, 34 apresentaram melhora, oito pioraram e seis permaneceram est&aacute;veis. O panorama registra avan&ccedil;os recentes, mas tamb&eacute;m mostra a perman&ecirc;ncia de disparidades hist&oacute;ricas entre regi&otilde;es e grupos sociais.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Marian observou a educa&ccedil;&atilde;o a partir de dois prismas: o primeiro envolve o acesso &agrave; escolariza&ccedil;&atilde;o e as condi&ccedil;&otilde;es que permitem aos estudantes permanecer e concluir seus percursos; o segundo diz respeito &agrave;s expectativas sobre a forma&ccedil;&atilde;o oferecida: o que se ensina, como se ensina e quais conhecimentos s&atilde;o considerados necess&aacute;rios para que algu&eacute;m seja reconhecido como &ldquo;bem formado&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Essas expectativas n&atilde;o s&atilde;o iguais para todos. Em escolas frequentadas pelas camadas mais pobres, a forma&ccedil;&atilde;o pode ser reduzida &agrave; prepara&ccedil;&atilde;o imediata para postos de trabalho prec&aacute;rios e de menor remunera&ccedil;&atilde;o. Para estudantes de fam&iacute;lias de maior renda, permanecem mais presentes as expectativas de acesso &agrave; cultura, ao conhecimento cient&iacute;fico, &agrave; participa&ccedil;&atilde;o social e &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da cidadania.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A pesquisadora questiona ainda a ideia, disseminada nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, de que a educa&ccedil;&atilde;o seria principalmente um caminho individual para alcan&ccedil;ar empregos mais bem remunerados. Essa promessa, segundo a an&aacute;lise, encobre as diferen&ccedil;as entre as forma&ccedil;&otilde;es oferecidas e as condi&ccedil;&otilde;es concretas do mercado de trabalho. Tamb&eacute;m desloca para cada estudante a responsabilidade por seu futuro, mesmo quando as oportunidades s&atilde;o distribu&iacute;das de maneira profundamente desigual.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Por isso, o centro da discuss&atilde;o est&aacute; nas disputas em torno do curr&iacute;culo, dos planos de ensino e das avalia&ccedil;&otilde;es. A defini&ccedil;&atilde;o centralizada em conte&uacute;dos e metas, associada &agrave; perda de autonomia das institui&ccedil;&otilde;es e de seus profissionais, pode limitar o que a escola oferece para al&eacute;m das compet&ecirc;ncias imediatamente cobradas. &ldquo;Quando a escola perde autonomia sobre o ensinar e o aprender, aumenta o risco de empobrecimento da variedade e da qualidade da forma&ccedil;&atilde;o&rdquo;, declara.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A rela&ccedil;&atilde;o entre educa&ccedil;&atilde;o e trabalho come&ccedil;a antes mesmo do ensino fundamental. O relat&oacute;rio mostra que, em 2025, apenas 36,6% das crian&ccedil;as de at&eacute; tr&ecirc;s anos frequentavam creches. O percentual variava de 18,8% na Regi&atilde;o Norte a 45,4% na Regi&atilde;o Sul, ainda distante da meta de 50% estabelecida pelo Plano Nacional de Educa&ccedil;&atilde;o para o per&iacute;odo de 2014 a 2024.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Para a pesquisadora, a falta de vagas n&atilde;o afeta somente o in&iacute;cio da trajet&oacute;ria escolar. A creche possibilita que crian&ccedil;as pequenas se familiarizem com os c&oacute;digos culturais da escola e pode favorecer a continuidade do percurso educacional. Ao mesmo tempo, a regularidade do atendimento permite que m&atilde;es, pais e outros respons&aacute;veis exer&ccedil;am atividades remuneradas, com efeitos sobre a renda e a organiza&ccedil;&atilde;o familiar.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A alfabetiza&ccedil;&atilde;o mostra como as desigualdades acumuladas desde os primeiros anos podem atravessar toda a trajet&oacute;ria educacional. A falta de acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o infantil reduz as oportunidades de familiariza&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as com a cultura escolar, enquanto dificuldades n&atilde;o enfrentadas no in&iacute;cio do ensino fundamental podem comprometer a perman&ecirc;ncia e a aprendizagem nas etapas seguintes, com consequ&ecirc;ncias que chegam &agrave; vida adulta.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Nesse contexto, a Educa&ccedil;&atilde;o de Jovens e Adultos (EJA) aparece como uma pol&iacute;tica contradit&oacute;ria. Ao mesmo tempo que permite a retomada dos estudos e combate o analfabetismo, sua exist&ecirc;ncia revela que uma parcela da popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o teve o direito &agrave; educa&ccedil;&atilde;o assegurado no per&iacute;odo regular. Marcada muitas vezes pela descontinuidade, pelo improviso e por uma forma&ccedil;&atilde;o acelerada, a EJA tende a assumir car&aacute;ter compensat&oacute;rio. Entre seu p&uacute;blico est&atilde;o mulheres mais velhas que interromperam a escolariza&ccedil;&atilde;o para trabalhar ou assumir os cuidados dom&eacute;sticos e somente d&eacute;cadas depois conseguiram retornar &agrave; sala de aula, geralmente no per&iacute;odo noturno.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>No ensino superior, a expans&atilde;o das vagas tampouco assegura percursos equivalentes. O texto destaca que grande parte desse crescimento ocorreu no setor privado, formado por institui&ccedil;&otilde;es com condi&ccedil;&otilde;es muito diferentes de infraestrutura, pesquisa, extens&atilde;o, produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento e reconhecimento dos diplomas. Assim, cursos formalmente semelhantes podem oferecer experi&ecirc;ncias educacionais e oportunidades profissionais bastante distintas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A an&aacute;lise tamb&eacute;m alcan&ccedil;a a educa&ccedil;&atilde;o especial. O aumento superior a 20% nas matr&iacute;culas de estudantes com defici&ecirc;ncia, transtorno do espectro autista e altas habilidades em classes comuns, registrado pelo Censo Escolar de 2025, representa um avan&ccedil;o. Entretanto, a expans&atilde;o n&atilde;o foi acompanhada, na mesma propor&ccedil;&atilde;o, pelas condi&ccedil;&otilde;es pedag&oacute;gicas, institucionais e de atendimento necess&aacute;rias. Para a pesquisadora, uma escola inclusiva n&atilde;o pode tratar a diferen&ccedil;a como um problema individual a ser encaminhado exclusivamente a servi&ccedil;os especializados. &ldquo;Recursos t&eacute;cnicos e atendimentos espec&iacute;ficos s&atilde;o necess&aacute;rios, mas devem estar articulados ao projeto pedag&oacute;gico e &agrave; sala de aula comum. A diversidade precisa orientar a organiza&ccedil;&atilde;o da escola e as rela&ccedil;&otilde;es entre estudantes, docentes e equipes gestoras&rdquo;, afirma.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Essa perspectiva tamb&eacute;m aparece nas pesquisas sobre viol&ecirc;ncia escolar coordenadas pela professora no Observat&oacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o: Viol&ecirc;ncia, Inclus&atilde;o e Direitos Humanos da Unifesp. Os resultados contestam o estere&oacute;tipo de que escolas p&uacute;blicas localizadas nas periferias seriam necessariamente mais violentas. Institui&ccedil;&otilde;es com muitos e poucos epis&oacute;dios de agress&atilde;o podem coexistir em uma mesma regi&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Mais do que a localiza&ccedil;&atilde;o, fatores como o clima escolar, a gest&atilde;o democr&aacute;tica, a estabilidade das equipes e a forma como a autoridade &eacute; exercida interferem nas rela&ccedil;&otilde;es. Marian tamb&eacute;m alerta que ocorr&ecirc;ncias em escolas privadas de regi&otilde;es mais ricas tendem a ser silenciadas, enquanto epis&oacute;dios semelhantes em escolas p&uacute;blicas perif&eacute;ricas recebem maior exposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A pesquisadora tamb&eacute;m adverte que express&otilde;es como &ldquo;desigualdade estrutural&rdquo; n&atilde;o podem se transformar em explica&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ricas, capazes de fazer o problema parecer inevit&aacute;vel. &Eacute; necess&aacute;rio identificar os mecanismos concretos que produzem essas diferen&ccedil;as, entre eles a distribui&ccedil;&atilde;o de renda, o ingresso precoce de jovens negros no mercado de trabalho, o financiamento educacional desigual, as condi&ccedil;&otilde;es de infraestrutura, a estabilidade do corpo docente e o acesso a recursos culturais dentro e fora da escola.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A escola ocupa, assim, uma posi&ccedil;&atilde;o contradit&oacute;ria. Pode ampliar direitos, promover o encontro entre pessoas diferentes e contribuir para a forma&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os menos violentos. Mas tamb&eacute;m pode adaptar estudantes a uma sociedade marcada pela distribui&ccedil;&atilde;o desigual de renda, conhecimento, oportunidades e condi&ccedil;&otilde;es de vida. Enfrentar essa contradi&ccedil;&atilde;o exige ir al&eacute;m da amplia&ccedil;&atilde;o das matr&iacute;culas e discutir qual forma&ccedil;&atilde;o est&aacute; sendo oferecida, para quem e para qual projeto de sociedade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O Relat&oacute;rio do Observat&oacute;rio Brasileiro das Desigualdades est&aacute; em sua quarta edi&ccedil;&atilde;o. Produzido pelo Departamento Intersindical de Estat&iacute;stica e Estudos Socioecon&ocirc;micos (Dieese), no &acirc;mbito do Pacto Nacional pelo Combate &agrave;s Desigualdades, o documento acompanha &aacute;reas como renda, trabalho, educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, seguran&ccedil;a alimentar, seguran&ccedil;a p&uacute;blica, representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, meio ambiente, servi&ccedil;os b&aacute;sicos e desigualdades urbanas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Dos 48 indicadores analisados na edi&ccedil;&atilde;o de 2026, 34 apresentaram melhora, oito pioraram e seis permaneceram est&aacute;veis. O panorama mostra avan&ccedil;os recentes, mas tamb&eacute;m revela a perman&ecirc;ncia de disparidades hist&oacute;ricas entre regi&otilde;es e grupos sociais. Como as bases utilizadas possuem diferentes periodicidades, os resultados correspondem aos anos mais recentes dispon&iacute;veis para cada indicador. Acesse aqui (https:\/\/combateasdesigualdades.org\/relatorio-do-observatorio-brasileiro-das-desigualdades-2026\/).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em relat&oacute;rio nacional, professora da Unifesp analisa como curr&iacute;culo, expectativas profissionais e perda de autonomia escolar&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":597615,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[21201,14],"tags":[9335,2200,107],"class_list":["post-597616","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-edu","tag-educacao","tag-estudos","tag-vagas","wpcat-21201-id","wpcat-14-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/597616","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=597616"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/597616\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/597615"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=597616"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=597616"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=597616"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}