{"id":576192,"date":"2026-08-17T20:40:49","date_gmt":"2026-08-17T20:40:49","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=576192"},"modified":"2026-08-18T21:16:31","modified_gmt":"2026-08-18T21:16:31","slug":"ele-ja-tinha-dito-como-queria-ser-tratado-diretivas-antecipadas-e-testamento-vital-no-pos-estatuto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2026\/08\/ele-ja-tinha-dito-como-queria-ser-tratado-diretivas-antecipadas-e-testamento-vital-no-pos-estatuto\/","title":{"rendered":"&#8220;Ele j\u00e1 tinha dito como queria ser tratado&#8221;: diretivas antecipadas e testamento vital no p\u00f3s Estatuto"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">At&eacute; pouco tempo, a vontade do paciente sobre como queria ser tratado em fase grave ou terminal dependia de uma combina&ccedil;&atilde;o fr&aacute;gil: uma resolu&ccedil;&atilde;o de &eacute;tica m&eacute;dica, interpreta&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas e a disposi&ccedil;&atilde;o de fam&iacute;lia e hospitais em respeitar ou n&atilde;o esse desejo. Na pr&aacute;tica, documentos como diretivas antecipadas de vontade (DAV) e testamentos vitais eram muitas vezes tratados como sugest&atilde;o, n&atilde;o como decis&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Com o Estatuto dos Direitos do Paciente (Lei 15.378\/2026), esse cen&aacute;rio muda de forma objetiva. A lei traz as DAV para dentro do texto legal e estabelece que o paciente pode registrar por escrito quais cuidados, procedimentos e tratamentos aceita ou recusa para o futuro, quando n&atilde;o puder mais manifestar sua vontade. &Eacute; a passagem de um &ldquo;pedido&rdquo; para um direito claro de decidir antes.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">A nova lei tamb&eacute;m indica quem deve se orientar por essa vontade: fam&iacute;lia e profissionais de sa&uacute;de. Um testamento vital ou uma DAV v&aacute;lida deixam de ser um papel perif&eacute;rico para se tornar refer&ecirc;ncia central em decis&otilde;es dif&iacute;ceis. Quando o documento existe, o ponto de partida n&atilde;o pode ser apenas o medo institucional ou o impulso de &ldquo;fazer tudo&rdquo;, mas aquilo que o pr&oacute;prio paciente escolheu em momento de lucidez e informa&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Na rotina, essas diretivas funcionam como um roteiro antecipado de cuidados. &Eacute; nelas que o paciente pode limitar suportes invasivos em fase terminal, recusar terapias sem perspectiva razo&aacute;vel de recupera&ccedil;&atilde;o, priorizar controle de sintomas e conforto, ou indicar algu&eacute;m de confian&ccedil;a para decidir em seu nome, seguindo essas orienta&ccedil;&otilde;es. O Estatuto refor&ccedil;a que essas escolhas n&atilde;o s&atilde;o caprichos; s&atilde;o exerc&iacute;cio de autonomia protegida em lei.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">&Eacute; justamente nesse ponto que surgem muitos conflitos. Em situa&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas, fam&iacute;lias frequentemente pedem a ado&ccedil;&atilde;o de todos os recursos dispon&iacute;veis, mesmo diante de uma DAV clara restringindo interven&ccedil;&otilde;es. Protocolos hospitalares, por sua vez, tendem a seguir o padr&atilde;o m&aacute;ximo de interven&ccedil;&atilde;o, ainda que isso contrarie o que foi previamente escrito. A nova lei desloca esse eixo: nas situa&ccedil;&otilde;es cobertas pela diretiva, a vontade registrada do paciente deve prevalecer sobre decis&otilde;es tomadas em cima da sua vulnerabilidade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Do lado das institui&ccedil;&otilde;es, o receio de responsabiliza&ccedil;&atilde;o ainda pesa, especialmente quando a diretiva envolve recusa de UTI ou de determinados procedimentos. O Estatuto, por&eacute;m, oferece o norte jur&iacute;dico: cumprir uma DAV v&aacute;lida, dentro dos crit&eacute;rios legais, n&atilde;o configura abandono, mas respeito &agrave; decis&atilde;o de quem se antecipou para evitar tratamentos que considera desproporcionais. O que permanece gerando risco &eacute; ignorar o documento, relativizar seu conte&uacute;do ou agir como se ele n&atilde;o existisse.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Essa prote&ccedil;&atilde;o depende de um elemento muito concreto: o sistema precisa ser capaz de localizar e ler a diretiva quando ela &eacute; necess&aacute;ria. A lei refor&ccedil;a a import&acirc;ncia de formaliza&ccedil;&atilde;o, guarda e acesso. Se DAV e testamento vital permanecem dispersos em pastas pessoais, arquivos esquecidos ou anota&ccedil;&otilde;es pouco vis&iacute;veis, o direito continua formalmente reconhecido, mas praticamente inoperante. A falha, nesse caso, n&atilde;o &eacute; do paciente que escreveu, mas da rede que n&atilde;o se organizou para cumprir.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">No fundo, o Estatuto responde a uma pergunta que vinha sendo empurrada para o improviso: quem decide o que acontece com o corpo da pessoa quando ela n&atilde;o pode mais decidir? A resposta normativa &eacute; inequ&iacute;voca: se o paciente quis, pode decidir antes; se decidiu de forma livre e esclarecida, essa vontade deve ser levada a s&eacute;rio na hora em que ele mais precisa de prote&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">*Joaquim Moretti Neto &eacute; Perito M&eacute;dico Legista, Mestrando em Direito M&eacute;dico e Especialista em Per&iacute;cia M&eacute;dica e Medicina Legal. Fundador da SJ Pareceres M&eacute;dicos, atua prestando assessoria m&eacute;dica para escrit&oacute;rios jur&iacute;dicos.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; At&eacute; pouco tempo, a vontade do paciente sobre como queria ser tratado em fase grave&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":576191,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11,21201],"tags":[1731],"class_list":["post-576192","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-destaques","tag-saude","wpcat-11-id","wpcat-21201-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/576192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=576192"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/576192\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/576191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=576192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=576192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=576192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}