{"id":512342,"date":"2026-05-19T19:15:17","date_gmt":"2026-05-19T19:15:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=512342"},"modified":"2026-05-19T20:28:18","modified_gmt":"2026-05-19T20:28:18","slug":"amor-fati","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2026\/05\/amor-fati\/","title":{"rendered":"Amor Fati"},"content":{"rendered":"<p>Eu recebi aquele senhor no final do dia, atendendo a angustiados pedidos de sua fam&iacute;lia. O seu Amado, que &eacute; como vou cham&aacute;-lo, estava dormindo mal h&aacute; alguns dias e, aparentemente, n&atilde;o conseguia aprofundar seu sono por conta de uma Insufici&ecirc;ncia Respirat&oacute;ria, fase final de sua doen&ccedil;a pulmonar cr&ocirc;nica. Diante da sua dificuldade em dormir, aquele senhor de oitenta e tr&ecirc;s anos pediu, entre solu&ccedil;os, para algu&eacute;m finalmente acabar com seu sofrimento. Chegou meio decepcionado ao meu consult&oacute;rio, porque estava esperando por uma Eutan&aacute;sia e acabou ganhando um Psiquiatra. &ldquo;Est&atilde;o achando que eu estou louco, doutor?&rdquo;. &ldquo;N&atilde;o, seu Amado. Est&atilde;o achando que o senhor est&aacute; deprimido.&rdquo; Ele me olhou interrogativamente, como gritando: quem n&atilde;o fica deprimido nessa minha situa&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Apesar de todos acharem que seu Amado estava entrando em fase terminal de sua doen&ccedil;a pulmonar, ele conseguiu subir a escada at&eacute; a minha sala, e falava com pouca dificuldade. Muita gente confunde Psiquiatria, que &eacute; uma especialidade M&eacute;dica, com a Psicologia, e meu paciente ficou um pouco surpreso quando eu observei que seus Pulm&otilde;es, pela apar&ecirc;ncia cl&iacute;nica, ainda tinham lenha para queimar. N&atilde;o esperava ouvir isso do psiquiatra.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Conversando com mais calma, fomos destrinchando o que estava atrapalhando o seu sono: a sensa&ccedil;&atilde;o de falta de ar, que &eacute; bastante desagrad&aacute;vel, piorava na hora de dormir, como costuma acontecer. O seu Amado ficava com a sensa&ccedil;&atilde;o de que iria morrer durante o sono e ficava brigando para n&atilde;o dormir. As medidas do Ox&iacute;metro tamb&eacute;m descartavam que sua oxigena&ccedil;&atilde;o estivesse muito baixa ou causando aquela sensa&ccedil;&atilde;o. Aquele senhor estava com medo da aproxima&ccedil;&atilde;o da sua terminalidade, e ningu&eacute;m falava sobre isso com clareza. Coube a esse psiquiatra que escreve esse texto dizer, com todas as letras que, sim, sua doen&ccedil;a iria progredir provavelmente na dire&ccedil;&atilde;o da terminalidade, que realmente estava piorando, mas que seu problema com o Sono derivava do medo de morrer dormindo. Al&eacute;m disso, em seu hist&oacute;rico pessoal e familiar havia antecedentes de Depress&atilde;o e isso perturbava muito seu descanso. Entrei com um antidepressivo que atuava bem no sono e atuava bem em idosos, e no dia seguinte, seu Amado acordou cantarolando, feliz da vida, ap&oacute;s uma boa noite de sono. Os familiares ficaram me olhando com aquela cara de que estavam olhando um bruxo ou coisa que o valha. N&atilde;o &eacute; nada disso, mas aproveitei esse breve momento de gl&oacute;ria, pois outros problemas surgiriam pela frente.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O que eles n&atilde;o sabiam &eacute; que a conversa tinha se aprofundado para o tema do qual todos fogem, que &eacute; a aproxima&ccedil;&atilde;o da Morte. Al&eacute;m de ter falado claramente com ele sobre o medo que ele sentia, falamos depois sobre sua vida e seu legado para a sua aflita fam&iacute;lia. Foi nessa hora que a consulta entrou numa esp&eacute;cie de tempo ampliado, em que o paciente come&ccedil;ou a contar a sua hist&oacute;ria: uma vida dif&iacute;cil, mas plena, de uma origem muito humilde para um final de vida confort&aacute;vel. Amado tinha guardado de sua inf&acirc;ncia pobre um medo imenso de ficar sem dinheiro e me confessou que gostaria de n&atilde;o ser t&atilde;o p&atilde;o duro. Mas, olhando de cima, tinha orgulho de sua trajet&oacute;ria. Acho que essa vis&atilde;o ajudou mais o seu sono do que o rem&eacute;dio, mas isso eu n&atilde;o falei para ningu&eacute;m.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Nas consultas seguintes, meu paciente relatou melhora de sua ang&uacute;stia, de seu apetite e disposi&ccedil;&atilde;o. O seu medo da aproxima&ccedil;&atilde;o da Morte estava mais brando e ele acreditou que ainda tinha tempo pela frente. Mas se sentia culpado, pelos anos de cigarros acesos durante todo o dia e pela demora em procurar ajuda, com medo de gastar seu dinheiro. Antes de mencionar tudo o que ele tinha conquistado e constru&iacute;do com trabalho intenso e honesto, perguntei se ele conhecia o conceito filos&oacute;fico do Amor Fati. Ele n&atilde;o conhecia, eu expliquei. Nietzshe, que amava os Est&oacute;icos, tinha emprestado deles esse termo, que significa o Amor ao Destino: abra&ccedil;ar o seu destino com todos os erros, todas as covardias e tamb&eacute;m toda a grandeza que tinham trazido aquele senhor at&eacute; aquele momento. Entre l&aacute;grimas, ele me perguntou se podia se orgulhar de sua caminhada. &Eacute; claro que podia, respondi. Ficamos no sil&ecirc;ncio que &agrave;s vezes sela uma nova compreens&atilde;o de tudo. E do todo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Meu paciente viveu mais alguns anos e faleceu por complica&ccedil;&otilde;es de seu quadro pulmonar cr&ocirc;nico. A sua fam&iacute;lia, que ainda me acha meio bruxo, creditou a sua serenidade final ao tratamento medicamentoso. Um dia vou falar com eles sobre amar e abra&ccedil;ar o destino, em sua totalidade, em vez de passar a vida pensando em como deveria ter sido esse destino.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>E voc&ecirc;s, leitores: como anda o amor pelo seu destino?<\/p>\n<p>*Marco Antonio Spinelli &eacute; m&eacute;dico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"cmtt_f40c12796f09aa4446e394ffc30a74f5\"  href=\"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/glossary\/sao-paulo\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>S&atilde;o Paulo<\/a>, psicoterapeuta de orienta&ccedil;&atilde;o junguiana e autor do livro &ldquo;Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa&rdquo;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu recebi aquele senhor no final do dia, atendendo a angustiados pedidos de sua fam&iacute;lia. O&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":512341,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11,21201],"tags":[3663],"class_list":["post-512342","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-destaques","tag-sociedade","wpcat-11-id","wpcat-21201-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/512342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=512342"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/512342\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/512341"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=512342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=512342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=512342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}