{"id":505638,"date":"2026-02-27T18:45:40","date_gmt":"2026-02-27T18:45:40","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=505638"},"modified":"2026-02-28T02:00:45","modified_gmt":"2026-02-28T02:00:45","slug":"se-a-lgpd-protege-meus-dados-por-que-o-algoritmo-sabe-tanto-sobre-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2026\/02\/se-a-lgpd-protege-meus-dados-por-que-o-algoritmo-sabe-tanto-sobre-mim\/","title":{"rendered":"Se a LGPD protege meus dados, por que o algoritmo sabe tanto sobre mim?"},"content":{"rendered":"<p>Aceitamos os termos. Rolamos a tela. Curtimos, comentamos, assistimos at&eacute; o final. E, sem perceber, somos cada vez mais previs&iacute;veis para as plataformas digitais. A pergunta que fica &eacute;: se a Lei Geral de Prote&ccedil;&atilde;o de Dados (LGPD) existe para proteger o cidad&atilde;o, como os algoritmos continuam sabendo tanto sobre n&oacute;s?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A resposta n&atilde;o &eacute; simples, e &eacute; justamente a&iacute; que mora o problema. Em vigor desde 2020, o Brasil tem uma legisla&ccedil;&atilde;o moderna de prote&ccedil;&atilde;o de dados. A LGPD (Lei n&ordm; 13.709\/2018) parte do reconhecimento de que a prote&ccedil;&atilde;o dos dados pessoais est&aacute; diretamente relacionada &agrave; tutela da dignidade da pessoa humana, dos direitos fundamentais e do livre desenvolvimento da personalidade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ou seja, na teoria, qualquer pessoa tem direito de saber quais dados s&atilde;o coletados, para que servem, com quem s&atilde;o compartilhados e at&eacute; de pedir sua exclus&atilde;o. Na pr&aacute;tica, por&eacute;m, o modelo de funcionamento das plataformas digitais cria um descompasso entre o direito escrito e a experi&ecirc;ncia real do usu&aacute;rio.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando se fala em dados pessoais, muita gente ainda pensa apenas em nome, CPF ou e-mail. Mas o conceito &eacute; muito mais amplo. Dados tamb&eacute;m s&atilde;o o tempo que voc&ecirc; passa olhando um post, os v&iacute;deos que voc&ecirc; abandona antes do final; o hor&aacute;rio em que voc&ecirc; mais acessa o seu celular; os temas que despertam sua aten&ccedil;&atilde;o e emo&ccedil;&atilde;o, entre outros.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas informa&ccedil;&otilde;es permitem criar perfis comportamentais altamente precisos. Mesmo que voc&ecirc; nunca diga quem &eacute;, o sistema aprende como voc&ecirc; age. E mais: a tecnologia n&atilde;o se limita a coletar dados &ndash; ela infere. Ou seja, deduz prefer&ecirc;ncias pol&iacute;ticas, padr&otilde;es de consumo, estado emocional e at&eacute; vulnerabilidades, a partir do comportamento digital. Muitas vezes, o usu&aacute;rio nunca forneceu esses dados conscientemente. Mas estes simplesmente foram produzidos sobre ele.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A LGPD se apoia fortemente na ideia de consentimento. Em tese, nada deveria ser feito sem que o titular concorde. Mas vale a provoca&ccedil;&atilde;o: que tipo de consentimento &eacute; esse? Termos longos, linguagem t&eacute;cnica, caixas de &lsquo;aceito&rsquo; obrigat&oacute;rias para usar servi&ccedil;os essenciais (voc&ecirc; realmente l&ecirc; tudo o que est&aacute; escrito antes de aceitar?). O usu&aacute;rio n&atilde;o escolhe de forma livre &ndash; &eacute; aderir ou ficar de fora. O consentimento vira um ritual jur&iacute;dico, n&atilde;o uma decis&atilde;o informada.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, muitas plataformas n&atilde;o dependem apenas do consentimento. Elas se apoiam em outra base legal: o chamado &lsquo;leg&iacute;timo interesse&rsquo;. Na pr&aacute;tica, isso permite o uso de dados pessoais (n&atilde;o sens&iacute;veis) para personaliza&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do, publicidade e engajamento, desde que n&atilde;o viole direitos fundamentais &ndash; um crit&eacute;rio amplo e, muitas vezes, subjetivo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez voc&ecirc; tamb&eacute;m se pergunte se seus dados se tornam p&uacute;blicos assim que voc&ecirc; entra nas redes, e a resposta &eacute;: n&atilde;o exatamente&hellip;, mas tamb&eacute;m n&atilde;o permanecem sob controle total do usu&aacute;rio.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo &lsquo;informa&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas&rsquo; continuam sendo dados pessoais e, pela lei, deveriam ter limites de uso. O problema &eacute; que grande parte do tratamento acontece fora do campo de vis&atilde;o do titular: dados t&eacute;cnicos, comportamentais e inferidos, s&atilde;o usados para alimentar sistemas de recomenda&ccedil;&atilde;o (algoritmos). O resultado &eacute; um ambiente em que o usu&aacute;rio &eacute; o centro da coleta, mas raramente o centro da decis&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A LGPD garante o direito de questionar decis&otilde;es tomadas exclusivamente por sistemas automatizados. Mas como contestar algo que n&atilde;o &eacute; transparente? Os algoritmos que definem o que aparece na sua tela, quanto voc&ecirc; paga por um servi&ccedil;o ou quais an&uacute;ncios voc&ecirc; recebe s&atilde;o, em regra, opacos. A justificativa costuma ser o &lsquo;segredo comercial&rsquo;. O efeito colateral &eacute; a falta de explicabilidade em decis&otilde;es que impactam diretamente a vida das pessoas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nada disso significa que a LGPD seja in&uacute;til, muito pelo contr&aacute;rio. Ela &eacute; um avan&ccedil;o necess&aacute;rio e um marco civilizat&oacute;rio. Mas &eacute; preciso reconhecer: uma lei, sozinha, n&atilde;o resolve a assimetria de poder entre usu&aacute;rios e grandes plataformas. Hoje, dados s&atilde;o ativos econ&ocirc;micos &ndash; engajamento &eacute; moeda, aten&ccedil;&atilde;o &eacute; produto, e os algoritmos s&atilde;o os intermedi&aacute;rios invis&iacute;veis dessa economia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto o debate se limitar apenas ao &lsquo;aceito os termos&rsquo;, continuaremos com titulares de direitos apenas no papel e usu&aacute;rios cada vez mais previs&iacute;veis na pr&aacute;tica. Talvez a pergunta mais honesta n&atilde;o seja se nossos dados est&atilde;o sendo usados legalmente, mas se est&atilde;o sendo usados de forma justa, transparente e proporcional. E essa &eacute; uma conversa que precisa sair dos termos de uso e entrar, de vez, no centro do debate p&uacute;blico.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Andrea Mottola &eacute; advogada especialista em Direito do Consumidor e Direito Digital. &Eacute; coautora do livro Golpes Contra a Pessoa Idosa, Portal Edi&ccedil;&otilde;es, 2024. https:\/\/mottolaemedeirosadv.adv.br\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aceitamos os termos. Rolamos a tela. Curtimos, comentamos, assistimos at&eacute; o final. 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