{"id":455503,"date":"2025-11-18T15:22:44","date_gmt":"2025-11-18T15:22:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2025\/11\/o-direito-de-nao-estar-bem-a-coragem-de-sustentar-o-desconforto-nas-organizacoes\/"},"modified":"2025-11-18T15:22:44","modified_gmt":"2025-11-18T15:22:44","slug":"o-direito-de-nao-estar-bem-a-coragem-de-sustentar-o-desconforto-nas-organizacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2025\/11\/o-direito-de-nao-estar-bem-a-coragem-de-sustentar-o-desconforto-nas-organizacoes\/","title":{"rendered":"O direito de n\u00e3o estar bem: a coragem de sustentar o desconforto nas organiza\u00e7\u00f5es*"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Em um mundo corporativo que valoriza a produtividade incessante e a efici&ecirc;ncia, h&aacute; uma tend&ecirc;ncia a negligenciar o bem-estar emocional dos colaboradores. A press&atilde;o para estar sempre bem, motivado e produtivo pode ser avassaladora.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Na psicologia, diversos autores mostram que essa press&atilde;o externa pode se transformar em um &ldquo;self de dever&rdquo; &ndash; aquilo que eu acredito que devo ser para ser aceito &ndash; como descreve E. Tory Higgins na teoria da discrep&acirc;ncia do self (1987). Quando isso acontece, o sujeito passa a funcionar mais a partir das expectativas externas do que da pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia interna, o que abre espa&ccedil;o para adoecimento emocional.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Outro estudioso, Carl Rogers, tamb&eacute;m apontava que, quando vivemos mais para corresponder &agrave;s &ldquo;condi&ccedil;&otilde;es de valor&rdquo; (o que o outro espera que eu seja) do que para a nossa experi&ecirc;ncia real, perdemos autenticidade e nos afastamos do self real.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>J&aacute; Winnicott chamaria isso de forma&ccedil;&atilde;o de um &ldquo;falso self&rdquo; &ndash; uma adapta&ccedil;&atilde;o excessiva ao ambiente para n&atilde;o perder o v&iacute;nculo. Esse &eacute; um ponto de partida importante para pensar o sofrimento no trabalho: nem sempre o problema come&ccedil;a na empresa; muitas vezes ele &eacute; ativado pela empresa, mas nasce dessa dist&acirc;ncia entre quem sou, quem devo ser e quem gostaria de ser.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><strong>A realidade do bem-estar no ambiente de trabalho<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisas recentes revelam um panorama preocupante sobre a sa&uacute;de mental dos trabalhadores. Um estudo realizado pela Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS) estima que 15% dos adultos em idade ativa apresentam algum transtorno mental, sendo que a depress&atilde;o e a ansiedade s&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es mais prevalentes. Al&eacute;m disso, a OMS aponta que cerca de 12 bilh&otilde;es de dias de trabalho s&atilde;o perdidos anualmente devido a esses transtornos, resultando em um custo econ&ocirc;mico global de aproximadamente US$ 1 trilh&atilde;o por ano em perda de produtividade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>No Brasil, a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; igualmente alarmante. Segundo uma pesquisa realizada por Paul Ferreira, vice-diretor do N&uacute;cleo de Estudos em Organiza&ccedil;&otilde;es e Pessoas (NEOP) da Escola de Administra&ccedil;&atilde;o de Empresas de <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"cmtt_f40c12796f09aa4446e394ffc30a74f5\"  href=\"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/glossary\/sao-paulo\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>S&atilde;o Paulo<\/a> (FGV EAESP), 43% dos respondentes alegaram que est&atilde;o com sobrecarga de trabalho; 31% sofrem press&atilde;o por resultados e metas; 30% sentem que precisam estar dispon&iacute;veis o tempo todo; e 27% relatam falta de empatia ou apoio da lideran&ccedil;a direta. Essa estat&iacute;stica reflete um cen&aacute;rio em que muitos profissionais enfrentam estresse, ansiedade e outros desafios emocionais relacionados ao ambiente de trabalho.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Quando somamos isso &agrave; exig&ecirc;ncia t&aacute;cita de &ldquo;estar sempre bem&rdquo;, entramos no que Arlie Hochschild (1983) descreveu como &ldquo;trabalho emocional&rdquo;: o esfor&ccedil;o de gerenciar e at&eacute; mascarar sentimentos para atender &agrave;s expectativas da organiza&ccedil;&atilde;o. Ou seja: n&atilde;o &eacute; que as pessoas n&atilde;o sintam; &eacute; que o contexto ensina a n&atilde;o demonstrar.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><strong>O papel das empresas na legitimiza&ccedil;&atilde;o do sentir<\/strong><\/p>\n<p>Muitas organiza&ccedil;&otilde;es, ainda que de forma n&atilde;o intencional, fetichizam a positividade. Criam uma norma emocional de que &ldquo;aqui todo mundo est&aacute; bem&rdquo;, e isso faz com que os colaboradores aprendam a performar bem-estar, n&atilde;o necessariamente a viv&ecirc;-lo. A cultura do &ldquo;estar bem&rdquo; &eacute;, portanto, muito mais um produto da gest&atilde;o do que da pessoa. Por isso, as pessoas n&atilde;o falam n&atilde;o s&oacute; porque lhes falta coragem, mas porque lhes falta permiss&atilde;o. &Eacute; nesse ponto que a empresa precisa entrar: criando condi&ccedil;&otilde;es seguras para que o desconforto possa ser nomeado sem puni&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>As organiza&ccedil;&otilde;es desempenham um papel crucial na cria&ccedil;&atilde;o de ambientes que permitam aos colaboradores expressar suas emo&ccedil;&otilde;es sem medo de retalia&ccedil;&otilde;es ou julgamentos. Isso envolve mais do que oferecer programas de bem-estar superficiais; trata-se de cultivar uma cultura organizacional que valorize a sa&uacute;de mental e emocional de forma genu&iacute;na e n&atilde;o apenas perform&aacute;tica.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Do ponto de vista da psicologia social (Erving Goffman, 1959), isso significa permitir que as pessoas possam, ao menos em alguns espa&ccedil;os, baixar a &ldquo;m&aacute;scara de desempenho&rdquo; e mostrar o self real, e n&atilde;o apenas o self perform&aacute;tico criado para a plateia corporativa.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Investir em sa&uacute;de emocional no ambiente corporativo traz benef&iacute;cios tang&iacute;veis, como aumento da produtividade, redu&ccedil;&atilde;o do absente&iacute;smo e maior reten&ccedil;&atilde;o de talentos. Al&eacute;m disso, colaboradores emocionalmente equilibrados tendem a ser mais resilientes, adapt&aacute;veis e capazes de trabalhar em equipe, contribuindo para um ambiente de trabalho positivo. Mas isso s&oacute; acontece quando a empresa autoriza a vulnerabilidade e n&atilde;o a penaliza.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><strong>A coragem de sustentar o desconforto<\/strong><\/p>\n<p>Admitir que n&atilde;o estamos bem exige coragem. Bren&eacute; Brown, em seus estudos sobre vulnerabilidade, mostra que a verdadeira coragem n&atilde;o &eacute; eliminar a incerteza, mas entrar nela mesmo assim &ndash; isto &eacute;, sustentar a exposi&ccedil;&atilde;o emocional. Antes dela, a psicologia humanista e existencial (por exemplo, Rollo May e Viktor Frankl) j&aacute; afirmava que encarar a pr&oacute;pria ang&uacute;stia &eacute; condi&ccedil;&atilde;o para uma vida aut&ecirc;ntica. No contexto corporativo, isso significa criar espa&ccedil;os seguros (psychological safety, Amy Edmondson, 1999), no qual os colaboradores possam expressar suas dificuldades sem medo de estigmatiza&ccedil;&atilde;o, puni&ccedil;&atilde;o ou rotulagem como &ldquo;pouco engajados&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Implementar pol&iacute;ticas de escuta ativa, oferecer suporte psicol&oacute;gico e promover treinamentos sobre intelig&ecirc;ncia emocional s&atilde;o passos essenciais para fomentar essa cultura de vulnerabilidade saud&aacute;vel. Al&eacute;m disso, l&iacute;deres devem ser treinados para reconhecer sinais de desgaste emocional e agir de forma proativa para oferecer apoio.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Lideran&ccedil;as que s&oacute; refor&ccedil;am o discurso de alta performance, mas n&atilde;o modelam vulnerabilidade (&ldquo;hoje eu tamb&eacute;m n&atilde;o estou no meu melhor&rdquo;, &ldquo;estou sobrecarregado&rdquo;) acabam refor&ccedil;ando o falso self coletivo. Quando a lideran&ccedil;a mostra humanidade, ela d&aacute; permiss&atilde;o para que a equipe tamb&eacute;m mostre.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Consultorias especializadas em bem-estar corporativo desempenham um papel fundamental nesse processo. Elas auxiliam as empresas a desenvolver estrat&eacute;gias personalizadas para promover a sa&uacute;de mental e emocional dos colaboradores. Isso inclui a implementa&ccedil;&atilde;o de programas de apoio psicol&oacute;gico, <em>workshops<\/em> sobre gest&atilde;o de estresse, treinamentos de lideran&ccedil;a emp&aacute;tica e a cria&ccedil;&atilde;o de canais de comunica&ccedil;&atilde;o eficazes. Esses parceiros externos tamb&eacute;m ajudam a quebrar a ideia de que sofrimento &eacute; &ldquo;assunto pessoal&rdquo; e trazem para o n&iacute;vel organizacional o entendimento de que sofrimento muitas vezes &eacute;efeito da forma como o trabalho &eacute; estruturado, da carga e da cultura &ndash; n&atilde;o de fragilidade individual.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Al&eacute;m disso, essas consultorias auxiliam na avalia&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua do clima organizacional, identificando &aacute;reas de melhoria e propondo solu&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas para criar ambientes de trabalho mais saud&aacute;veis e produtivos. Elas ajudam a transformar &ldquo;coragem individual&rdquo; em &ldquo;permiss&atilde;o coletiva&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><strong>Conclus&atilde;o: o direito de n&atilde;o estar bem<\/strong><\/p>\n<p>O direito de n&atilde;o estar bem &eacute; essencial para a constru&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es mais humanas e produtivas. Ao reconhecer e legitimar o sentir, as empresas n&atilde;o apenas promovem o bem-estar de seus colaboradores, mas tamb&eacute;m investem em sua pr&oacute;pria sustentabilidade e sucesso a longo prazo. Do ponto de vista psicol&oacute;gico, isso significa reduzir a discrep&acirc;ncia entre o self real (&ldquo;quem eu sou agora&rdquo;), o self ideal (&ldquo;quem eu gostaria de ser&rdquo;) e o self de dever (&ldquo;quem esperam que eu seja&rdquo;), como descreveu Higgins. Quanto maior essa discrep&acirc;ncia, maior a chance de sentimentos de vergonha, ansiedade e inadequa&ccedil;&atilde;o. Quanto menor, maior a autenticidade e o engajamento verdadeiro.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Por isso, n&atilde;o basta dizer &agrave;s pessoas &ldquo;tenham coragem&rdquo;. &Eacute; preciso que as organiza&ccedil;&otilde;es digam &ldquo;voc&ecirc;s t&ecirc;m permiss&atilde;o&rdquo;. Porque, muitas vezes, o ponto de partida do adoecimento n&atilde;o &eacute; a incapacidade individual de lidar com emo&ccedil;&otilde;es, mas o fato de que o sistema n&atilde;o admite emo&ccedil;&atilde;o. Criar ambientes que acolham a vulnerabilidade e ofere&ccedil;am suporte adequado &eacute; uma responsabilidade compartilhada que beneficia a todos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><i><strong>*Lisia Prado &eacute; s&oacute;cia da House of Feelings, primeira escola de sentimentos do mundo. Mais informa&ccedil;&otilde;es no <\/strong><\/i><a href=\"https:\/\/www.houseoffeelings.com\/\">site<\/a><i><strong>.<\/strong><\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um mundo corporativo que valoriza a produtividade incessante e a efici&ecirc;ncia, h&aacute; uma tend&ecirc;ncia a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[39490,21201,17,39460,14418],"tags":[],"class_list":["post-455503","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque-blog-home","category-destaques","category-geral","category-house-of-feelings","category-noticias","wpcat-39490-id","wpcat-21201-id","wpcat-17-id","wpcat-39460-id","wpcat-14418-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/455503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=455503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/455503\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=455503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=455503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=455503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}