{"id":454576,"date":"2025-10-09T15:15:42","date_gmt":"2025-10-09T15:15:42","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2025\/10\/meia-idade-carreira-e-saude-mental-reinventando-a-estabilidade\/"},"modified":"2025-10-09T15:15:42","modified_gmt":"2025-10-09T15:15:42","slug":"meia-idade-carreira-e-saude-mental-reinventando-a-estabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2025\/10\/meia-idade-carreira-e-saude-mental-reinventando-a-estabilidade\/","title":{"rendered":"Meia-idade, carreira e sa\u00fade mental: reinventando a estabilidade"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Quem nunca se pegou comparando sua vida com a dos pais na mesma faixa et&aacute;ria? Aos 40, eles tinham casa, estabilidade e planos para a aposentadoria. N&oacute;s, por&eacute;m, chegamos ao mesmo ponto com d&iacute;vidas acumuladas, empregos inst&aacute;veis, aluguel e uma sensa&ccedil;&atilde;o constante de atraso. N&atilde;o por falta de dedica&ccedil;&atilde;o, mas como reflexo das profundas mudan&ccedil;as no tecido social e econ&ocirc;mico.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Dados recentes ajudam a iluminar por que esse choque de expectativas existe. Segundo levantamento da Serasa de outubro de 2024, 73,1 milh&otilde;es de brasileiros est&atilde;o endividados; a faixa et&aacute;ria entre 41 e 60 anos representa a maior parte daqueles com restri&ccedil;&atilde;o de cr&eacute;dito (&ldquo;nome sujo&rdquo;), com 35,1% deste total.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>E n&atilde;o s&atilde;o s&oacute; as finan&ccedil;as: o desemprego de longa dura&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; alarmante. No segundo trimestre de 2025, o IBGE apontou que 1,254 milh&atilde;o de pessoas estavam desempregadas h&aacute; pelo menos dois anos; se considerarmos quem busca emprego h&aacute; pelo menos um ano, esse n&uacute;mero sobe para 1,913 milh&otilde;es. Em outro corte anterior, o primeiro trimestre de 2024 registrava 1,916 milh&atilde;o nessa mesma condi&ccedil;&atilde;o de pelo menos dois anos sem emprego.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Paralelamente, h&aacute; uma crescente precariza&ccedil;&atilde;o da renda. Segundo an&aacute;lise da Pnad Cont&iacute;nua e de outras pesquisas, o n&uacute;mero de pessoas trabalhando por at&eacute; um sal&aacute;rio m&iacute;nimo cresceu bastante desde 2020, indicando que muitos empregos gerados n&atilde;o oferecem seguran&ccedil;a ou renda adequada para se manter uma base est&aacute;vel de vida.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>De fato, estabilidade financeira, que muitos acreditavam vir &ldquo;automaticamente&rdquo; com a idade, hoje parece mais escassa. Rela&ccedil;&otilde;es de trabalho mudam: contratos s&atilde;o menos fixos, &ldquo;freelas&rdquo;, responsabilidades variadas (muitas vezes com jornadas al&eacute;m do convencional), e menos previsibilidade para planejar o futuro. A habita&ccedil;&atilde;o est&aacute; cada vez mais distante para muitos: os pre&ccedil;os dos im&oacute;veis, altos juros de financiamento e infla&ccedil;&atilde;o corroem o poder de compra, enquanto os alugu&eacute;is sobem, comprometendo boa parte da renda mensal.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Outro fator que agrava esse cen&aacute;rio &eacute; o etarismo. Muitas organiza&ccedil;&otilde;es ainda preferem contratar jovens, associando idade &agrave; obsolesc&ecirc;ncia, quando, na verdade, a experi&ecirc;ncia &eacute; um ativo estrat&eacute;gico.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Estudos e artigos do F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial apontam que muitos empregadores e processos de sele&ccedil;&atilde;o tendem a favorecer candidatos mais jovens; uma estimativa indica que at&eacute; 76% dos empregados j&aacute; sofreram discrimina&ccedil;&atilde;o et&aacute;ria (em algum n&iacute;vel). Esse preconceito et&aacute;rio n&atilde;o s&oacute; limita oportunidades profissionais, como tamb&eacute;m impacta diretamente a sa&uacute;de mental daqueles que se veem descartados em plena idade produtiva.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><strong>Sa&uacute;de mental<\/strong><\/p>\n<p>O impacto psicol&oacute;gico dessa realidade &eacute; forte. Pesquisa da Serasa de 2022 (&ldquo;Perfil e Comportamento do Endividamento Brasileiro&rdquo;) com mais de 5 mil pessoas revelou que 83% dos endividados t&ecirc;m dificuldade para dormir por causa das d&iacute;vidas, e 74% relatam dificuldade para se concentrar. Esses sintomas &ndash; ins&ocirc;nia, ansiedade, rumina&ccedil;&atilde;o &ndash; se somam ao desgaste de batalhar num mercado incerto.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Outro aspecto &eacute; que na meia-idade pode acontecer o risco da chamada &lsquo;crise de relev&acirc;ncia&rsquo;: a sensa&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o se &eacute; mais competitivo, desejado ou valorizado no mercado, o que intensifica quadros de ansiedade e depress&atilde;o<\/p>\n<p>Por fim, a sa&uacute;de mental &eacute; que paga o pre&ccedil;o desses desequil&iacute;brios: al&eacute;m dos sintomas de ansiedade e ins&ocirc;nia j&aacute; apontados, h&aacute; relatos mais gerais de burnout, sensa&ccedil;&atilde;o de fracasso (quando comparados a padr&otilde;es irreais), culpa por n&atilde;o cumprir &ldquo;roteiros&rdquo; herdados, e medo de envelhecer com d&iacute;vidas ou sem recursos. Se a carreira &eacute; vista como uma pista de corrida, muitos se sentem trope&ccedil;ando em cada quil&ocirc;metro.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><strong>Luz no fim do t&uacute;nel<\/strong><\/p>\n<p>Mas h&aacute; esperan&ccedil;a &ndash; e alternativas. Primeiro, reconhecer que o modelo tradicional de &ldquo;sucesso&rdquo; (casa, emprego, aposentadoria est&aacute;vel com 30-40 anos) est&aacute; em transi&ccedil;&atilde;o. Para muita gente, a estabilidade poder&aacute; significar autonomia, flexibilidade, seguran&ccedil;a m&iacute;nima, boas rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, sa&uacute;de f&iacute;sica e mental mantida, suporte social. Significa tamb&eacute;m reconfigurar a maneira de pensar carreira: n&atilde;o necessariamente linear, mas modular, com pausas, reinven&ccedil;&otilde;es, aprendizados cont&iacute;nuos, talvez m&uacute;ltiplos projetos que se sobrep&otilde;em.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>De acordo com a acad&ecirc;mica Herminia Ibarra, a sugest&atilde;o para este cen&aacute;rio &eacute; adotar uma mentalidade exploradora, experimentar &ldquo;possible selves&rdquo; (vers&otilde;es de si mesmo que ainda n&atilde;o est&atilde;o totalmente definidas), usar fases &ldquo;liminais&rdquo; (per&iacute;odos de transi&ccedil;&atilde;o\/incerteza) para testar novos pap&eacute;is, e focar em pequenos passos e aprendizagens.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Segundo, pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e reformas s&atilde;o essenciais: redes de prote&ccedil;&atilde;o social fortes; est&iacute;mulo &agrave; qualifica&ccedil;&atilde;o e reciclagem profissional ao longo da vida; acesso a sa&uacute;de mental p&uacute;blica; moradia com financiamento justo e subs&iacute;dios onde necess&aacute;rio; regula&ccedil;&atilde;o que minimize o impacto da infla&ccedil;&atilde;o sobre rendas baixas; regula&ccedil;&atilde;o de juros mais justos; cr&eacute;dito respons&aacute;vel.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Terceiro, no plano pessoal, pr&aacute;ticas que ajudam: definir prioridades de vida (o que realmente importa para &ldquo;viver bem&rdquo;); limitar compara&ccedil;&otilde;es com padr&otilde;es alheios; desenvolver ferramentas de autocuidado; buscar redes de suporte (familiares, amizades, grupos de interesse); negociar expectativas no ambiente de trabalho; aprender finan&ccedil;as b&aacute;sicas; planejar mesmo em contexto incerto.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A grande virada est&aacute; em redefinir o que entendemos por sucesso: n&atilde;o apenas patrim&ocirc;nio ou t&iacute;tulo, mas qualidade de vida, sa&uacute;de emocional, liberdade e rela&ccedil;&otilde;es significativas. Isso, claro, sem ignorar a realidade de que precisamos pagar contas, sustentar fam&iacute;lias e lidar com compromissos financeiros. O equil&iacute;brio est&aacute; em buscar escolhas mais saud&aacute;veis e conscientes que, ao mesmo tempo, mantenham nossa estabilidade pr&aacute;tica e fortale&ccedil;am nossa vida emocional.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Em resumo: a verdadeira revolu&ccedil;&atilde;o dessa gera&ccedil;&atilde;o est&aacute; em ter coragem de criar um novo roteiro. Um roteiro que n&atilde;o imite, mas dialogue com o passado; que n&atilde;o se curve &agrave; press&atilde;o externa, mas se baseie no que podemos controlar. Meios que permitam viver bem aos 40 &ndash; com sa&uacute;de mental, dignidade, realiza&ccedil;&atilde;o &ndash; podem (e devem) ser constru&iacute;dos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><i><strong>*Lisia Prado &eacute; s&oacute;cia da House of Feelings, primeira escola de sentimentos do mundo. Mais informa&ccedil;&otilde;es no&nbsp;<\/strong><\/i><a href=\"https:\/\/www.houseoffeelings.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.houseoffeelings.com&amp;source=gmail&amp;ust=1752584478277000&amp;usg=AOvVaw13mB51WWTAWtAj72Kfs2wo\">site<\/a><i><strong>.<\/strong><\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem nunca se pegou comparando sua vida com a dos pais na mesma faixa et&aacute;ria? 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