{"id":452739,"date":"2025-10-20T22:32:18","date_gmt":"2025-10-20T22:32:18","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=452739"},"modified":"2025-10-20T22:32:31","modified_gmt":"2025-10-20T22:32:31","slug":"orreios-em-crise-o-retrato-da-ineficiencia-e-do-uso-politico-das-estatais-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2025\/10\/orreios-em-crise-o-retrato-da-ineficiencia-e-do-uso-politico-das-estatais-brasileiras\/","title":{"rendered":"Correios em crise: o retrato da inefici\u00eancia e do uso pol\u00edtico das estatais brasileiras"},"content":{"rendered":"<p class=\"ql-align-justify\"><em>&nbsp;&ndash; Por Andr&eacute; Charone &ndash;<\/em><\/p>\n<p>Durante d&eacute;cadas, os <strong>Correios<\/strong> foram s&iacute;mbolo de confian&ccedil;a. A empresa p&uacute;blica entregava cartas, encomendas e resultados, financeiros, inclusive. Em 2020 e 2021, em plena pandemia, a estatal chegou a registrar <strong>lucros expressivos<\/strong>, impulsionada pelo boom do e-commerce e por um plano de reestrutura&ccedil;&atilde;o que, pela primeira vez em anos, parecia colocar a casa em ordem.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\">Mas bastaram poucas trocas de comando e uma guinada de orienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica para que o cen&aacute;rio se invertesse. O que era lucro virou <strong>rombo bilion&aacute;rio<\/strong>. O que era efici&ecirc;ncia virou <strong>aparelho pol&iacute;tico<\/strong>. E o que era promessa de moderniza&ccedil;&atilde;o virou <strong>laborat&oacute;rio de improvisos estatais<\/strong>.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>Do lucro ao buraco: uma linha do tempo que explica tudo<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">Em 2020, os Correios fecharam o ano com <strong>lucro l&iacute;quido de R$ 1,53 bilh&atilde;o<\/strong>, o melhor resultado em quase uma d&eacute;cada. Em 2021, mantiveram o f&ocirc;lego, com <strong>lucro de R$ 3,7 bilh&otilde;es<\/strong>, resultado de medidas de austeridade, corte de custos, digitaliza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os e ganhos com o mercado de encomendas, impulsionado pelas compras online em plena pandemia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\">Foi um momento raro em que a empresa parecia ter encontrado um rumo: um modelo enxuto, com foco comercial, governan&ccedil;a corporativa mais r&iacute;gida e discurso de efici&ecirc;ncia. Havia, inclusive, debate sobre <strong>poss&iacute;vel privatiza&ccedil;&atilde;o<\/strong>, o que pressionou a estatal a mostrar resultados concretos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\">Mas o bom momento durou pouco. A partir de 2022, j&aacute; sob nova dire&ccedil;&atilde;o e um contexto pol&iacute;tico diferente, os n&uacute;meros come&ccedil;aram a despencar:<\/p>\n<ul>\n<li class=\"ql-align-justify\"><strong>2022:<\/strong> preju&iacute;zo de <strong>R$ 808,8 milh&otilde;es<\/strong>;<\/li>\n<li class=\"ql-align-justify\"><strong>2023:<\/strong> preju&iacute;zo de <strong>R$ 633,5 milh&otilde;es<\/strong>;<\/li>\n<li class=\"ql-align-justify\"><strong>2024:<\/strong> preju&iacute;zo de <strong>R$ 2,59 bilh&otilde;es<\/strong>;<\/li>\n<li class=\"ql-align-justify\"><strong>1&ordm; semestre de 2025:<\/strong> preju&iacute;zo acumulado de <strong>R$ 4,3 bilh&otilde;es,<\/strong> superando todo o ano anterior.<\/li>\n<\/ul>\n<p class=\"ql-align-justify\">Ou seja, em menos de tr&ecirc;s anos, a estatal saiu de um ciclo de lucros recordes para um abismo financeiro que amea&ccedil;a sua pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>O que piorou desde ent&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>1. Interfer&ecirc;ncia pol&iacute;tica e aparelhamento<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">A governan&ccedil;a que existia foi desmontada. Cargos t&eacute;cnicos foram substitu&iacute;dos por indica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, com diretores escolhidos mais por v&iacute;nculos partid&aacute;rios do que por experi&ecirc;ncia em log&iacute;stica ou gest&atilde;o empresarial. A l&oacute;gica empresarial deu lugar &agrave; l&oacute;gica do &ldquo;quem indica&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>2. Revers&atilde;o de medidas de efici&ecirc;ncia<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">A estatal abandonou parte das reformas administrativas implementadas entre 2019 e 2021, inclusive cortes de contratos e redu&ccedil;&atilde;o de gastos de custeio. Os custos operacionais voltaram a crescer, e a produtividade por funcion&aacute;rio caiu.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>3. Impactos de pol&iacute;ticas tribut&aacute;rias e comerciais equivocadas<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">A <strong>&ldquo;Taxa das Blusinhas&rdquo;<\/strong>, criada para tributar pequenas remessas internacionais, reduziu drasticamente o volume de importa&ccedil;&otilde;es processadas pelos Correios. O que o governo vendeu como &ldquo;prote&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria nacional&rdquo; se transformou em um golpe na principal fonte de receita da estatal.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>4. Paralisia estrat&eacute;gica<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">Enquanto concorrentes privados investem em automa&ccedil;&atilde;o, intelig&ecirc;ncia artificial e rastreamento em tempo real, os Correios continuam com sistemas obsoletos e processos manuais. O resultado &eacute; previs&iacute;vel: atrasos, extravios e perda de mercado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>5. Explos&atilde;o de custos fixos e passivos trabalhistas<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">A empresa carrega uma estrutura pesada: <strong>6 mil ag&ecirc;ncias pr&oacute;prias<\/strong>, muitas deficit&aacute;rias, e obriga&ccedil;&otilde;es trabalhistas gigantescas. O balan&ccedil;o de 2024 mostra <strong>R$ 18,9 bilh&otilde;es em receita l&iacute;quida<\/strong>, mas <strong>R$ 4,7 bilh&otilde;es apenas em despesas administrativas<\/strong>. As provis&otilde;es cont&aacute;beis de planos de aposentadoria e benef&iacute;cios p&oacute;s-emprego (CPC 33) continuam corroendo o resultado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>O uso pol&iacute;tico das estatais: a velha hist&oacute;ria reeditada<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">Nenhuma empresa sobrevive quando &eacute; tratada como ferramenta partid&aacute;ria. E &eacute; exatamente isso que acontece com os Correios. A cada troca de governo, muda o discurso, mas o roteiro &eacute; o mesmo: <strong>cargos loteados, decis&otilde;es lentas e promessas vazias<\/strong>.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\">A interfer&ecirc;ncia pol&iacute;tica &eacute; t&atilde;o intensa que o <strong>Tribunal de Contas da Uni&atilde;o<\/strong> alertou para o &ldquo;risco de insustentabilidade&rdquo; da estatal. E, para remediar o caos, o governo federal j&aacute; prepara um <strong>empr&eacute;stimo de R$ 20 bilh&otilde;es com garantia da Uni&atilde;o, <\/strong>em outras palavras, o contribuinte novamente vai pagar a conta da m&aacute; gest&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\"><strong>O atraso nas entregas e na gest&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">Ironia das ironias: os Correios conseguiram ser lucrativos sob um modelo de austeridade e controle, e voltaram ao preju&iacute;zo justamente quando se prometeram &ldquo;humanizar&rdquo; a gest&atilde;o e &ldquo;fortalecer o papel social&rdquo; da empresa. O resultado desse &ldquo;novo modelo&rdquo; &eacute; o de sempre: rombos, promessas e pacotes que n&atilde;o chegam.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\">Enquanto o pa&iacute;s discute &ldquo;governan&ccedil;a p&uacute;blica&rdquo;, a estatal segue operando como uma reparti&ccedil;&atilde;o anacr&ocirc;nica: departamentos ineficientes, sistemas travados e uma comunica&ccedil;&atilde;o que parece escrita por estagi&aacute;rios de 1995. O que deveria ser orgulho nacional virou uma caricatura de burocracia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p class=\"ql-align-justify\">Os Correios s&atilde;o o retrato de um pa&iacute;s que se recusa a aprender com os pr&oacute;prios erros. J&aacute; provaram que podem ser eficientes quando geridos com t&eacute;cnica e responsabilidade. Mas, enquanto continuarem servindo de instrumento pol&iacute;tico, continuar&atilde;o entregando, com atraso, apenas <strong>preju&iacute;zos<\/strong>.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><strong>Sobre o autor:<\/strong><\/p>\n<h5>Andr&eacute; Charone &eacute; contador, professor universit&aacute;rio, Mestre em Neg&oacute;cios Internacionais pela Must University (Fl&oacute;rida-EUA), possui MBA em Gest&atilde;o Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (<a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"cmtt_f40c12796f09aa4446e394ffc30a74f5\"  href=\"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/glossary\/sao-paulo\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>S&atilde;o Paulo<\/a> &ndash; Brasil) e certifica&ccedil;&atilde;o internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Fl&oacute;rida-EUA).<\/h5>\n<h5>&nbsp;&Eacute; s&oacute;cio do escrit&oacute;rio Belconta &ndash; Bel&eacute;m Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na &aacute;rea cont&aacute;bil, empresarial e educacional.<\/h5>\n<h5>&nbsp;Seu mais recente trabalho &eacute; o livro &ldquo;Empres&aacute;rio Sem Fronteiras: Importa&ccedil;&atilde;o e Exporta&ccedil;&atilde;o para pequenas empresas na pr&aacute;tica&rdquo;, em que apresenta um guia realista para transformar neg&oacute;cios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estrat&eacute;gias de importa&ccedil;&atilde;o, exporta&ccedil;&atilde;o, precifica&ccedil;&atilde;o para mercados externos, regimes tribut&aacute;rios corretos, al&eacute;m de dicas pr&aacute;ticas de negocia&ccedil;&atilde;o e preven&ccedil;&atilde;o contra armadilhas no com&eacute;rcio internacional.<\/h5>\n<p>Dispon&iacute;vel em vers&atilde;o f&iacute;sica:&nbsp;<a href=\"https:\/\/click.cse360.com.br\/Click\/AddCampaignEmailClick\/a454a344-db45-4c01-bc91-08ddfba403c3\/https%253a%252f%252floja.uiclap.com%252ftitulo%252fua111005%252f\/83288b97-4297-4165-cec0-08d7c5ff26d1\/redacao@redepress.com.br\/True\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/loja.uiclap.com\/titulo\/ua111005\/<\/a><\/p>\n<p>e digital:&nbsp;<a href=\"https:\/\/click.cse360.com.br\/Click\/AddCampaignEmailClick\/a454a344-db45-4c01-bc91-08ddfba403c3\/https%253a%252f%252fplay.google.com%252fstore%252fbooks%252fdetails%253fid%253dnAB5EQAAQBAJ%2526pli%253d1\/83288b97-4297-4165-cec0-08d7c5ff26d1\/redacao@redepress.com.br\/True\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/play.google.com\/store\/books\/details?id=nAB5EQAAQBAJ&amp;pli=1<\/a><\/p>\n<p>Instagram: @andrecharone<\/p>\n<p class=\"ql-align-justify\">\n<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&ndash; Por Andr&eacute; Charone &ndash; Durante d&eacute;cadas, os Correios foram s&iacute;mbolo de confian&ccedil;a. 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