{"id":452698,"date":"2025-10-17T21:11:56","date_gmt":"2025-10-17T21:11:56","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=452698"},"modified":"2025-10-17T21:11:57","modified_gmt":"2025-10-17T21:11:57","slug":"a-venda-casada-no-cade-sera-o-fim-da-submissao-financeira-do-produtor-rural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2025\/10\/a-venda-casada-no-cade-sera-o-fim-da-submissao-financeira-do-produtor-rural\/","title":{"rendered":"A venda casada no CADE: ser\u00e1 o fim da submiss\u00e3o financeira do produtor rural?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><!-- htmlmin:ignore --><!-- htmlmin:ignore -->O CADE &ndash; Conselho Administrativo de Defesa Econ&ocirc;mica &ndash; existe desde 1962 e sua miss&atilde;o &eacute; cristalina: zelar pela livre concorr&ecirc;ncia, prevenir e reprimir infra&ccedil;&otilde;es &agrave; ordem econ&ocirc;mica, investigar e punir pr&aacute;ticas anticoncorrenciais. Pois bem:<\/p>\n<p>A venda casada no cr&eacute;dito rural do Banco do Brasil n&atilde;o surgiu ontem. N&atilde;o &eacute; novidade de 2025. Ex-funcion&aacute;rios do pr&oacute;prio banco confirmam que a pr&aacute;tica existe h&aacute; d&eacute;cadas. Produtores reclamam h&aacute; anos nas associa&ccedil;&otilde;es, sindicatos e corredores de ag&ecirc;ncias. Entidades do setor denunciam publicamente. Advogados alertam. Os ind&iacute;cios n&atilde;o estavam escondidos em cofres secretos &ndash; estavam escancarados para quem quisesse ver.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>E o CADE, caros leitores?<\/p>\n<p>Bom, o CADE passou d&eacute;cadas olhando para o lado. Fingindo que n&atilde;o via. Deixando que o maior operador de cr&eacute;dito rural do pa&iacute;s transformasse pol&iacute;tica p&uacute;blica em esquema de extors&atilde;o contra o produtor rural.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Agora, finalmente, o &oacute;rg&atilde;o reconheceu que h&aacute; ind&iacute;cios de venda casada no cr&eacute;dito rural e admitiu sua compet&ecirc;ncia para investigar pr&aacute;ticas anticoncorrenciais que prejudicam produtores h&aacute; d&eacute;cadas. E esse fato, dizem, &eacute; hist&oacute;rico.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>N&atilde;o. N&atilde;o &eacute;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Tratar como &ldquo;marco hist&oacute;rico&rdquo; o fato de o CADE fazer o trabalho para o qual foi criado, financiado com recursos p&uacute;blicos e legalmente obrigado a executar n&atilde;o &eacute; reconhecimento de avan&ccedil;o institucional. &Eacute; confiss&atilde;o constrangedora de que rebaixamos tanto o padr&atilde;o de expectativa sobre nossas institui&ccedil;&otilde;es que qualquer migalha de funcionalidade b&aacute;sica vira motivo de festa.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&Eacute; a trag&eacute;dia brasileira em sua ess&ecirc;ncia mais pura: naturalizar a incompet&ecirc;ncia a ponto de comemorar quando ela temporariamente se ausenta.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&Eacute; como chamar de &ldquo;revolucion&aacute;rio&rdquo; o fato de um bombeiro finalmente apagar um inc&ecirc;ndio depois de assistir passivamente o pr&eacute;dio queimar por d&eacute;cadas. &Eacute; como celebrar um policial por prender um criminoso depois de v&ecirc;-lo cometer crimes diariamente sem intervir. &Eacute; transformar a exce&ccedil;&atilde;o vergonhosa em regra comemor&aacute;vel.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Um verdadeiro marco hist&oacute;rico n&atilde;o seria o CADE abrir inqu&eacute;rito. Seria o CADE conduzir uma investiga&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida, conclusiva e imparcial. Seria transformar ind&iacute;cios em provas s&oacute;lidas, provas em condena&ccedil;&atilde;o robusta, e a condena&ccedil;&atilde;o em mudan&ccedil;a estrutural real e imediata. Isso, sim, representaria uma ruptura com a tradi&ccedil;&atilde;o brasileira de investiga&ccedil;&otilde;es que come&ccedil;am com estardalha&ccedil;o e terminam com suspiros.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Isso mostraria que finalmente temos institui&ccedil;&otilde;es funcionais, e n&atilde;o apenas decorativas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>E aqui reside a trag&eacute;dia que todos sabem, mas poucos t&ecirc;m coragem de dizer: nada disso vai acontecer.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A investiga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ser&aacute; r&aacute;pida. Vai se arrastar por anos. Prazos ser&atilde;o prorrogados. Recursos protelat&oacute;rios se multiplicar&atilde;o. O Banco do Brasil tem o melhor time jur&iacute;dico que bilh&otilde;es podem comprar. Cada v&iacute;rgula ser&aacute; questionada, cada ponto ser&aacute; litigado, cada decis&atilde;o ser&aacute; recorrida.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>E o tempo &ndash; esse grande aliado da impunidade brasileira &ndash; far&aacute; seu trabalho silencioso de corroer a mem&oacute;ria, esfriar a indigna&ccedil;&atilde;o e cansar at&eacute; os mais determinados.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A investiga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ser&aacute; conclusiva. Terminar&aacute; &ndash; se terminar &ndash; em algum Termo de Compromisso de Cessa&ccedil;&atilde;o (TCC), no qual o banco &ldquo;se compromete&rdquo; a &ldquo;aprimorar processos&rdquo;, &ldquo;treinar funcion&aacute;rios&rdquo; e &ldquo;adequar pr&aacute;ticas&rdquo;. Pagar&aacute; uma multa simb&oacute;lica &ndash; alguns milh&otilde;es sobre um faturamento de bilh&otilde;es. N&atilde;o admitir&aacute; culpa. N&atilde;o ressarcir&aacute; automaticamente as v&iacute;timas. E seguir&aacute; praticando vendas casadas, apenas com maquiagem diferente, nomes mais bonitos, documenta&ccedil;&atilde;o mais sofisticada.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Caros leitores, a investiga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ser&aacute; imparcial.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>N&atilde;o porque o CADE seja corrupto &ndash; n&atilde;o h&aacute; necessidade dessa acusa&ccedil;&atilde;o simplista.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Mas porque a press&atilde;o ser&aacute; insuport&aacute;vel.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O Banco do Brasil mobilizar&aacute; todos os seus recursos pol&iacute;ticos. Parlamentares ser&atilde;o &ldquo;conscientizados&rdquo; sobre o risco de &ldquo;travar o cr&eacute;dito rural&rdquo;. Ministros receber&atilde;o argumentos sobre &ldquo;seguran&ccedil;a jur&iacute;dica&rdquo;. O Banco Central sinalizar&aacute; preocupa&ccedil;&atilde;o com &ldquo;estabilidade financeira&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>E, gradualmente, sutilmente, a investiga&ccedil;&atilde;o ser&aacute; domesticada. As arestas ser&atilde;o aparadas. O rigor ser&aacute; suavizado. O esc&acirc;ndalo ser&aacute; transformado em &ldquo;diverg&ecirc;ncia de interpreta&ccedil;&atilde;o comercial&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Enquanto celebramos o &ldquo;marco hist&oacute;rico&rdquo;, o produtor rural continua indo ao banco buscar cr&eacute;dito e saindo com produtos que n&atilde;o pediu. Continua silenciando por medo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Durante d&eacute;cadas, o produtor rural brasileiro foi tratado como alvo f&aacute;cil. Ref&eacute;m de um sistema de cr&eacute;dito concentrado, sem alternativas reais, aceitou abusos porque n&atilde;o tinha escolha. Engoliu vendas casadas porque precisava plantar. Pagou por produtos desnecess&aacute;rios porque o cr&eacute;dito dependia disso. E silenciou porque temia retalia&ccedil;&atilde;o, porque n&atilde;o sabia a quem recorrer, porque n&atilde;o acreditava que algo pudesse mudar.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>E essa mudan&ccedil;a n&atilde;o vir&aacute; de inqu&eacute;ritos que j&aacute; nasceram fadados &agrave; morosidade, &agrave; domestica&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e ao desfecho brando.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Vir&aacute; &ndash; se vier &ndash; da mobiliza&ccedil;&atilde;o persistente, da press&atilde;o midi&aacute;tica incessante, das a&ccedil;&otilde;es judiciais que atinjam o bolso, do custo pol&iacute;tico e financeiro de manter a impunidade se tornar maior do que o custo de fazer justi&ccedil;a.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Podemos aplaudir, chamar de &ldquo;marco hist&oacute;rico&rdquo;, nos contentar com o gesto simb&oacute;lico e assistir passivamente enquanto a investiga&ccedil;&atilde;o segue o roteiro previs&iacute;vel da impunidade brasileira.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O inqu&eacute;rito do CADE contra o Banco do Brasil n&atilde;o &eacute; marco hist&oacute;rico. &Eacute; teste.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Teste para sabermos se finalmente temos institui&ccedil;&otilde;es &agrave; altura dos desafios ou se continuamos presos na farsa regulat&oacute;ria que finge investigar, finge punir e finge que algo mudou.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Infelizmente, a hist&oacute;ria brasileira n&atilde;o autoriza otimismo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Mas ainda podemos nos recusar a comemorar o fracasso como se fosse vit&oacute;ria.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<hr>\n<p>Charlene de &Aacute;vila<\/p>\n<p>Advogada. Mestre em Direito. Consultora Jur&iacute;dica em Propriedade Intelectual na Agricultura do Escrit&oacute;rio N&eacute;ri Perin Advogados Associados.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<hr>\n<p>N&eacute;ri Perin<\/p>\n<p>Advogado agrarista. Especialista em Direito Tribut&aacute;rio e em Direito Processual Civil pela UFP.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Diretor Administrativo do Escrit&oacute;rio N&eacute;ri Perin Advogados Associados.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<hr>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O CADE &ndash; Conselho Administrativo de Defesa Econ&ocirc;mica &ndash; existe desde 1962 e sua miss&atilde;o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":452699,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[33063,11,21201],"tags":[],"class_list":["post-452698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agropecuaria","category-artigo","category-destaques","wpcat-33063-id","wpcat-11-id","wpcat-21201-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/452698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=452698"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/452698\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/452699"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=452698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=452698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=452698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}