{"id":441874,"date":"2025-05-30T12:41:45","date_gmt":"2025-05-30T12:41:45","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=441874"},"modified":"2025-05-30T13:53:38","modified_gmt":"2025-05-30T13:53:38","slug":"vendem-se-ilusoes-no-ministerio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2025\/05\/vendem-se-ilusoes-no-ministerio\/","title":{"rendered":"Vendem-se ilus\u00f5es no Minist\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p><i>Samuel Hanan*<\/i><\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No final de mar&ccedil;o, a ministra do Planejamento e Or&ccedil;amento, Simone Tebet, deu uma declara&ccedil;&atilde;o contundente que obriga a an&aacute;lise profunda, tal o contraste com o sentimento do povo nas ruas. Afirmou a ministra: &ldquo;Em toda a minha vida p&uacute;blica, mais de 25 anos de mandatos eletivos, nunca vi n&uacute;meros t&atilde;o positivos na economia do pa&iacute;s, sobretudo da macroeconomia&rdquo;. E continuou: &rdquo;N&atilde;o me lembro de momento econ&ocirc;mico t&atilde;o bom e com n&uacute;meros t&atilde;o positivos obtidos rapidamente&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A declara&ccedil;&atilde;o aconteceu no programa Bom Dia Ministra, da Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o (EBC) e transmitido pelo canal gov, durante o qual a ministra destacou o maior n&uacute;mero de pessoas com Carteira de Trabalho desde 2013 (sem, contudo, entrar no m&eacute;rito da precariedade dos empregos), a pol&iacute;tica de valoriza&ccedil;&atilde;o do sal&aacute;rio-m&iacute;nimo, e o crescimento econ&ocirc;mico, t&atilde;o expressivo por dois anos consecutivos e acima de 3,0% ao ano (2023 &ndash; governo Lula = 2,9% e 2024 = 3,4%), significando mais renda. &Eacute; preciso destacar que, em 2022, portanto no governo anterior, o crescimento do PIB foi de 3,00%. Enalteceu tamb&eacute;m o governo com projeto que visa &agrave; melhoria da produtividade e da competitividade, importante no mundo atual.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Simone Tebet est&aacute; rezando a cartilha escrita por Sid&ocirc;nio Pereira, o novo ministro da Secretaria de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, para quem as a&ccedil;&otilde;es do governo precisam ser mais defendidas pelo primeiro escal&atilde;o. A quest&atilde;o &eacute; que tanto entusiasmo com resultados econ&ocirc;micos e sociais t&atilde;o expressivos se contrap&otilde;e &agrave; queda da popularidade e do n&iacute;vel de aprova&ccedil;&atilde;o do presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva e do governo do qual a ministra &eacute; expoente, conforme recentes pesquisas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A an&aacute;lise de v&aacute;rios indicadores talvez d&ecirc; as respostas para o n&iacute;vel de aprova&ccedil;&atilde;o t&atilde;o baixo e a falta de identifica&ccedil;&atilde;o com qualquer par&acirc;metro que justifique comemora&ccedil;&atilde;o, exceto o crescimento do PIB, mas nada excepcional, pois no &uacute;ltimo ano do governo anterior j&aacute; foi de 3,0% e com tend&ecirc;ncia de crescimento.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A infla&ccedil;&atilde;o &eacute; outro exemplo. H&aacute; dois anos consecutivos (2023 e 2024) a taxa de infla&ccedil;&atilde;o anual, medida pelo IPCA, supera o teto da meta, compromisso do governo. A expectativa n&atilde;o &eacute; melhor. O terceiro ano do atual governo tamb&eacute;m sinaliza para o descumprimento da meta, e j&aacute; ultrapassando 5% em 2025.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Como a infla&ccedil;&atilde;o &eacute; perda do poder de compra da moeda, com reflexos nos pre&ccedil;os dos alimentos em taxa de 7,42% (2024), superior &agrave; da m&eacute;dia (4,82%), pode estar a&iacute; o in&iacute;cio do descontentamento popular, diferentemente da celebra&ccedil;&atilde;o da ministra. Al&eacute;m disso, como infla&ccedil;&atilde;o corr&oacute;i a renda, sobretudo dos assalariados, a falta de corre&ccedil;&atilde;o das tabelas do imposto de renda ajuda a alimentar esse sentimento dos cidad&atilde;os.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Outra quest&atilde;o importante nesse cen&aacute;rio diz respeito &agrave; taxa de juros. A infla&ccedil;&atilde;o acima da meta por v&aacute;rios anos consecutivos tem levado o mercado a entender como descontrole ou falta de interesse do governo em controlar e cortar despesas, medida que ajudaria o Banco Central a reduzir os juros, trazendo a infla&ccedil;&atilde;o para mais perto da meta. Esse comportamento vem provocando danos de grande porte na economia do pa&iacute;s e das pessoas<\/p>\n<p>f&iacute;sicas de todas as classes sociais. O endividamento ficou muito mais caro, inclusive para investimentos do setor privado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Os efeitos s&atilde;o extremamente danosos. Hoje, a taxa Selic de 14,25% .a.a., com vi&eacute;s de alta para 14,75%, ou mesmo de 15% ao ano, reduz a capacidade de investimentos do governo e, em consequ&ecirc;ncia, afeta a qualidade dos servi&ccedil;os essenciais devolvidos &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, como sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, seguran&ccedil;a e habita&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Para maior entendimento do dano j&aacute; causado pelos juros altos, conv&eacute;m lembrar que em 19\/06\/2024 a taxa definida pelo Copom era de 10,50% e agora, 10 meses depois, a Selic est&aacute; 3,75 pontos percentuais acima. Isso significa que, para a d&iacute;vida p&uacute;blica federal de R$ 7,50 trilh&otilde;es, h&aacute; o comprometimento adicional de R$ 280 bilh&otilde;es\/ano. Ou seja, hoje a eleva&ccedil;&atilde;o dos juros adiciona mensalmente R$ 25 bilh&otilde;es ao valor j&aacute; comprometido com o pagamento da d&iacute;vida.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O estrago se estende ainda para as pessoas f&iacute;sicas, sobretudo das classes C e D, que sonham com a compra do primeiro im&oacute;vel. Em 2023, a taxa de financiamento de im&oacute;vel para pessoas de baixa renda, praticada pela Caixa Econ&ocirc;mica Federal, era de R$ 8,90%, mais TR, e hoje j&aacute; &eacute; de 11,29% mais TR. Fica proibitido para os assalariados comprometerem e assumirem &ocirc;nus de tal magnitude. Vale lembrar, ainda, que a infla&ccedil;&atilde;o est&aacute; alta, mas mesmo assim, abaixo de 5% ao ano, e que os grandes bancos privados j&aacute; est&atilde;o cobrando juros de 13,80% a 14,20% ao ano.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A carga tribut&aacute;ria praticada pelo governo &eacute; outro problema grave. Em 2024, atingiu o correspondente a 32,3% do PIB, uma das mais altas cargas dos ultimos 15 anos. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que os sucessivos aumentos dos tributos desagradam a todos os contribuintes, principalmente porque a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o recebe a contrapartida em servi&ccedil;os p&uacute;blicos de qualidade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O reajuste do sal&aacute;rio-m&iacute;nimo, anunciado como parte do &ldquo;pacote de bondades&rdquo; do governo, empenhado em melhorar sua imagem, esconde uma realidade bem diferente. &Eacute; preciso lembrar que a altera&ccedil;&atilde;o da lei que estabelece a nova f&oacute;rmula de c&aacute;lculo do reajuste anual do sal&aacute;rio-m&iacute;nimo sancionado em 27\/12\/2024 assegura reajuste real acima da infla&ccedil;&atilde;o, com um m&iacute;nimo de 0,6% e limita-o a 2,5%, condicionado ao cumprimento de metas do governo federal. Tudo para vigorar por cinco anos, entre 01\/01\/2025 e 2029.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A propaganda oficial busca demonstrando o cuidado do governo em proteger o trabalhador, garantindo o m&iacute;nimo de 0,6% de reajuste. A verdade &eacute; outra, porque na realidade limitou a 2,5% e assim mesmo, sabendo-se que dos cinco anos previstos na lei (2025 a 2029), nos dois primeiros anos (2025 e 2026), com os par&acirc;metros j&aacute; definidos e conhecidos, o assalariado j&aacute; sair&aacute; perdendo, pois em 2025 o ganho real pela f&oacute;rmula anterior seria de 2,9% e n&atilde;o 2,5%, ou seja, h&aacute; uma perda de 0,4 ponto percentual. Em 2026, a perda ser&aacute; ainda maior, pois o reajuste deveria ser de 3,4%, n&atilde;o os estimados 2,5%, e mesmo assim, sobre a base de 2025, j&aacute; subtra&iacute;da em 0,4 p.p.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Com a nova sistem&aacute;tica, em 2025 a perda ser&aacute; de R$ 5,27\/m&ecirc;s porque o sal&aacute;rio-m&iacute;nimo &eacute; de R$ 1.518,00, quando deveria ser de R$ 1.523,27. No ano, o trabalhador receber&aacute; R$ 68,51 a menos. Em 2026, mais preju&iacute;zo. O sal&aacute;rio que seria de R$ 1.651,29 pela base de c&aacute;lculo antiga, ser&aacute; de R$ 1.632,85, isto &eacute;, R$ 18,44 a menos por m&ecirc;s, ou menos R$ 239,72 no ano.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Por conta disso, para 2027 &eacute; poss&iacute;vel antever nova perda, ainda a ser quantificada, mas seguramente os aposentados, pensionistas, benefici&aacute;rios do BPC (Benef&iacute;cio de Presta&ccedil;&atilde;o Continuada) e os trabalhadores do setor privado que ganham apenas um sal&aacute;rio-m&iacute;nimo mensal ver&atilde;o suas mesas esvaziadas de muitos quilos de arroz e feij&atilde;o. Fruto da desnecess&aacute;ria restri&ccedil;&atilde;o limitadora do reajuste do sal&aacute;rio-m&iacute;nimo. Mais de 33% da popula&ccedil;&atilde;o sofrer&aacute; com essa altera&ccedil;&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Nem o Bolsa Fam&iacute;lia vai escapar. O maior programa social do governo, com mais de 20 milh&otilde;es de fam&iacute;lias benefici&aacute;rias, tamb&eacute;m foi atingido, pois seu valor n&atilde;o foi corrigido pela infla&ccedil;&atilde;o de 2024, de 4,84%. Sem esse &iacute;ndice, as<\/p>\n<p>perdas para os benefici&aacute;rios em 2025 somam R$ 33,12\/m&ecirc;s, ou R$ 397,42 no ano.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Tudo isso mostra que o pa&iacute;s real, o Brasil dos trabalhadores, n&atilde;o &eacute; e nem pode ser a na&ccedil;&atilde;o celebrada pela ministra Tebet. &Eacute; triste saber que existem dois Brasis. Um fant&aacute;stico e pouco noticiado &ndash; o dos setores de &oacute;leo e g&aacute;s, agrobusiness &ndash; alimentos e mineral que, juntos respondem por cerca de 43% a 45% do PIB, 70% das exporta&ccedil;&otilde;es e mais de 200% do saldo da balan&ccedil;a comercial brasileira. Outro, vergonhoso, escancarado pelos baix&iacute;ssimos indicadores sociais como &Iacute;ndice de Desenvolvimento Humano (IDH), coeficiente Gini (Educa&ccedil;&atilde;o), &Iacute;ndice de Retorno de Bem Estar Social (IRBES), Programa Internacional de Avalia&ccedil;&atilde;o de Estudantes (Pisa), e da Organiza&ccedil;&atilde;o para a Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico (OCDE), todos em queda livre ou estagnados h&aacute; mais de uma d&eacute;cada.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>E como se n&atilde;o bastasse, ainda assombra o pa&iacute;s o fantasma da corrup&ccedil;&atilde;o n&atilde;o combatida com a necess&aacute;ria prioridade, a ponto de analistas internacionais encararem essa leni&ecirc;ncia como toler&acirc;ncia &agrave; impunidade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psican&aacute;lise, &eacute; autor de um pensamento que cabe bem nessa ocasi&atilde;o: &ldquo;As massas nunca tiveram sede de verdade, elas querem ilus&atilde;o e n&atilde;o vivem sem elas&rdquo;. A ministra Simone Tebet est&aacute; contribuindo para confirmar essa m&aacute;xima.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros &ldquo;Brasil, um pa&iacute;s &agrave; deriva&rdquo; e &ldquo;Caminhos para um pa&iacute;s sem rumo&rdquo;. Site: https:\/\/samuelhanan.com.br<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Samuel Hanan* &nbsp; No final de mar&ccedil;o, a ministra do Planejamento e Or&ccedil;amento, Simone Tebet, deu&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":441873,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11,21201],"tags":[],"class_list":["post-441874","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-destaques","wpcat-11-id","wpcat-21201-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=441874"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441874\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/441873"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=441874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=441874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=441874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}