{"id":418206,"date":"2025-02-24T23:17:10","date_gmt":"2025-02-24T23:17:10","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=418206"},"modified":"2025-02-24T23:17:10","modified_gmt":"2025-02-24T23:17:10","slug":"o-direito-ao-esquecimento-e-uma-nova-derrota-de-cronos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2025\/02\/o-direito-ao-esquecimento-e-uma-nova-derrota-de-cronos\/","title":{"rendered":"O DIREITO AO ESQUECIMENTO E UMA NOVA DERROTA DE CRONOS"},"content":{"rendered":"<p>&ldquo;R&aacute;pido o vigor e os brilhantes membros do pr&iacute;ncipe cresciam. E com o girar do ano, enganado por repetidas instiga&ccedil;&otilde;es da Terra, soltou a prole o grande Cronos de curvo pensar, vencido pelas artes e viol&ecirc;ncia do filho&rdquo;<\/p>\n<p>1. Introdu&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>O presente artigo tem como objeto, em breves linhas, boquejar o entendimento do Supremo Tribunal Federal acerca do chamado &ldquo;Direito ao Esquecimento&rdquo; n&atilde;o ser compat&iacute;vel com a Constitui&ccedil;&atilde;o Republicana, partindo da an&aacute;lise do Ac&oacute;rd&atilde;o de Recurso Extraordin&aacute;rio n&ordm; 1010606 \/ RJ.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>2. Defini&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>Primeiramente, faz-se necess&aacute;rio, ao perscrutar um tema, partir de uma defini&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica sobre objeto de pesquisa, ou seja, uma nomenclatura comum e uma defini&ccedil;&atilde;o minimamente abrangente &ndash; pois a defini&ccedil;&atilde;o &ldquo;absoluta&rdquo; somente ser&aacute; poss&iacute;vel ap&oacute;s a conclus&atilde;o da pesquisa. Pois bem, em rela&ccedil;&atilde;o ao assim chamado direito ao esquecimento, o qual nem mesmo sua nomenclatura &eacute; un&acirc;nime (Min. Gilmar Mendes prefere a express&atilde;o &ldquo;direito ao apagamento de dados&rdquo; p.ex), sua defini&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; &ldquo;majorit&aacute;ria&rdquo;, entretanto, no presente texto, ser&aacute; utilizada a defini&ccedil;&atilde;o exposta pelo Ex. Min. Dias Toffoli, o qual, assim diz: &ldquo;pretens&atilde;o apta a impedir a divulga&ccedil;&atilde;o, seja em plataformas tradicionais ou virtual, de fatos ou dados ver&iacute;dicos e licitamente obtidos, mas que, em raz&atilde;o da passagem do tempo, teriam se tornado descontextualizados ou destitu&iacute;dos de interesse p&uacute;blico relevante&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>3. Recurso Extraordin&aacute;rio 1.010.606 Rio de Janeiro<\/p>\n<p>O Recurso Extraordin&aacute;rio em estudo surge da A&ccedil;&atilde;o Indenizat&oacute;ria movida pelos irm&atilde;os de A&iacute;da Curi em face de Globo Comunica&ccedil;&atilde;o e Participa&ccedil;&otilde;es S\/A, em virtude da parte demandada veicular em programa televisivo (Linha Direta) o chamado &ldquo;Caso A&iacute;da Curi&rdquo;, jovem de 19 anos, que ap&oacute;s ter sido v&iacute;tima de tentativa de crime sexual &eacute; jogada de grande altura, falecendo no local. O crime, ocorrido no ano 1958, teve grande repercuss&atilde;o social e forte interesse da m&iacute;dia. Al&eacute;m de outras teses elencadas, tamb&eacute;m alegaram os irm&atilde;os que o tr&aacute;gico fato sofrido por sua irm&atilde; ocorrer&aacute; no distante ano de 1958, surgindo a aus&ecirc;ncia de contemporaneidade da not&iacute;cia a fatos passados &ndash; o programa fora exibido pela r&eacute; no ano de 2004.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>4. O Tempo e o Direito ao Esquecimento<\/p>\n<p>Na mitologia grega, filho de Gaia (terra) e Urano (c&eacute;u) surge Cronos (tempo). A pedido de sua m&atilde;e, em virtude do sofrimento que Urano a impingia, Cronos derrota seu pai, tornando-se o novo soberano do universo. Entretanto, ao assumir o trono do pai, o pr&oacute;prio Cronos, o tempo, &eacute; derrotado tamb&eacute;m por um filho, Zeus. O &ldquo;tempo&rdquo; &eacute; derrotado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Pode-se afirmar que a viga central do direito ao esquecimento &eacute; o tempo. Determinados fatos, embora ver&iacute;dicos, n&atilde;o seriam, no entendimento dos defensores da tese, de relev&acirc;ncia tal que merecessem ser rememorados, permitindo assim, que determinados indiv&iacute;duos pudessem ser poupados da exposi&ccedil;&atilde;o de fatos pret&eacute;ritos de suas vidas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A tese de direito ao esquecimento no Direito brasileiro, n&atilde;o foi, at&eacute; tal decis&atilde;o da Suprema Corte, tema de entendimento concreto. Entretanto, decis&otilde;es de inst&acirc;ncias ordin&aacute;rias, alguns &ldquo;flertes&rdquo; do Superior Tribunal de Justi&ccedil;a e da pr&oacute;pria Suprema Corte, assim como na VI Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justi&ccedil;a Federal, aprovando o Enunciado 531, o qual sintetizou a tese e, em seguida, exp&otilde;e o seu 3 fundamento, respectivamente, in litteris: &ldquo;Enunciado 531: A tutela da dignidade da pessoa humana na sociedade da informa&ccedil;&atilde;o <strong>inclui o direito ao esquecimento<\/strong>&rdquo;, demonstram, ao menos, a presen&ccedil;a do tema na Justi&ccedil;a nacional. (grifo nosso)<\/p>\n<p>Contudo, seria for&ccedil;oso assentar, de maneira absoluta e inquestion&aacute;vel que o Brasil adotou tal direito.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Pois bem, interessantes notarmos, primeiramente, que nem todos aqueles que buscaram repara&ccedil;&atilde;o ou proibi&ccedil;&atilde;o de terem suas vidas relatadas o fizeram por fatos desabonadores, embora, na maior parte dos casos de relev&acirc;ncia na hist&oacute;ria jur&iacute;dica, os autores buscaram a proibi&ccedil;&atilde;o ou repara&ccedil;&atilde;o pela exposi&ccedil;&atilde;o de fatos delet&eacute;rios de seu passado. Por&eacute;m, apenas como exemplo contr&aacute;rio de um desses casos, &eacute; William James Sidis, outrora uma crian&ccedil;a prod&iacute;gio que, buscando uma vida reclusa depois da idade adulta, move a&ccedil;&atilde;o judicial em face do jornal The New Yorker, por expor sua hist&oacute;ria e ferindo sua privacidade. Outro exemplo seria o do pr&oacute;prio Recurso Extraordin&aacute;rio em estudo, no qual, a fam&iacute;lia da v&iacute;tima de crime hediondo, busca indeniza&ccedil;&atilde;o em virtude da exposi&ccedil;&atilde;o de fatos passados.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Nessa seara, percebe-se, entre outros, mas principalmente, o confronto de dois direitos\/princ&iacute;pios: direitos da personalidade (incluso no conceito a privacidade) e direito de liberdade de express&atilde;o (incluso no conceito a liberdade de imprensa). Em semelhante decis&atilde;o, a mesma Corte pacificou o entendimento de que n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria autoriza&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via do biografado para publica&ccedil;&atilde;o de biografias, desde que n&atilde;o sejam violados os direitos constitucionais da pessoa. Tal decis&atilde;o tem muita semelhan&ccedil;a com o tema presente. Determinados fatos, desde que ver&iacute;dicos &ndash; pois, tratando-se de fatos mentirosos, h&aacute; outras ferramentas jur&iacute;dicas que buscam sua elimina&ccedil;&atilde;o e repara&ccedil;&atilde;o (cal&uacute;nia, difama&ccedil;&atilde;o, danos morais&hellip;), ainda que passado grande lapso temporal entre o ocorrido e o noticiado, n&atilde;o se poder&aacute; impedir que determinado epis&oacute;dio seja rememorado, n&atilde;o somente por for&ccedil;a da liberdade de express&atilde;o, como tamb&eacute;m o direito de gera&ccedil;&otilde;es posteriores de n&atilde;o t&atilde;o somente conhecer o passado, mas tamb&eacute;m, se poss&iacute;vel, aprender com ele, evitando erros e mazelas. Talvez, ao dizer que: &ldquo;A hist&oacute;ria sempre se repete, a primeira vez como trag&eacute;dia, e a segunda como farsa&rdquo;, Karl Marx estivesse errado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Conclus&atilde;o<\/p>\n<p>Diante dos votos dos Excelent&iacute;ssimos Ministros do Supremo Tribunal Federal, com destaque, ao nosso ver e com v&ecirc;nia aos demais, os brilhantes votos dos Ministros Dias Toffoli (relator), Ministro Nunes Marques e Ministra C&aacute;rmen L&uacute;cia, fixou-se a seguinte tese: &ldquo;&Eacute; incompat&iacute;vel com a Constitui&ccedil;&atilde;o a ideia de um direito ao esquecimento, assim entendido como o poder de obstar, <strong>em raz&atilde;o da passagem do tempo<\/strong>, a divulga&ccedil;&atilde;o de fatos ou dados ver&iacute;dicos e licitamente obtidos e publicados em meios de comunica&ccedil;&atilde;o social anal&oacute;gicos ou digitais. Eventuais excessos ou abusos no exerc&iacute;cio da liberdade de express&atilde;o e de informa&ccedil;&atilde;o devem ser analisados caso a caso, a partir dos par&acirc;metros constitucionais &ndash; especialmente os relativos &agrave; prote&ccedil;&atilde;o da honra, da imagem, da privacidade e da personalidade em geral &ndash; e as expressas e espec&iacute;ficas previs&otilde;es legais nos &acirc;mbitos penal e c&iacute;vel&rdquo; (grifo nosso)<\/p>\n<p>Por fim, percebe-se ent&atilde;o que determinados acontecimentos, por mais tempo que possa ter passado, por mais que o tempo tenha influ&iacute;do, no fim, ele &eacute; derrotado, no fim, o presente &eacute; produto do passado. No fim, Cronos &eacute; derrotado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sobre o autor:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Gabriel dos Santos<\/strong>, p&oacute;s-graduado em Direito Civil pela Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica, P&oacute;s-graduando em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Escola Paulista de Direito, bacharel em Direito pela Universidade Paulista, advogado contencioso banc&aacute;rio no Vigna Advogados.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><strong>Sobre o escrit&oacute;rio:<\/strong><\/p>\n<p>Fundado em 2003, o VIGNA ADVOGADOS ASSOCIADOS possui sede em <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"cmtt_f40c12796f09aa4446e394ffc30a74f5\"  href=\"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/glossary\/sao-paulo\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>S&atilde;o Paulo<\/a> e est&aacute; presente em todo o Brasil com filiais em 15 estados. Atualmente, conta com uma banca de mais de 280 advogados, profissionais experientes, inspirados em nobres ideais de justi&ccedil;a. A capacidade de compreender as necessidades de seus clientes se revela em um dos grandes diferenciais da equipe, o que permite desenvolver solu&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, &aacute;geis e criativas, sem perder de vista a responsabilidade e a qualidade nas a&ccedil;&otilde;es praticadas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;R&aacute;pido o vigor e os brilhantes membros do pr&iacute;ncipe cresciam. 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