{"id":416849,"date":"2024-12-13T11:57:26","date_gmt":"2024-12-13T11:57:26","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=416849"},"modified":"2024-12-13T19:10:11","modified_gmt":"2024-12-13T19:10:11","slug":"a-medida-do-governo-brasileiro-sobre-o-imposto-de-importacao-de-celulas-fotovoltaicas-uma-estrategia-para-uma-transicao-energetica-justa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2024\/12\/a-medida-do-governo-brasileiro-sobre-o-imposto-de-importacao-de-celulas-fotovoltaicas-uma-estrategia-para-uma-transicao-energetica-justa\/","title":{"rendered":"A medida do governo brasileiro sobre o imposto de importa\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas fotovoltaicas: uma estrat\u00e9gia para uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa"},"content":{"rendered":"<p><i>Jos&eacute; Velloso*<\/i><\/p>\n<div>\n<p>A transi&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica, que visa a transforma&ccedil;&atilde;o do nosso modelo de produ&ccedil;&atilde;o e consumo para bases sustent&aacute;veis, tem se mostrado cada vez mais essencial na constru&ccedil;&atilde;o de uma economia de baixo carbono. Esse processo n&atilde;o se limita &agrave; substitui&ccedil;&atilde;o dos combust&iacute;veis f&oacute;sseis por fontes renov&aacute;veis: a transi&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica para bases verdes deve ser inclusiva e justa, de forma que os benef&iacute;cios de novas oportunidades de industrializa&ccedil;&atilde;o se traduzam em compromissos com demandas ambientais e garantam justi&ccedil;a social.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Gera&ccedil;&atilde;o Distribu&iacute;da (GD) &ndash; termo que se refere &agrave; energia el&eacute;trica gerada no local de consumo ou pr&oacute;ximo a ele &ndash; tem se mostrado uma solu&ccedil;&atilde;o vantajosa para muitos consumidores, pois permite a redu&ccedil;&atilde;o das contas de luz ao gerar energia de forma independente da rede el&eacute;trica. No entanto, seu modelo de ado&ccedil;&atilde;o enfrenta um grande desafio no Brasil: o acesso desigual entre as classes sociais. Como a instala&ccedil;&atilde;o de sistemas fotovoltaicos exige um investimento inicial consider&aacute;vel, a maioria da popula&ccedil;&atilde;o de baixa renda, que n&atilde;o tem condi&ccedil;&otilde;es financeiras para arcar com esse custo, fica de fora dos benef&iacute;cios (subs&iacute;dios) da GD. Isso cria uma disparidade no acesso &agrave; energia limpa e renov&aacute;vel, uma vez que os consumidores de classe m&eacute;dia e alta se beneficiam dos subs&iacute;dios, enquanto os mais pobres continuam dependendo do sistema el&eacute;trico tradicional, com tarifas elevadas, pagando subs&iacute;dios para os beneficiados, o que agrava ainda mais a desigualdade no setor energ&eacute;tico.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A forma como os incentivos fiscais e regulat&oacute;rios est&atilde;o estruturados para a gera&ccedil;&atilde;o distribu&iacute;da acaba prejudicando os consumidores de menor renda. Esses usu&aacute;rios arcam com parte dos custos relacionados ao uso da rede el&eacute;trica pelos propriet&aacute;rios de sistemas de GD. Isso resulta em tarifas mais altas para a maioria da popula&ccedil;&atilde;o, o que agrava ainda mais a desigualdade no setor. De acordo com dados da Ag&ecirc;ncia Nacional de Energia El&eacute;trica (ANEEL), os subs&iacute;dios &agrave; GD atingiram R$2,8 bilh&otilde;es em 2022 e chegaram a R$7,1 bilh&otilde;es em 2023. Para 2024, o valor j&aacute; soma R$9,6 bilh&otilde;es at&eacute; outubro. Esses subs&iacute;dios beneficiam no m&aacute;ximo 3% dos consumidores, em sua maioria de classes sociais mais altas, o que configura uma distor&ccedil;&atilde;o no sistema. Em outras palavras, o atual modelo pode ser considerado como um &ldquo;Robin Hood &agrave;s avessas&rdquo;: os mais pobres, que continuam dependendo do sistema el&eacute;trico tradicional, acabam financiando os mais ricos, que usufruem dos benef&iacute;cios da gera&ccedil;&atilde;o distribu&iacute;da.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro ponto cr&iacute;tico relacionado &agrave; GD &eacute; o impacto sobre a estabilidade do sistema el&eacute;trico brasileiro. Com o aumento desproporcional do n&uacute;mero de instala&ccedil;&otilde;es fotovoltaicas, a tarefa do Operador Nacional do Sistema (ONS) se torna mais complexa. Isso ocorre porque a energia gerada pelos sistemas solares n&atilde;o pode ser utilizada durante a noite, o que exige o uso de mais pot&ecirc;ncia reativa para manter a estabilidade das redes el&eacute;tricas, um processo que al&eacute;m de caro, se torna cada vez mais desafiador. O problema da intermit&ecirc;ncia da energia solar em determinados per&iacute;odos ainda tem como &ocirc;nus a possibilidade de serem adotadas alternativas como o recurso &agrave; energia gerada por termel&eacute;tricas, obtida pela queima de combust&iacute;veis f&oacute;sseis &ndash; n&atilde;o renov&aacute;veis &ndash; e que, portanto, tem maior impacto nas emiss&otilde;es de CO2.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante disso, a moderniza&ccedil;&atilde;o do setor el&eacute;trico brasileiro passa pela abertura do mercado de energia, o que permitiria a todos os consumidores, independentemente de sua classe social, o acesso a um mercado mais justo e competitivo, como ocorre em pa&iacute;ses mais desenvolvidos, como o Reino Unido, a Alemanha, a Fran&ccedil;a e a Austr&aacute;lia. Enquanto o modelo regulat&oacute;rio carece de aperfei&ccedil;oamento para mitigar os impactos da GD, &eacute; necess&aacute;ria a ado&ccedil;&atilde;o de medidas paliativas para colocar a ind&uacute;stria nacional em um patamar de igualdade frente &agrave; concorr&ecirc;ncia desleal de importados no mercado de energia solar at&eacute; que a&ccedil;&otilde;es efetivas de combate a fatores estruturais que impactam negativamente a competitividade no pa&iacute;s sejam concretizadas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse contexto, a recente decis&atilde;o do Comit&ecirc; Executivo de Gest&atilde;o (Gecex) da C&acirc;mara de Com&eacute;rcio Exterior (Camex) de aumentar a tarifa de importa&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas fotovoltaicas, utilizadas em m&oacute;dulos e pain&eacute;is solares, &eacute; uma a&ccedil;&atilde;o importante e acertada. O Brasil, ao importar esses equipamentos, tem subsidiado indiretamente o mercado internacional, especialmente os produtores que recebem grandes incentivos do governo de seus pa&iacute;ses, que exportam os equipamentos para o Brasil.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos tr&ecirc;s anos, o Brasil deixou de arrecadar uma quantia significativa em impostos devido a uma tarifa de importa&ccedil;&atilde;o reduzida, o que contribui para um sistema regulat&oacute;rio desconectado da ideia de uma transi&ccedil;&atilde;o justa e inclusiva.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa medida tamb&eacute;m se alinha aos objetivos da pol&iacute;tica industrial do Brasil, a Nova Industrial Brasil (NIB), que busca fortalecer as cadeias produtivas internas, criando mais empregos qualificados e oportunidades no pa&iacute;s. Aliada a pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que ampliem o acesso &agrave; energia el&eacute;trica renov&aacute;vel para fam&iacute;lias de baixa renda, tende a equilibrar desigualdades inerentes &agrave; GD. Abre mais espa&ccedil;o para outras formas de energia sustent&aacute;vel, como a e&oacute;lica, que vai dar maior equil&iacute;brio na soma das fontes de energia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao aumentar a tarifa de importa&ccedil;&atilde;o, o governo sinaliza a inten&ccedil;&atilde;o de diminuir a depend&ecirc;ncia de produtos estrangeiros e, ao mesmo tempo, enfrenta um dos problemas mais graves do sistema atual: a concorr&ecirc;ncia desleal, onde os grandes produtores internacionais inundam o mercado brasileiro com produtos subsidiados, prejudicando os fabricantes locais e as perspectivas de uma ind&uacute;stria nacional de energia renov&aacute;vel.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, a medida ainda apresenta limita&ccedil;&otilde;es. Para que seja ainda mais eficaz, seria necess&aacute;rio um aumento mais substancial na al&iacute;quota de importa&ccedil;&atilde;o, alcan&ccedil;ando pelo menos o teto de 35%, conforme estabelecido pela Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio (OMC). Vale destacar que pa&iacute;ses como os Estados Unidos j&aacute; est&atilde;o adotando medidas unilaterais que ultrapassam esses limites, justamente para proteger suas ind&uacute;strias locais e combater pr&aacute;ticas anticoncorrenciais de subs&iacute;dios externos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, a decis&atilde;o do Gecex deve ser vista como um passo positivo n&atilde;o apenas para fortalecer a ind&uacute;stria nacional, mas tamb&eacute;m como uma tentativa de corrigir as distor&ccedil;&otilde;es de um sistema de incentivos que prejudica os consumidores mais vulner&aacute;veis e compromete uma transi&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica mais justa e inclusiva para o Brasil. A medida, portanto, &eacute; um avan&ccedil;o, mas tamb&eacute;m um lembrete de que ainda h&aacute; muito a ser feito para garantir que a transi&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica no Brasil beneficie toda a sociedade de maneira equitativa.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>**Jos&eacute; Velloso &eacute; engenheiro mec&acirc;nico, administrador de empresas e presidente executivo da ABIMAQ \/ SINDIMAQ.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos&eacute; Velloso* A transi&ccedil;&atilde;o energ&eacute;tica, que visa a transforma&ccedil;&atilde;o do nosso modelo de produ&ccedil;&atilde;o e consumo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":416848,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[21201,1],"tags":[1743,20604,10899,10190,35127,10439,13586,34817,3303,32652,312,1129,1453,11149,35343,10248,10802,4418,3960,469,2676,34553,3937,1234,111,875,34354,29978,29979,9687,29831,33860,4002,9643,34302,977,34415,35162,35046,15165,4699,1955,35315,3465,4428,34999,18191,1238,2577,9452,248,4035,3273,18286,9461,29745,460,8549,35287,33558,11062,1859,33967,7342,11500,964,34815,17587,11772,877,34414,1689,3663,22471,1480,15544,34991,12615,5099],"class_list":["post-416849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-eventos","tag-acaba","tag-acao","tag-acoes","tag-adocao","tag-agencia","tag-alta","tag-altas","tag-aperfeicoamento","tag-aumento","tag-avanco","tag-brasil","tag-brasileiro","tag-combate","tag-combustiveis","tag-comercio-exterior","tag-competitividade","tag-construcao","tag-consumidores","tag-consumo","tag-dados","tag-desafio","tag-e","tag-economia","tag-empregos","tag-empresas","tag-energia","tag-energia-eletrica","tag-energia-limpa","tag-energia-renovavel","tag-energia-solar","tag-engenheiro-mecanico","tag-equipamentos","tag-estados","tag-estados-unidos","tag-estrategia","tag-executivo","tag-fotovoltaicos","tag-franca","tag-geracao","tag-gestao","tag-governo","tag-impacto","tag-importacao","tag-impostos","tag-industrial","tag-industrias","tag-instalacao","tag-internacional","tag-investimento","tag-justica","tag-mercado","tag-nacional","tag-oportunidades","tag-organizacao","tag-os","tag-pelo","tag-perspectivas","tag-politica","tag-politicas-publicas","tag-ponto","tag-populacao","tag-positivo","tag-praticas","tag-presidente","tag-producao","tag-produtores","tag-produtos","tag-reducao","tag-reino-unido","tag-renda","tag-renovaveis","tag-social","tag-sociedade","tag-solucao","tag-tempo","tag-transformacao","tag-transicao-energetica","tag-vale","tag-valor","wpcat-21201-id","wpcat-1-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/416849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=416849"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/416849\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/416848"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=416849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=416849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=416849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}