{"id":416573,"date":"2024-11-28T18:37:16","date_gmt":"2024-11-28T18:37:16","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/?p=416573"},"modified":"2024-11-29T01:13:05","modified_gmt":"2024-11-29T01:13:05","slug":"um-pais-desigual-o-legado-de-25-anos-de-maus-governantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2024\/11\/um-pais-desigual-o-legado-de-25-anos-de-maus-governantes\/","title":{"rendered":"Um pa\u00eds desigual, o legado de 25 anos de maus governantes"},"content":{"rendered":"<p>Samuel Hanan*<\/p>\n<p>O Brasil &eacute; um pa&iacute;s fant&aacute;stico e com extraordin&aacute;rio potencial. De dimens&otilde;es continentais &ndash; com 8,516 milh&otilde;es de km&sup2;, &eacute; o quinto maior do planeta em &aacute;rea territorial, habitado por 212,6 milh&otilde;es de pessoas&nbsp; &ndash; o 7&ordm; maior do mundo em popula&ccedil;&atilde;o -; a 8&ordf; maior economia mundial, com Produto Interno Bruto (PIB) previsto para 2024 de R$ 2,24 trilh&otilde;es; respons&aacute;vel por 30% da produ&ccedil;&atilde;o mundial de alimentos; 8&deg; maior produtor mundial de petr&oacute;leo e um dos l&iacute;deres do planeta em produ&ccedil;&atilde;o de min&eacute;rio de ferro.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Apesar de tamanha riqueza, o pa&iacute;s amarga &iacute;ndices sociais vergonhosos, com processo distributivo de renda extremamente injusto. Al&eacute;m disso, dentre os 30 pa&iacute;ses de maior express&atilde;o econ&ocirc;mica no mundo, ocupa a &uacute;ltima posi&ccedil;&atilde;o na devolu&ccedil;&atilde;o dos tributos na forma de servi&ccedil;os essenciais &agrave; popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Essa situa&ccedil;&atilde;o pode ser creditada quase que totalmente &agrave;s a&ccedil;&otilde;es dos maus governantes com mandatos a partir do ano 2000. Eles foram leg&iacute;tima e democraticamente eleitos com a promessa comum de melhorar a vida da popula&ccedil;&atilde;o. Isso, entretanto, n&atilde;o se confirmou. &Eacute; o que provam os n&uacute;meros.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O Brasil, que em 2002 ocupava a nao honrosa 77&ordf; posic&atilde;o no ranking do &Iacute;ndice de Desolvimento Humano (IDH) despencou e agora ostenta a 88&ordf; posi&ccedil;&atilde;o no mesmo ranking das Organiza&ccedil;&otilde;es das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU). &Eacute; o lanterna nesse quesito entre os 30 pa&iacute;ses de maior express&atilde;o econ&ocirc;mica no mundo, posi&ccedil;&atilde;o que amarga tamb&eacute;m no &Iacute;ndice de Retorno de Bem Estar &agrave; Sociedade (IRBES). H&aacute; 20 anos est&aacute; estagnado nessa situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Na educa&ccedil;&atilde;o, tem desempenho ainda mais decepcionante: no Programa Internacional de Avalia&ccedil;&atilde;o de Estudantes (Pisa), que &nbsp;avalia o conhecimento de estudantes de 15 anos em matem&aacute;tica, leitura e ci&ecirc;ncias, o pa&iacute;s ocupa a 44&ordf; posi&ccedil;&atilde;o entre 56 pa&iacute;ses analisados. Fica atr&aacute;s dos 38 pa&iacute;ses integrantes da Organiza&ccedil;&atilde;o para a Coopera&ccedil;&atilde;o e Desenvolvimento Econ&ocirc;mico (OCDE) e, na Am&eacute;rica do Sul, perde para Uruguai, Col&ocirc;mbia e Peru.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O maior desastre provocado nos &uacute;ltimos 25 anos pelos maus governantes sem d&uacute;vida est&aacute; na dicotomia entre entre a posi&ccedil;&atilde;o de 8&ordf; maior economia do mundo e a renda da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;O PIB per capita, de apenas US$ 10.500\/ano, coloca o pa&iacute;s na 76&ordf; posi&ccedil;&atilde;o mundial. No coeficiente de Gini, indicador socioecon&ocirc;mico criado para mensurar a distribui&ccedil;&atilde;o de renda nos pa&iacute;ses, o Brasil &eacute; simplesmente o 7&ordm; pior do mundo. A estratifica&ccedil;&atilde;o da &nbsp;popula&ccedil;&atilde;o brasileira &nbsp;em 2024, explica muito dessa situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A classe A &eacute; a elite econ&ocirc;mica do pa&iacute;s, com melhor qualidade de vida, maior poder a&#491;uisitivo e prest&iacute;gio social. Apenas em 3,9% dos lares no Brasil as fam&iacute;lias t&ecirc;m renda m&eacute;dia e domiciliar bruta igual ou superior a 20 sal&aacute;rios-m&iacute;nimos (R$ 28.240,00\/m&ecirc;s). Nessas fam&iacute;lias, privilegiadas, 25% da renda prov&ecirc;m do trabalho e a maior parte (75%) adv&ecirc;m de rendas como alugu&eacute;is, dividendos e lucros de empresas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A classe B (tamb&eacute;m chamada de m&eacute;dia-alta) desfruta de posi&ccedil;&atilde;o confort&aacute;vel, com acesso a bens e servi&ccedil;os, por&eacute;m sem luxos. &Eacute; composta por cerca de 15% dos lares brasileiros, com renda domiciliar bruta entre 6 sal&aacute;rios-m&iacute;nimos (R$ 8.472,00\/m&ecirc;s) e menor que 20 sal&aacute;rios-m&iacute;nimos (R$ 28.240,00\/m&ecirc;s).&nbsp; Essas fam&iacute;lias t&ecirc;m 86,1% de suas rendas provenientes do trabalho e apenas 13,9% de outras fontes.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A classe C,&nbsp; mais conhecida como classe m&eacute;dia, possui padr&atilde;o de vida razo&aacute;vel, entretanto com severas restri&ccedil;&otilde;es de consumo de bens e servi&ccedil;os. Nela est&atilde;o inseridos 31,2% dos lares brasileiros, com renda domiciliar bruta superior a 2,5 e menor que 6 sal&aacute;rios-m&iacute;nimos (maior que R$ 3.530,00 e menor que R$ 8.472,00\/m&ecirc;s). S&atilde;o fam&iacute;lias que t&ecirc;m mais de 90% da renda provenientes do trabalho.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Por fim, as classes D e E, compostas por fam&iacute;lias que enfrentam dificuldades &ndash; inclusive b&aacute;sicas- , e vivem, em grande parte, com renda proveniente de atividades informais. S&atilde;o cidad&atilde;os de escolaridade muito baixa, em sua maioria.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Infelizmente, em pleno s&eacute;culo XXI o Brasil ainda possui metade (49,9%) dos lares de pessoas vivendo com renda domiciliar de pouco mais de dois sal&aacute;rios-m&iacute;nimos e, em m&eacute;dia, com R$ 580,00 a R$ 600,00\/m&ecirc;s por pessoa, totalmente dependentes de programas sociais como o Bolsa Fam&iacute;lia e o Benef&iacute;cio de Presta&ccedil;&atilde;o Continuada (BPC). (Fonte:&nbsp;Gazeta do Povo de 09\/08\/ 2024).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&Eacute; triste constatar que, em 2012, o pa&iacute;s tinha 48,7% de lares com brasileiros das classes D e E, quase nenhuma diferen&ccedil;a da situa&ccedil;&atilde;o atual. Ou seja, o cen&aacute;rio n&atilde;o melhorou em nada; at&eacute; piorou em 1,2 ponto percentual. Mais grave ainda &eacute; a previs&atilde;o dos estudiosos de que em 2030 o pa&iacute;s pode voltar &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de 2012, significando, caso se concretize, enorme retrocesso no processo distributivo de renda porque o pa&iacute;s voltar&aacute; a ter, em 18 anos, o mesmo n&uacute;mero de brasileiros nas classes D e E que havia duas d&eacute;cadas antes. &Eacute; o retrato do fracasso das politicas publicas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Hoje, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica (IBGE), 90% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira t&ecirc;m renda bruta inferior a R$ 3.500,00\/m&ecirc;s. Nessa estratifica&ccedil;&atilde;o social, a maioria (70% dos 90% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira mencionados anteriormente) possui renda bruta inferior a R$ 2.800,00\/m&ecirc;s. Somam 63% da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Os 10% mais ricos de brasileiros t&ecirc;m renda bruta entre R$ 7.600,00 e R$ 7.900,00\/m&ecirc;s, enquanto 5% dos mais ricos vivem com renda bruta entre R$ 11.500,00 e R$ 11.800,00\/m&ecirc;s. S&oacute; 1% dos mais ricos t&ecirc;m renda bruta superior a R$ 30.000,00\/m&ecirc;s. Na base da pir&acirc;mide social, os 40% brasileiros mais pobres vivem com renda entre R$ 530,00 e R$ 560,00\/m&ecirc;s. N&atilde;o &eacute; de se estranhar, portanto, que 64 milh&otilde;es vivem no Brasil com algum grau de inseguran&ccedil;a alimentar.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Dada essa realidade, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel creditar alta sensibilidade social a nenhum dos governantes que ocuparam a presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica nos &uacute;ltimos 25 anos, muito menos chamar qualquer um deles de libertador dos pobres. Na verdade, todos s&atilde;o respons&aacute;veis por retirar renda da popula&ccedil;&atilde;o, especialmente das classes C, D e E. Fizeram isso por meio da elevada tributa&ccedil;&atilde;o sobre o consumo de g&ecirc;neros e servi&ccedil;os, deixando de aplicar a corre&ccedil;&atilde;o das tabelas &nbsp;&nbsp;do Imposto de Renda para reposi&ccedil;&atilde;o da infla&ccedil;&atilde;o, e ao n&atilde;o oferecerem educa&ccedil;&atilde;o de qualidade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Suas a&ccedil;&otilde;es lembram a li&ccedil;&atilde;o do consultor de investimentos, escritor e ex-candidato a presidente dos Estados Unidos Harry Browne (1933-2006): &ldquo;O governo &eacute; bom em uma coisa, ele sabe como quebrar as suas pernas &nbsp;para depois lhe dar uma muleta e dizer: se n&atilde;o fosse pelo governo voc&ecirc; n&atilde;o seria capaz de andar&rdquo;. Essa forma de governar tamb&eacute;m d&aacute; raz&atilde;o ao economista, fil&oacute;sofo e escritor canadense\/norte-americano John Kenneth Galbraith (1908-2006), para quem &ldquo;nada mais eficaz para limitar a liberdade, incluindo a liberdade de express&atilde;o, como a total falta de dinheiro&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Raz&otilde;es de ordem moral e problemas n&atilde;o assumidos de racismo e etnocentrismo contribuem para o fracasso na educa&ccedil;&atilde;o, na distribui&ccedil;&atilde;o de renda, e nas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas sociais. O resultado &eacute; uma realidade de fome, desnutri&ccedil;&atilde;o, mortalidade infantil, aumento da viol&ecirc;ncia urbana, precariedade no &nbsp;transporte p&uacute;blico, defici&ecirc;ncia no saneamento b&aacute;sico e o processo de faveliza&ccedil;&atilde;o em muitas das grandes cidades brasileiras, inclusive as capitais dos estados de maior grau de desenvolvimento do pa&iacute;s.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Nada disso &eacute; o que os governantes dos &uacute;ltimos 25 anos prometeram &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. E est&aacute; longe do que merecem os brasileiros, que n&atilde;o podem ser condenados a viver na pobreza e na desigualdade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>*Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros &ldquo;Brasil, um pa&iacute;s &agrave; deriva&rdquo; e &ldquo;Caminhos para um pa&iacute;s sem rumo&rdquo;. Site: https:\/\/samuelhanan.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Samuel Hanan* O Brasil &eacute; um pa&iacute;s fant&aacute;stico e com extraordin&aacute;rio potencial. 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