{"id":412195,"date":"2024-07-04T20:19:29","date_gmt":"2024-07-04T20:19:29","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=412195"},"modified":"2024-07-04T21:37:25","modified_gmt":"2024-07-04T21:37:25","slug":"2024-um-ano-de-frustracao-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2024\/07\/2024-um-ano-de-frustracao-anunciada\/","title":{"rendered":"2024, um ano de frustra\u00e7\u00e3o anunciada"},"content":{"rendered":"<p>O povo brasileiro &eacute; otimista por natureza. Acredita que o amanh&atilde; ser&aacute; melhor do que hoje, mas quase nunca essa expectativa se concretiza, ora por decis&otilde;es erradas dos governos, ora pela falta de compet&ecirc;ncia dos governantes e n&atilde;o raramente pelo fato de o discurso se dar absolutamente dissociado da realidade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Agora, o pa&iacute;s discute a regulamenta&ccedil;&atilde;o da reforma tribut&aacute;ria enviada ao Congresso Nacional sem se dar conta de que em 2024 o Brasil vive um ano de frustra&ccedil;&atilde;o j&aacute; anunciada pela an&aacute;lise dos indicadores oficiais. Os n&uacute;meros n&atilde;o s&atilde;o nada encorajadores.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A come&ccedil;ar pela carga tribut&aacute;ria bruta, fatalmente maior que a efetiva de 2023, quando alcan&ccedil;ou 32,44% do Produto Interno Bruto (PIB). O setor p&uacute;blico tem anunciado que almeja arrecadar, em 2024, R$ 4 trilh&otilde;es (o correspondente a 34,44% do PIB 2024), dinheiro resultante dos impostos que pesam &ndash; e muito &ndash; no bolso dos cidad&atilde;os, sem nenhuma contrapartida de melhoria de servi&ccedil;os p&uacute;blicos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Se o governo vai arrecadar muito, tamb&eacute;m vai gastar em demasia e, pior, muito mal. Ignora a necessidade de priorizar investimentos. Os gastos prim&aacute;rios da Uni&atilde;o ser&atilde;o pressionados pelos reajustes dos servidores p&uacute;blicos, dos cargos comissionados e pelo custo das elei&ccedil;&otilde;es municipais de outubro. Esses gastos, somados, superaram 19,3% do PIB em 2023 (mais do que em 2022, quando foi de 18,0% do PIB) e provavelmente chegar&atilde;o a 19,9% ou 20,0% do PIB deste ano.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Outro fator negativo: o endividamento p&uacute;blico dever&aacute; saltar de 74,34% para 77,90% do PIB em 2024. No ano passado, a d&iacute;vida p&uacute;blica total do pa&iacute;s fechou em R$ 8,1 trilh&otilde;es (segundo dados do Banco Central). Para 2024, a previs&atilde;o &eacute; de que a d&iacute;vida do governo geral ultrapasse R$ 9,0 trilh&otilde;es.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Boa parte da receita nacional mais uma vez estar&aacute; comprometida com o funcionalismo p&uacute;blico (12,8% do PIB) e com o pagamento dos juros banc&aacute;rios incidentes sobre a d&iacute;vida p&uacute;blica, correspondentes a mais de 8,0% do PIB. Ou seja, somados, consumir&atilde;o mais de 20,8% do PIB, o correspondentes a mais de 60% do total da receita tribut&aacute;ria do pa&iacute;s. &Eacute; preciso salientar que o D&eacute;ficit Publico Nominal em 2023 chegou &agrave; incr&iacute;vel marca de R$ 967 bilh&otilde;es no ano (mais de 2 vezes o d&eacute;ficit de 2022, que foi de R$ 480 bilh&otilde;es, tamb&eacute;m de acordo com o Banco Central.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Ainda no campo econ&ocirc;mico, nada otimista &eacute; a previs&atilde;o de crescimento da na&ccedil;&atilde;o. Tudo indica que o PIB ter&aacute; crescimento 30% inferior &agrave; taxa de 2,9% registrada em 2023, ficando provavelmente em torno de 2,0% ou pouco acima desse patamar e semelhante &agrave; m&eacute;dia anual dos &uacute;ltimo 35 anos (1989 a 2023) p&oacute;s-Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988 e 65% inferior &agrave; taxa de 6,05% verificada nos 25 anos anteriores &agrave; CF\/88. Nesse aspecto, &eacute; um pa&iacute;s ladeira abaixo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Os setores do agroneg&oacute;cio, minera&ccedil;&atilde;o e&nbsp;petr&oacute;leo\/g&aacute;s respondem por quase metade (de 45% a 47%) do PIB nacional, por 70% das exporta&ccedil;&otilde;es &ndash; somando R$ 242 bilh&otilde;es -, e por mais de 205% do super&aacute;vit da balan&ccedil;a comercial brasileira. A expressividade desses tr&ecirc;s setores econ&ocirc;micos tem contribu&iacute;do fortemente para a estabilidade do valor de compra da moeda nacional e por permitir &agrave;s autoridades zelarem por um sistema financeiro eficiente e competitivo, al&eacute;m de fomentar o desenvolvimento socioecon&ocirc;mico de regi&otilde;es mais afastadas do sudeste brasileiro. Apesar disso, quando se analisa a gera&ccedil;&atilde;o de divisas constata-se que o pa&iacute;s ainda apresenta d&eacute;ficit de transa&ccedil;&otilde;es correntes da ordem de US$ 23,0 bilh&otilde;es\/ano.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O Brasil, portanto, continua sendo um pa&iacute;s de produ&ccedil;&atilde;o e exporta&ccedil;&atilde;o de bens prim&aacute;rios de baixo valor agregado. Por outro lado, soma US$ 263,9 bilh&otilde;es por ano em importa&ccedil;&otilde;es, principalmente de produtos acabados de alto valor intr&iacute;nseco, alguns deles produzidos com nossas mat&eacute;rias-primas. Com isso, fomenta o emprego l&aacute; fora, em detrimento dos postos de trabalho nacionais. Essa situa&ccedil;&atilde;o nasce da falta de investimentos e da m&aacute; performance do sistema educacional brasileiro e, em consequ&ecirc;ncia, da baixa competitividade, aliadas &agrave; alta e complexa tributa&ccedil;&atilde;o e &agrave; baix&iacute;ssima poupan&ccedil;a interna.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>H&aacute; grav&iacute;ssimas distor&ccedil;&otilde;es que precisam ser corrigidas. O Brasil investe anualmente 5,50% do PIB em educa&ccedil;&atilde;o, 3,70% do PIB do sa&uacute;de,&nbsp;e em saneamento apenas e t&atilde;o somente 0,50% do PIB, totalizando nessas tr&ecirc;s &aacute;reas priorit&aacute;rias 9,70% do PIB. Praticamente n&atilde;o sobra quase nada para infraestrutura, seguran&ccedil;a p&uacute;blica, habita&ccedil;&atilde;o\/urbanismo e mobilidade urbana. Por outro lado, dispende cerca de R$ 1,45 trilh&atilde;o com funcionalismo p&uacute;blico, o que corresponde a 12,80% do PIB. A m&aacute;quina administrativa, como se v&ecirc;, consome mais de R$ 330 bilh&otilde;es anuais a mais que&nbsp;os recursos de investimentos em todos esses setores indispens&aacute;veis &agrave; qualidade de vida dos cidad&atilde;os. Vale refletir que esse montante monstruoso de gastos com funcionalismo p&uacute;blico n&atilde;o tem a melhor destina&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o &eacute; empregado para a melhorar a remunera&ccedil;&atilde;o de professores e de profissionais da sa&uacute;de e da seguran&ccedil;a p&uacute;blica. Vale a pena lembrar um pensamento do fil&oacute;sofo e economista franc&ecirc;s Fr&eacute;deric Bastiat (1801-1850): &ldquo;<em>Todos querem viver &agrave;s custas do Estado, mas esquecem que o Estado vive &agrave;s custas de todos<\/em>&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Al&eacute;m disso, n&atilde;o existe qualquer sinaliza&ccedil;&atilde;o de redu&ccedil;&atilde;o dos privil&eacute;gios conferidos a uma casta do funcionalismo p&uacute;blico. Pelo contr&aacute;rio, a tend&ecirc;ncia &eacute; de que o pa&iacute;s continue sendo generoso na concess&atilde;o desses benef&iacute;cios, sempre pagos com dinheiro p&uacute;blico. Bem ao contr&aacute;rio do que pregava o advogado e l&iacute;der espiritual indiano Mahatma&nbsp;Gandhi (1869-1948): &ldquo;<em>Odeio privil&eacute;gios e monop&oacute;lios; eles destroem qualquer na&ccedil;&atilde;o<\/em>&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Da mesma forma, o pa&iacute;s continuar&aacute; escamoteando seus p&eacute;ssimos indicadores sociais por meio de narrativas pelas quais se busca convencer a popula&ccedil;&atilde;o de que a culpa do problema &eacute; exclusiva de heran&ccedil;a maldita deixada pelos governos anteriores. Muitas desculpas, raras solu&ccedil;&otilde;es.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Enquanto isso, o brasileiro sofre as consequ&ecirc;ncias de o pa&iacute;s ocupar apenas a 89&ordf; posi&ccedil;&atilde;o no &Iacute;ndice de Desenvolvimento Humano (IDH), depois de ter ca&iacute;do duas posi&ccedil;&otilde;es em 2023. A queda &eacute; absurda pois em 2002, ao final do governo Fernando Henrique Cardoso, o pa&iacute;s&nbsp;figurava na 77&ordf; posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>No coeficiente Gini, que mede o n&iacute;vel de desigualdade socioecon&ocirc;mica dos pa&iacute;ses mensurando a distribui&ccedil;&atilde;o de renda entre as popula&ccedil;&otilde;es, o Brasil ocupa uma das seis piores classifica&ccedil;&otilde;es do mundo, al&eacute;m estar estagnado h&aacute; d&eacute;cadas na lanterna (30&ordf; posi&ccedil;&atilde;o) no &Iacute;ndice de Retorno de Bem Estar &agrave; Sociedade (IRBES).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>N&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para qualquer orgulho nacional em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; educa&ccedil;&atilde;o com o Brasil ocupando a 66&ordf; posi&ccedil;&atilde;o no Programa Internacional de Avalia&ccedil;&atilde;o de Estudantes (Pisa). E isso se repete em outros indicadores importantes: somos o 4&ordm; pior pa&iacute;s do mundo em viol&ecirc;ncia urbana, o 2&ordm; em acidentes fatais, estamos em 127&ordm; lugar no quesito liberdade econ&ocirc;mica, em 87&ordm; em liberdade de express&atilde;o e em 92&ordm; em liberdade de imprensa. T&atilde;o vergonhoso quanto isso tudo &eacute; o pa&iacute;s ficar apenas na 104&ordf; coloca&ccedil;&atilde;o entre os pa&iacute;ses com maior efetividade no combate &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o, segundo a Transpar&ecirc;ncia Internacional.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&Eacute; muito dif&iacute;cil acreditar em melhora dos indicadores sociais porque n&atilde;o se v&ecirc; a&ccedil;&otilde;es concretas nesse sentido. A estratifica&ccedil;&atilde;o social mostra que 60,2% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira t&ecirc;m renda mensal de at&eacute; 1 sal&aacute;rio-m&iacute;nimo (R$ 1.412,00). Revela ainda que 31,8% da popula&ccedil;&atilde;o vivem com renda entre 1 e 3 sal&aacute;rios-m&iacute;nimos e que 31% dos brasileiros continuar&atilde;o sem nenhuma renda resultante de trabalho em 2024. Al&eacute;m disso, 36% dos jovens entre 17 e 24 anos nem trabalham nem estudam, integrando a chamada &ldquo;gera&ccedil;&atilde;o nem-nem&rdquo;, cujo futuro est&aacute; seriamente comprometido.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Em outro aspecto, apesar de a corrup&ccedil;&atilde;o ser um dos maiores males do pa&iacute;s, com efeitos j&aacute; muito conhecidos, seu enfrentamento n&atilde;o &eacute; prioridade e sequer &eacute; discutido com a transpar&ecirc;ncia que a quest&atilde;o merece. Basta ver que recentemente uma empresa norte-americana foi condenada a pagar multa de US$ 120 milh&otilde;es e declarou perante &agrave; Justi&ccedil;a daquele pa&iacute;s ter corrompido agentes p&uacute;blicos brasileiros para fechar contratos com a Petrobras, esc&acirc;ndalo revelado pela Opera&ccedil;&atilde;o Lava-Jato.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Mais um ano e o Congresso n&atilde;o se debru&ccedil;a sobre a necessidade de mudan&ccedil;a legislativa para tornar imprescrit&iacute;veis os crimes praticados contra a administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e para endurecer a Lei da Ficha Limpa, medidas que seriam fundamentais para o combate &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o e para resgatar a moralidade no trato da coisa p&uacute;blica.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Por outro lado, &eacute; certo que em 2024 o Brasil registrar&aacute; aumento nos gastos com publicidade e propaganda, destinados a alimentar ufanismos e narrativas. Nada compat&iacute;vel com o DNA do Brasil e dos brasileiros que, cada vez mais, assistem ao desperd&iacute;cio de recursos p&uacute;blicos. O Brasil arrecada, anualmente, cerca de 33,00% do PIB e gasta com funcionalismo publico 12,80% do PIB, com aposentadorias e pens&otilde;es 9,00% do PIB, com encargos da Divida Publica outros 8,00% do PIB, somando 29,80% do PIB ou 90% da arrecada&ccedil;&atilde;o total. N&atilde;o sobra nada, n&atilde;o tem como dar certo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O pa&iacute;s atravessa um ano eleitoral, no qual a ret&oacute;rica tentar&aacute; mascarar a realidade, porque parece ser proibido falar de redu&ccedil;&atilde;o de gastos com funcionalismo p&uacute;blico, de combate efetivo &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o, de redu&ccedil;&atilde;o dos favores fiscais (gastos tribut&aacute;rios) e de privil&eacute;gios, de imprescritibilidade de crime contra a administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, de restri&ccedil;&atilde;o da judicializa&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica e banaliza&ccedil;&atilde;o de acesso direto ao STF e de tornar constitucional a pris&atilde;o ap&oacute;s condena&ccedil;&atilde;o em 2&ordf; inst&acirc;ncia, al&eacute;m da redu&ccedil;&atilde;o dr&aacute;stica do n&uacute;mero de autoridades com foro por prerrogativa de fun&ccedil;&atilde;o, todas palavras extintas do vocabul&aacute;rio da maioria dos nossos governantes. A realidade, entretanto, &eacute; bem diferente da ret&oacute;rica, como diz Thomas Sowell:&nbsp;<em>&ldquo;Quando as pessoas querem o imposs&iacute;vel, somente os mentirosos podem satisfaz&ecirc;-las&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p>Para a popula&ccedil;&atilde;o sobra a frustra&ccedil;&atilde;o de quem esperava algo muito diferente porque vive no Brasil real, de necessidades b&aacute;sicas ainda n&atilde;o atendidas, de enormes desigualdades sociais e de pouca perspectiva no horizonte.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><em>*Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros &ldquo;Brasil, um pa&iacute;s &agrave; deriva&rdquo; e &ldquo;Caminhos para um pa&iacute;s sem rumo&rdquo;. Site: https:\/\/samuelhanan.com.br<\/em><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O povo brasileiro &eacute; otimista por natureza. 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