{"id":376628,"date":"2023-01-24T15:41:31","date_gmt":"2023-01-24T15:41:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=376628"},"modified":"2023-01-25T01:09:41","modified_gmt":"2023-01-25T01:09:41","slug":"o-pais-das-oportunidades-perdidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2023\/01\/o-pais-das-oportunidades-perdidas\/","title":{"rendered":"O pa\u00eds das oportunidades perdidas"},"content":{"rendered":"<p>Historicamente, toda crise termina em uma bifurca&ccedil;&atilde;o: desenvolvimento ou abismo. Tristemente, mais uma vez o Brasil, ao final de novo per&iacute;odo de turbul&ecirc;ncia, n&atilde;o faz a op&ccedil;&atilde;o pelo desenvolvimento socioecon&ocirc;mico e humano. Dif&iacute;cil, portanto, ter alguma perspectiva otimista de futuro.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Os sinais n&atilde;o s&atilde;o nada animadores. O governo que acaba de assumir, eleito com o apoio de 16 partidos pol&iacute;ticos, de intelectuais, da classe art&iacute;stica e de banqueiros &ndash; al&eacute;m de contar com a boa vontade da grande m&iacute;dia tradicional -, antes mesmo de ser empossado se posicionou sobre temas relevantes de forma a gerar muita preocupa&ccedil;&atilde;o na classe empresarial, principalmente. As rea&ccedil;&otilde;es s&atilde;o sintom&aacute;ticas: muitos dos economistas not&aacute;veis j&aacute; se pronunciaram pelo distanciamento do novo governo, alguns at&eacute; declarando arrependimento pelas manifesta&ccedil;&otilde;es anteriores de apoio.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>H&aacute; raz&otilde;es para tamanha preocupa&ccedil;&atilde;o. A come&ccedil;ar pelo aumento do n&uacute;mero de Minist&eacute;rios, dos atuais 23 para 37 pastas, n&uacute;mero muito superior ao de pa&iacute;ses desenvolvidos como Alemanha (15), Estados Unidos (15), It&aacute;lia (18), Reino Unido (22) e R&uacute;ssia (17), com todos os custos que isso ir&aacute; representar.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Outro motivo foi a PEC da Transi&ccedil;&atilde;o, pela qual o novo governo prop&ocirc;s ao Congresso autoriza&ccedil;&atilde;o para gastar R$ 180 bilh&otilde;es por ano acima do teto legal, por quatro anos. A justificativa foi a necessidade de garantir recursos para o pagamento do Bolsa Fam&iacute;lia, mas o Parlamento achou exagerado e modificou o projeto original, aprovando o estouro do teto por um ano apenas e no total de R$ 145 bilh&otilde;es, considerando ser tempo suficiente para o governo que assume em janeiro fazer os ajustes necess&aacute;rios no primeiro ano do exerc&iacute;cio a fim de assegurar recursos or&ccedil;ament&aacute;rios dentro do limite legal para 2024.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Outra medida pol&ecirc;mica foram as altera&ccedil;&otilde;es na Lei das Estatais, aprovadas em vota&ccedil;&atilde;o rel&acirc;mpago, de modo a permitir o aumento de 0,5% para at&eacute; 2% da receita bruta operacional como limite de despesas com publicidade para empresas p&uacute;blicas e sociedades de economia mista, em cada exerc&iacute;cio. Tamb&eacute;m foi reduzida drasticamente (de 3 anos para apenas 30 dias) a quarentena entre a desvincula&ccedil;&atilde;o da estrutura de partido pol&iacute;tico ou de trabalho vinculado &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o, estrutura&ccedil;&atilde;o e realiza&ccedil;&atilde;o de campanha eleitoral e a posse do indicado para cargo de diretoria ou de conselho de administra&ccedil;&atilde;o de empresa p&uacute;blica e sociedades de economia mista da Uni&atilde;o, Estados, do Distrito Federal e dos Munic&iacute;pios. Essa altera&ccedil;&atilde;o &ndash; carta marcada para beneficiar hist&oacute;rico integrante do partido do presidente eleito &ndash; abriu uma brecha legal de efeito muito mais abrangente, mesmo porque a mudan&ccedil;a tamb&eacute;m abrangeu a quarentena para cargos de ag&ecirc;ncias reguladoras. As altera&ccedil;&otilde;es facilitar&atilde;o nomea&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas em 587 cargos de alto escal&atilde;o (272 diretorias e 315 vagas em Conselhos), com remunera&ccedil;&otilde;es e benef&iacute;cios que consumir&atilde;o at&eacute; R$ 3 bilh&otilde;es por ano.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Al&eacute;m disso, o governo j&aacute; prepara um novo substitutivo para a Lei, a fim de flexibilizar o acesso a cargos nos conselhos administrativos das estatais. Se aprovado, o governo garantir&aacute; mais espa&ccedil;o para seus aliados no comando das empresas, uma vez que 317 postos ser&atilde;o disponibilizados.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Tudo isso caminha na contram&atilde;o de tudo o que se esperava: a moraliza&ccedil;&atilde;o das estatais, que det&ecirc;m os cargos com maior remunera&ccedil;&atilde;o e que num passado muito recente foram palco de um enorme esquema de corrup&ccedil;&atilde;o, respons&aacute;vel por condena&ccedil;&otilde;es judiciais &ndash; depois revistas &ndash; de v&aacute;rios pol&iacute;ticos que<\/p>\n<p>agora retornam ao poder. O mais dram&aacute;tico &eacute; que a farra ser&aacute; estendida aos estados, ao Distrito Federal e aos munic&iacute;pios, num efeito cascata significativamente oneroso aos cofres p&uacute;blicos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Temos, portanto, um sinal preocupante: a institui&ccedil;&atilde;o de mais privil&eacute;gios, com mais despesas, em vez do corte de gastos, em decis&atilde;o totalmente dissociada da realidade das receitas. Uma afronta aos princ&iacute;pios b&aacute;sicos de administra&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Por outro lado, ainda n&atilde;o se ouviu do presidente eleito e de sua equipe de ministros nenhuma men&ccedil;&atilde;o &agrave;s propostas de redu&ccedil;&atilde;o de despesas, ao corte de privil&eacute;gios ou a um plano de metas, essenciais &agrave; retomada do desenvolvimento do pa&iacute;s, ansioso por um futuro melhor para seus 215 milh&otilde;es de habitantes.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Nesta na&ccedil;&atilde;o de decis&otilde;es estranhas, um ministro da Suprema Corte decidiu &agrave;s 23h37 de um domingo, logo ap&oacute;s o encerramento da Copa do Mundo no Catar, de forma monocr&aacute;tica, que a manuten&ccedil;&atilde;o do programa de transfer&ecirc;ncia de renda (atual Aux&iacute;lio Brasil) poder&aacute; se dar por meio de abertura de cr&eacute;dito extraordin&aacute;rio, o que deixa essas despesas fora do limite de gastos. Tal decis&atilde;o se deu no julgamento de pedido apresentado por um partido pol&iacute;tico e, com ela, a discuss&atilde;o sobre a quest&atilde;o deslocou-se do Congresso Nacional, onde vinha sendo debatida poss&iacute;vel altera&ccedil;&atilde;o legislativa, para ter desfecho no Judici&aacute;rio.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>De volta aos n&uacute;meros, o cen&aacute;rio atual remete &agrave; previs&atilde;o de aumento do d&eacute;ficit p&uacute;blico nominal &ndash; dos atuais R$ 800 ou R$ 850 bilh&otilde;es para R$ 1,00 ou R$ 1,05 trilh&atilde;o, valor superior a 9,5% a 10% do PIB Nacional. N&atilde;o &eacute; pouca coisa. Al&eacute;m disso, o pagamento de juros aos bancos dever&aacute; superar R$ 900 bilh&otilde;es ao ano, ou seja, montante superior a toda a arrecada&ccedil;&atilde;o federal de quatro meses. E, o que &eacute; pior, os juros ser&atilde;o sempre crescentes, retardando a necess&aacute;ria desacelera&ccedil;&atilde;o da taxa Selic. Significa dizer que os investidores e o mercado &ndash; que j&aacute; mostraram certa desconfian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro ministro da Economia &ndash; acompanhar&atilde;o ainda mais de perto todos os passos do novo governo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>H&aacute; motivos reais para preocupa&ccedil;&atilde;o. Afinal nenhuma medida foi anunciada em rela&ccedil;&atilde;o ao efetivo combate &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o, problema cr&ocirc;nico apontado no ranking da ONU, no qual desde 2016 o Brasil aparece estagnado na 79&ordf; posi&ccedil;&atilde;o entre os 176 pa&iacute;s mais corruptos do mundo. Tampouco se fala em enfrentar, com urg&ecirc;ncia, o excesso de gastos com o funcionalismo p&uacute;blico para desinchar a m&aacute;quina administrativa e remunerar adequadamente os profissionais das &aacute;reas de educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de e seguran&ccedil;a p&uacute;blica.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Do mesmo modo, ainda n&atilde;o foi cogitado concretamente nenhum projeto de lei para reduzir as ren&uacute;ncias fiscais e os gastos tribut&aacute;rios, que precisam cair dos atuais 5% para 1,5% do PIB a fim de se garantir mais recursos para investimentos em &aacute;reas essenciais para a popula&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se viu, igualmente, nenhuma preocupa&ccedil;&atilde;o em se apresentar um plano de metas, quest&atilde;o ali&aacute;s, ausente dos programas de governo e dos debates eleitorais.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>N&atilde;o podemos nos eternizar como o pa&iacute;s das oportunidades perdidas. Ao chegar &agrave; bifurca&ccedil;&atilde;o, &eacute; preciso optar pelo caminho do desenvolvimento. O humorista Mill&ocirc;r Fernandes (1923-2012) dizia, jocosamente, que &ldquo;o Brasil tem um enorme passado pela frente&rdquo;. Temos agora uma nova oportunidade de fazer a piada perder a gra&ccedil;a. &Eacute; bom n&atilde;o desperdi&ccedil;&aacute;-la.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>**Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros &ldquo;Brasil, um pa&iacute;s &agrave; deriva&rdquo; e &ldquo;Caminhos para um pa&iacute;s sem rumo&rdquo;. Site: https:\/\/samuelhanan.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Historicamente, toda crise termina em uma bifurca&ccedil;&atilde;o: desenvolvimento ou abismo. 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