{"id":375454,"date":"2022-11-30T23:44:41","date_gmt":"2022-11-30T23:44:41","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=375454"},"modified":"2022-12-01T01:38:22","modified_gmt":"2022-12-01T01:38:22","slug":"o-preste-atencao-dito-pelas-urnas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2022\/11\/o-preste-atencao-dito-pelas-urnas\/","title":{"rendered":"O &#8220;preste aten\u00e7\u00e3o&#8221; dito pelas urnas"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Samuel Hanan**<\/i><\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O resultado da elei&ccedil;&atilde;o para Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica n&atilde;o deixa nenhuma d&uacute;vida de que os maus pol&iacute;ticos e os maus governantes dividiram o Pa&iacute;s. O candidato eleito, Luiz In&aacute;cio Lula da Silva, recebeu 60,346 milh&otilde;es de votos (50,90% dos votos v&aacute;lidos), enquanto Jair Bolsonaro obteve 58,206 milh&otilde;es de votos (49,10% dos votos v&aacute;lidos). A menor diferen&ccedil;a da hist&oacute;ria, escancarando a divis&atilde;o do pa&iacute;s.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A absten&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m foi menor nesse pleito (32,20 milh&otilde;es de eleitores num universo de 156,45 milh&otilde;es de cidad&atilde;os aptos a votar), assim como o n&uacute;mero de votos brancos e nulos, que somaram 4,59%. Ou seja, 124,25 milh&otilde;es de brasileiros cumpriram seu dever c&iacute;vico e exerceram o direito de, democraticamente, eleger o presidente. E o fizeram de forma pac&iacute;fica e ordeira, em contraste com a animosidade e o desrespeito demonstrados na campanha por muitos dos concorrentes, inclusive os postulantes ao cargo de Chefe da Na&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Se est&aacute; clara a divis&atilde;o do pa&iacute;s, esse fen&ocirc;meno n&atilde;o pode ser entendido meramente como fruto de polariza&ccedil;&atilde;o entre direita e esquerda. &Eacute; muito mais do que isso. Resulta, sobretudo, das enormes desigualdades regionais e sociais que tornaram o Brasil uma na&ccedil;&atilde;o torta, desequilibrada e injusta, condi&ccedil;&atilde;o acentuada ap&oacute;s a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Basta ver que o Nordeste, que responde por 18,16% do territ&oacute;rio nacional e 29,64% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira, participa com apenas 14,38% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, enquanto, por outro lado, o estado de <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"cmtt_f40c12796f09aa4446e394ffc30a74f5\"  href=\"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/glossary\/sao-paulo\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>S&atilde;o Paulo<\/a>, ocupando apenas 2,92% do territ&oacute;rio nacional concentra 21,16% da popula&ccedil;&atilde;o nacional e det&eacute;m participa&ccedil;&atilde;o de 31,56% no PIB. A confirma&ccedil;&atilde;o vem com a an&aacute;lise regional: Norte e Nordeste, somados, t&ecirc;m 38,14% da popula&ccedil;&atilde;o e respondem por 63,81% do territ&oacute;rio brasileiro, mas participam com apenas 19,85% do PIB.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O resultado das urnas pode ser interpretado como uma esp&eacute;cie de &ldquo;preste aten&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Um grito nacional dos eleitores dizendo que todos brasileiros desejam ser cidad&atilde;os de classe &uacute;nica e n&atilde;o mais brasileiros de segunda ou terceira classe, assim definidos pelo local de nascimento ou de moradia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Esse grito de liberdade veio sobremaneira do cintur&atilde;o mais empobrecido do pa&iacute;s. A elei&ccedil;&atilde;o foi decidida com votos da Bahia, subindo por todo o litoral do Nordeste e abrangendo tamb&eacute;m o Par&aacute;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Foi tamb&eacute;m um grito de toler&acirc;ncia. A popula&ccedil;&atilde;o &ndash; em decis&atilde;o leg&iacute;tima e que deve ser respeitada &ndash; deu nova oportunidade a um candidato que jamais conseguiu dar resposta convincente aos esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o em seu governo e que se beneficiou da condi&ccedil;&atilde;o de &ldquo;descondenado&rdquo;. Essa toler&acirc;ncia se estendeu aos resultados de suas gest&otilde;es, nas quais n&atilde;o reduziu as desigualdades regionais nem produziu melhores resultados de desenvolvimento humano. Ao assumir o primeiro mandato, em 2003, o agora eleito assumiu o Brasil na 72&ordf; posi&ccedil;&atilde;o em IDH e ao passar a faixa presidencial, oito anos depois, o pa&iacute;s havia ca&iacute;do para a 88&ordf; posi&ccedil;&atilde;o. No Coeficiente de Gini, que mede a concentra&ccedil;&atilde;o de renda nos pa&iacute;ses, praticamente n&atilde;o houve melhora: o Brasil passou da 6&ordm; para a 7&ordf; pior posi&ccedil;&atilde;o entre 129 pa&iacute;ses. No IRBES (&Iacute;ndice de Retorno de Bem Estar &agrave; Sociedade), o pa&iacute;s permaneceu est&aacute;vel na 30&ordf; e &uacute;ltima posi&ccedil;&atilde;o enquanto o desempenho brasileiro no PISA (Programa Internacional de Avalia&ccedil;&atilde;o de Estudantes) tamb&eacute;m n&atilde;o melhorou. &Eacute; preciso efetivamente entregar. &Eacute; preciso mais compromisso do que promessas e palavras soltas, por mais bonitas que se apresentem.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A despeito de tudo isso, nova oportunidade foi dada nessa elei&ccedil;&atilde;o. &Eacute; poss&iacute;vel, agora, responder assertivamente a esse grito de liberdade vindo das urnas, corrigindo tamanhas injusti&ccedil;as que castigam os brasileiros? A resposta &eacute; &ldquo;sim!&rdquo;. &Eacute; poss&iacute;vel e nem requer malabarismos administrativos. Basta cumprir a Constitui&ccedil;&atilde;o e conseguir que o Congresso altere, no m&aacute;ximo, tr&ecirc;s ou cinco artigos da Carga Magna.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Dentre as altera&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias est&aacute; o fim da reelei&ccedil;&atilde;o para cargos executivos, aumentando de 4 para 5 anos os mandatos de prefeito, governador e presidente da Rep&uacute;blica. &Eacute; tamb&eacute;m urgente alterar o foro especial por prerrogativa de fun&ccedil;&atilde;o, restringindo tal instituto apenas aos chefes dos Tr&ecirc;s Poderes, a fim de reduzir a impunidade entre os ocupantes de cargos p&uacute;blicos praticantes de malfeitos. Da mesma forma, o pa&iacute;s reclama mudan&ccedil;a legislativa para permitir o afastamento do cargo e a pris&atilde;o de mandat&aacute;rios condenados em primeira inst&acirc;ncia e com senten&ccedil;a confirmada por tribunal pleno de segunda inst&acirc;ncia judicial. Al&eacute;m disso, &eacute; fundamental aditar a obrigatoriedade constitucional para que os candidatos a prefeito, governador e presidente apresentem formalmente, durante a campanha eleitoral, seus planos de metas com detalhamento das principais a&ccedil;&otilde;es de governo, incluindo custo e origem dos recursos, que ser&atilde;o avaliados e auditados anualmente pelo Poder Legislativo e &oacute;rg&atilde;os de controle externo, al&eacute;m de disponibilizados &nbsp;para a m&iacute;dia e para a sociedade civil.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>No mais, basta cumprir efetivamente o que disp&otilde;e a Constitui&ccedil;&atilde;o, em especial nos artigos 3&ordm; (caput e inciso III), 5&ordm;, 43, 151 (caput e inciso I), e 165 (caput e par&aacute;grafos 6&ordm; e 7&ordm;) para a corre&ccedil;&atilde;o das desigualdades regionais e sociais. Para isso, &eacute; necess&aacute;rio rever com urg&ecirc;ncia os gastos tribut&aacute;rios da Uni&atilde;o que hoje consomem cerca de 4,5% do PIB, ou R$ 427 bilh&otilde;es\/ano. A limita&ccedil;&atilde;o desses gastos em 1,5% ou 2% do PIB resultaria em mais R$ 237 a R$ 287 bilh&otilde;es\/ano para investimento nas regi&otilde;es Norte e Nordeste. Haveria equil&iacute;brio na balan&ccedil;a: hoje, cerca de 66% dos gastos tribut&aacute;rios s&atilde;o destinados a benefici&aacute;rios das regi&otilde;es mais desenvolvidas do pa&iacute;s, Sudeste (50%) e Sul (16%), exatamente o contr&aacute;rio do disposto na CF\/88. E o cumprimento dos par&aacute;grafos 6&ordm; e 7&ordm; do artigo 165 da Constitui&ccedil;&atilde;o garantiria, por si s&oacute;, investimentos or&ccedil;ament&aacute;rios para as regi&otilde;es mais necessitadas. O Supremo Tribunal Federal (STF) tamb&eacute;m poderia dar sua contribui&ccedil;&atilde;o na uni&atilde;o do pa&iacute;s simplesmente se atendo ao disposto no texto constitucional, e adotando menos decis&otilde;es monocr&aacute;ticas, privilegiando as decis&otilde;es do Pleno da Corte. Seus integrantes tamb&eacute;m poderiam reduzir a exposi&ccedil;&atilde;o do tribunal, manifestando-se mais nos autos do que na m&iacute;dia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Para mitigar o desequil&iacute;brio vigente, &eacute; indispens&aacute;vel ainda fechar a f&aacute;brica de pobreza, que pune os cidad&atilde;os das classes C, D e E com a absurda e inaceit&aacute;vel tributa&ccedil;&atilde;o sobre o consumo, respons&aacute;vel por encarecer os g&ecirc;neros de primeira necessidade. &Eacute; &oacute;bvio, tamb&eacute;m, que uma reforma fiscal ampla &ndash; inadi&aacute;vel &ndash; compensar&aacute; a redu&ccedil;&atilde;o da tributa&ccedil;&atilde;o sobre consumo, com aumento da necess&aacute;ria tributa&ccedil;&atilde;o sobre renda e capital.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O recado das urnas foi dado. Cabe agora ao eleito, dar ouvido ao que foi dito pelo povo &ndash; via voto &ndash; para tornar o Brasil um pa&iacute;s menos injusto. Ser&aacute; o primeiro e decisivo passo para a reunifica&ccedil;&atilde;o da na&ccedil;&atilde;o. Para isso, nada melhor que a plena cidadania seja acess&iacute;vel aos brasileiros de Norte a Sul.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>**Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros &ldquo;Brasil, um pa&iacute;s &agrave; deriva&rdquo; e &ldquo;Caminhos para um pa&iacute;s sem rumo&rdquo;. Site: https:\/\/samuelhanan.com.br<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Samuel Hanan** &nbsp; O resultado da elei&ccedil;&atilde;o para Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica n&atilde;o deixa nenhuma d&uacute;vida&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":375453,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[25847,21201],"tags":[3937],"class_list":["post-375454","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-destaques","tag-economia","wpcat-25847-id","wpcat-21201-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=375454"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375454\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=375454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=375454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=375454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}