{"id":359055,"date":"2022-08-31T19:00:38","date_gmt":"2022-08-31T19:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=359055"},"modified":"2022-09-01T00:54:03","modified_gmt":"2022-09-01T00:54:03","slug":"a-fome-grita-no-pais-dos-privilegios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2022\/08\/a-fome-grita-no-pais-dos-privilegios\/","title":{"rendered":"A fome grita no pa\u00eds dos privil\u00e9gios"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 12pt\">O l&iacute;der sul-africano Nelson Mandela (1918-2013) disse, certa vez, que &ldquo;democracia com fome, sem educa&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de para a maioria, &eacute; uma concha vazia&rdquo;.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Pois o Brasil, que ainda n&atilde;o erradicou o analfabetismo nem &eacute; capaz de garantir o acesso universal de sua popula&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de p&uacute;blica de qualidade, agora convive dramaticamente com a fome. Os n&uacute;meros s&atilde;o estarrecedores.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Cerca de 33,1 milh&otilde;es de brasileiros passam fome, segundo dados do 2&ordm; Inqu&eacute;rito Nacional sobre Inseguran&ccedil;a Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran&ccedil;a Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN).<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Em compara&ccedil;&atilde;o com 2020, praticamente dobrou o n&uacute;mero de pessoas no Pa&iacute;s que n&atilde;o t&ecirc;m o que comer diariamente: s&atilde;o 14 milh&otilde;es de cidad&atilde;os a mais nessa situa&ccedil;&atilde;o, em n&uacute;meros absolutos.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">O levantamento ainda mostrou que 125,2 milh&otilde;es de brasileiros &ndash; o correspondente a mais da metade (58,7%) da popula&ccedil;&atilde;o nacional &ndash; vivem com algum grau de inseguran&ccedil;a alimentar. Problema grav&iacute;ssimo que, em outras palavras, afeta seis em cada 10 habitantes de nosso pa&iacute;s. Aumento de 60% em rela&ccedil;&atilde;o a 2018 e de 7,2% se comparado com 2020. O quadro &eacute; dram&aacute;tico.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">A pesquisa desnudou a face mais cruel do empobrecimento dos brasileiros ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas. O que se v&ecirc;, atualmente, &eacute; uma significativa parcela da popula&ccedil;&atilde;o passando da pobreza para a mis&eacute;ria, sem renda suficiente para garantir pelo menos o alimento do dia a dia, absolutamente distanciada do m&iacute;nimo de dignidade.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Por op&ccedil;&otilde;es erradas de seus governantes, o Pa&iacute;s transformou-se numa imensa f&aacute;brica de pobreza. Uma das principais causas dessa situa&ccedil;&atilde;o &eacute; o verdadeiro manic&ocirc;mio tribut&aacute;rio instalado no Brasil, com elevad&iacute;ssima carga de tributos incidindo sobre produtos de consumo, em especial g&ecirc;neros aliment&iacute;cios, vestu&aacute;rio, limpeza e higiene pessoal. Enquanto as na&ccedil;&otilde;es desenvolvidas optam por tributar a renda, o Brasil faz incidir mais tributos sobre o consumo. Basta dizer que do total da arrecada&ccedil;&atilde;o tribut&aacute;ria nacional, entre 41 e 44% adv&ecirc;m dessa pol&iacute;tica. Nos pa&iacute;ses de Primeiro Mundo, essa propor&ccedil;&atilde;o fica entre 17 e 21%. Isto &eacute;: o Brasil est&aacute; penalizando fortemente a popula&ccedil;&atilde;o mais pobre.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">O excesso de encargos sociais e previdenci&aacute;rios tamb&eacute;m tem papel relevante nesse cen&aacute;rio. Ajuda a compor o mapa da pen&uacute;ria. Para entender tal situa&ccedil;&atilde;o, mais um exemplo: em 2020, o total de impostos pagos pelo trabalhador brasileiro &ndash; aquele que tem a sorte de ainda estar empregado &ndash; correspondia &agrave; sua remunera&ccedil;&atilde;o por 151 dias de trabalho.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">N&atilde;o se pode creditar &agrave; pandemia tal situa&ccedil;&atilde;o embora, de fato, a Covid-19 tenha contribu&iacute;do para o atual est&aacute;gio brasileiro. Esse imenso buraco no qual se meteu involuntariamente a popula&ccedil;&atilde;o vem sendo cavado h&aacute; muito tempo. &Eacute; uma obra em permanente constru&ccedil;&atilde;o, fruto da irresponsabilidade dos governos que, em vez de atacar as causas da pobreza, v&ecirc;m investindo em medidas meramente paliativas, socorros tempor&aacute;rios quando o povo merece dignidade vital&iacute;cia.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Pol&iacute;ticas p&uacute;blicas efetivas voltadas &agrave; erradica&ccedil;&atilde;o da mis&eacute;ria deram lugar ao assistencialismo por meio de programas como Aux&iacute;lio Brasil, Vale-G&aacute;s, Vale-Caminhoneiro e tantos outros, geralmente implantados em anos eleitorais, com potencial para render votos, mas muito longe da solu&ccedil;&atilde;o definitiva de um dos mais s&eacute;rios problemas nacionais. Outro exemplo &eacute; a distribui&ccedil;&atilde;o gratuita &ndash; por&eacute;m tempor&aacute;ria &ndash; de absorventes, produto que poderia ser mais acess&iacute;vel &agrave; popula&ccedil;&atilde;o de baixa renda se sobre ele n&atilde;o incidissem 34,48% de tributos.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Quem tem fome tem pressa, alertava o soci&oacute;logo Herbert Jos&eacute; de Souza, o Betinho. Entretanto, exatos 25 anos ap&oacute;s a sua morte, esse grito de alerta ainda n&atilde;o foi ouvido pelas autoridades. Nossos governantes s&atilde;o incapazes de enxergar os caminhos para mudar o rumo do Pa&iacute;s. Insistem em continuar gerando d&eacute;ficit p&uacute;blico prim&aacute;rio apesar de a arrecada&ccedil;&atilde;o tribut&aacute;ria corresponder a 33% do Produto Interno Bruto (PIB). Resistem &agrave; inadi&aacute;vel redu&ccedil;&atilde;o dr&aacute;stica da carga tribut&aacute;ria sobre consumo dos g&ecirc;neros essenciais. E insistem na manuten&ccedil;&atilde;o dos elevados gastos tribut&aacute;rios, muitos concedidos sem nenhum crit&eacute;rio, que somam 4,2% do PIB.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Da mesma forma, os governos se sucedem sem qualquer disposi&ccedil;&atilde;o de diminuir os privil&eacute;gios &ndash; o foro por prerrogativa de fun&ccedil;&atilde;o &eacute; o maior exemplo, com cerca de 55.000 beneficiados -, e, menos ainda, de promover o efetivo combate &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o, sorvedouro de recursos p&uacute;blicos, alimentando a sensa&ccedil;&atilde;o de impunidade que permeia a sociedade e serve de est&iacute;mulo &agrave; improbidade administrativa.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">A falta de comida &agrave; mesa mata hoje e compromete o amanh&atilde;, porque cria uma gera&ccedil;&atilde;o de subnutridos, com reflexos na sa&uacute;de e na educa&ccedil;&atilde;o. Seus efeitos s&atilde;o devastadores e se prolongam no tempo.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">A democracia brasileira est&aacute; muito pr&oacute;xima de ser uma concha vazia, &agrave; qual se referia Mandela. Democracia de verdade pressup&otilde;e garantia de dignidade &agrave; popula&ccedil;&atilde;o. E n&atilde;o existe liberdade pol&iacute;tica sem liberdade econ&ocirc;mica. Vivemos, ent&atilde;o, uma fase de ilusionismo.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Se os governantes n&atilde;o se sensibilizam com a fome de seu povo, nada mais ser&aacute; capaz de faz&ecirc;-lo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\"><em>**Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros &ldquo;Brasil, um pa&iacute;s &agrave; deriva&rdquo; e &ldquo;Caminhos para um pa&iacute;s sem rumo&rdquo;. Site: https:\/\/samuelhanan.com.br<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O l&iacute;der sul-africano Nelson Mandela (1918-2013) disse, certa vez, que &ldquo;democracia com fome, sem educa&ccedil;&atilde;o e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[3937],"class_list":["post-359055","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo","tag-economia","wpcat-11-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/359055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=359055"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/359055\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=359055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=359055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=359055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}