{"id":352143,"date":"2022-06-15T13:13:03","date_gmt":"2022-06-15T13:13:03","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=352143"},"modified":"2022-06-15T17:36:45","modified_gmt":"2022-06-15T17:36:45","slug":"sobre-homens-e-ratos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2022\/06\/sobre-homens-e-ratos\/","title":{"rendered":"Sobre homens e ratos"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Marco Antonio Spinelli *<\/i><\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voc&ecirc; n&atilde;o iria querer ser filho de uma Iguana. Os r&eacute;pteis n&atilde;o costumam ter nenhum cuidado com as crias e chegam mesmo a com&ecirc;-las se derem mole. Cuidar dos filhotes e mesmo entregar a vida por eles &eacute; coisa de esp&eacute;cies mais avan&ccedil;adas, como os Mam&iacute;feros. O fato &eacute; que a complexidade cerebral foi criando filhotes que n&atilde;o nascem prontos, como os filhotes de Iguana, que s&atilde;o miniaturas de adultos e dependem totalmente de seus instintos para viver. Os mam&iacute;feros precisam de cuidados e de aprendizagem, que vem dos adultos e do grupo a que pertencem. Perder contato com a m&atilde;e ou com o grupo acaba sendo uma amea&ccedil;a direta &agrave; sobreviv&ecirc;ncia do filhote, por isso ele &eacute; t&atilde;o claramente agarrado a quem lhe alimenta e ensina a ser um membro produtivo da sociedade. Quanto melhor for o cuidado que esse pequeno ser tiver de seus cuidadores, melhor ser&aacute; seu amadurecimento, confian&ccedil;a e possibilidade de sobreviv&ecirc;ncia. Estudos hoje cl&aacute;ssicos mostram que filhotes de rato que s&atilde;o mais lambidos e tem m&atilde;es mais cuidadosas ser&atilde;o ratos mais valentes e menos estressados quando chegarem &agrave; idade adulta. Ratos menos cuidados e com m&atilde;es indiferentes ter&atilde;o menor capacidade social e menor chance de se reproduzirem. E o que &eacute; pior: quando tiverem seus filhotes tamb&eacute;m ser&atilde;o descuidados e passar&atilde;o adiante essa caracter&iacute;stica de descuido e abandono. Ser&atilde;o tamb&eacute;m mais medrosos e ter&atilde;o maior chance de doen&ccedil;as e morte prematuras.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>N&atilde;o precisamos ir muito longe para perceber a analogia com os humanos. O filhote humano completa a sua gesta&ccedil;&atilde;o fora do &Uacute;tero materno. Precisa de muito cuidado e muita aprendizagem nos primeiros anos de sua vida. M&atilde;es com algum tipo de doen&ccedil;a psiqui&aacute;trica, sobretudo as n&atilde;o tratadas, tem uma chance maior de gerar filhos com muitos problemas de desenvolvimento, seja da capacidade de aprendizagem a problemas de intelig&ecirc;ncia e inser&ccedil;&atilde;o social. Hoje uma m&atilde;e que d&aacute; uma palmada no filho pode ir parar na delegacia, mas a m&atilde;e que deixa a crian&ccedil;a sem comer por doze horas, ou que fica alcoolizada quando devia estar cuidando da casa e dos filhos nem chega a ser notada.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>N&oacute;s, humanos, precisamos muito do apoio do Outro e dos ensinamentos que nos levar&atilde;o para a vida adulta. Essa &eacute; a raz&atilde;o da extrema import&acirc;ncia que damos &agrave; nossa imagem e opini&atilde;o dos pares sobre n&oacute;s. A falta dessa capacidade de aprender ou ensinar est&aacute; na base de tudo o que faz pessoas&nbsp;e sociedades adoecerem. Precisamos de aten&ccedil;&atilde;o, de cuidado e de exemplo. A falta disso nos anos iniciais da inf&acirc;ncia pode causar estragos definitivos em homens e ratos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Freud trouxe &agrave; luz, no final do s&eacute;culo XIX, a import&acirc;ncia dos traumas infantis na forma&ccedil;&atilde;o dos sintomas ps&iacute;quicos. Chega a ser engra&ccedil;ado como a Neuroci&ecirc;ncia desdenha da Psican&aacute;lise mas bebe exatamente nessa fonte, mostrando e confirmando a import&acirc;ncia das experi&ecirc;ncias e dos traumas da primeira inf&acirc;ncia inclusive nas popula&ccedil;&otilde;es g&ecirc;nicas que ser&atilde;o ativadas ou n&atilde;o. Isso quer dizer que o Car&aacute;ter n&atilde;o &eacute; herdado, mas aprendido. Ou destru&iacute;do pelo ambiente e as pessoas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Quando as pessoas falam de uma cultura corporativa ou do desenvolvimento de pessoas, n&atilde;o podem ignorar esses valores. Como &eacute; importante o cuidado, a capacidade de ensinar e acompanhar o crescimento das pessoas e corrigir seus erros. Como o exemplo gera um resultado muito mais profundo do que os bl&aacute; bl&aacute; bl&aacute;s motivacionais. E como &eacute; importante quem est&aacute; implementando e ensinando o que as pessoas precisam aprender.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Como os ratos (e outros mam&iacute;feros), ter um ambiente organizado e com regras claras gera menos estresse, menores &iacute;ndices de Cortisol, o horm&ocirc;nio do estresse, e menos adoecimento f&iacute;sico e ps&iacute;quico em gestores e equipe. O cuidado d&aacute; lucro, em todos os n&iacute;veis.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>As redes sociais mostram como estamos famintos por Aten&ccedil;&atilde;o e Aprova&ccedil;&atilde;o do Outro. Isso n&atilde;o &eacute; necessariamente ruim. Quem exerce um papel de ser esse Outro tem um papel vital e incrivelmente subestimado em nossa sociedade. M&atilde;es, tias, av&oacute;s, professores, cuidadores, s&atilde;o a base de tudo o que vai acontecer em nosso futuro. Precisamos dessas pessoas e de seus pap&eacute;is bem exercidos. Quem pode fornecer isso salva vidas e abre caminhos para o futuro. Quem usa da autoridade para oprimir ou abandonar gera um buraco que demanda muita gente e muito dinheiro para tampar.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Como os ratinhos, precisamos desesperadamente de uma cultura de cuidado e de estabelecimento de confian&ccedil;a. Nas fam&iacute;lias, nas comunidades, nas escolas, nas empresas. N&atilde;o d&aacute; para esperar isso dos governos ou dos pol&iacute;ticos. N&atilde;o d&aacute; para esperar mudan&ccedil;as de cima para baixo, s&oacute; de baixo para cima, e essa seria a verdadeira revolu&ccedil;&atilde;o. Em vez de xingar o candidato, o gestor, o dono da empresa ou seja quem estiver no comando, devemos criar alian&ccedil;as e culturas de transforma&ccedil;&atilde;o em nosso microcosmo. Uma cultura de cuidado e de aprendizagem, j&aacute; que somos mam&iacute;feros t&atilde;o desesperadamente carentes de aprender quase tudo, todo dia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>S&oacute; assim vamos parar de ver homens se comportando como ratazanas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>**Marco Antonio Spinelli &eacute; m&eacute;dico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade <a class=\"glossaryLink\"  aria-describedby=\"tt\"  data-cmtooltip=\"cmtt_f40c12796f09aa4446e394ffc30a74f5\"  href=\"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/glossary\/sao-paulo\/\"  data-gt-translate-attributes='[{\"attribute\":\"data-cmtooltip\", \"format\":\"html\"}]'  tabindex='0' role='link'>S&atilde;o Paulo<\/a>, psicoterapeuta de orienta&ccedil;&atilde;o junguiana e autor do livro &ldquo;Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa&rdquo;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Marco Antonio Spinelli * &nbsp; Voc&ecirc; n&atilde;o iria querer ser filho de uma Iguana. 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