{"id":341293,"date":"2022-04-01T17:31:17","date_gmt":"2022-04-01T17:31:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=341293"},"modified":"2022-04-01T18:26:55","modified_gmt":"2022-04-01T18:26:55","slug":"uma-sociedade-dividida-e-os-patamares-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2022\/04\/uma-sociedade-dividida-e-os-patamares-da-pobreza\/","title":{"rendered":"Uma sociedade dividida e os patamares da pobreza"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">No per&iacute;odo que se estende no p&oacute;s II-Grande Guerra at&eacute; 1980, o Brasil teve 33 anos, em dois ciclos de expans&atilde;o, em que a taxa de crescimento da economia foi superior a 7,5 % ao ano. Se tiv&eacute;ssemos mantido esse ritmo de crescimento, o brasileiro poderia ter atualmente, em m&eacute;dia, um padr&atilde;o de vida equivalente ao que tem o italiano ou o espanhol hoje em dia. Entretanto, nas &uacute;ltimas quatro d&eacute;cadas, o Brasil tornou-se um pa&iacute;s de baixo crescimento econ&ocirc;mico, sendo que, desde 2014, a nossa economia encontra-se semiestagnada com quase 30 milh&otilde;es de desempregados, subempregados ou desalentados (os que deixaram de procurar emprego).<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">A falta de um processo de crescimento sustentado da economia brasileira tende a expandir o trip&eacute; das desigualdades sociais ao longo do tempo: as desigualdades da renda entre as fam&iacute;lias e entre as pessoas, as desigualdades da riqueza financeira e n&atilde;o financeira, e, principalmente, as desigualdades de oportunidades para que os jovens possam realizar os seus projetos de vida. O Brasil tem uma das mais elevadas taxas de desigualdades sociais do Mundo, o que ficou escancarado durante o ciclo da pandemia do coronav&iacute;rus. H&aacute;, atualmente, segundo o IBGE, mais de 67 milh&otilde;es de brasileiros abaixo da linha da pobreza, dos quais muitos se encontram na mis&eacute;ria social. Somos uma sociedade dividida entre poucos brasileiros muito ricos e muitos brasileiros pobres e miser&aacute;veis.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Em um pa&iacute;s de baixo crescimento ou em recess&atilde;o cr&ocirc;nica n&atilde;o se forma um excedente econ&ocirc;mico que possa financiar as pol&iacute;ticas de gera&ccedil;&atilde;o de renda e emprego ou, at&eacute; mesmo, as pol&iacute;ticas sociais compensat&oacute;rias. As experi&ecirc;ncias hist&oacute;ricas de diversos pa&iacute;ses nos mostram que:<\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"font-size: 12pt\">As economias de mercado que apresentam melhor desempenho econ&ocirc;mico sustentado s&atilde;o as que t&ecirc;m os melhores indicadores de igualdades sociais.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-size: 12pt\">Pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas que aumentam as desigualdades sociais resultam em menor crescimento econ&ocirc;mico.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-size: 12pt\">As economias de mercado que t&ecirc;m piores indicadores de desenvolvimento social sustent&aacute;vel s&atilde;o as economias com pior distribui&ccedil;&atilde;o de renda e de riqueza, independentemente do seu n&iacute;vel de desenvolvimento.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-size: 12pt\">Pol&iacute;ticas p&uacute;blicas bem concebidas e implementadas t&ecirc;m a capacidade de reduzir sensivelmente o n&uacute;mero de pobres e de miser&aacute;veis de um pa&iacute;s ou de uma regi&atilde;o.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-size: 12pt\">Economias de mercado que se envolveram em processos excessivos e dominantes de financeiriza&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m os seus n&iacute;veis do trip&eacute; de desigualdades acentuados.\n<p><\/p><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Entre os indicadores de desigualdades mais recentes, dois fatos merecem destaque: cresceu o n&uacute;mero de pobres que se tornaram miser&aacute;veis (segmentos D e E da sociedade) e &eacute; poss&iacute;vel identificar as trajet&oacute;rias de empobrecimento de grupos sociais da classe m&eacute;dia (funcion&aacute;rios p&uacute;blicos, profissionais liberais, microempres&aacute;rios, etc.) pelo desemprego, pelo apelo ao subemprego, pela fragilidade financeira ou pela perda de poder aquisitivo.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">A trajet&oacute;ria, nesse caso, tem observado, frequentemente, o seguinte passo a passo: ap&oacute;s a primeira queda de renda real, busca-se recompor o padr&atilde;o de vida atrav&eacute;s da monetiza&ccedil;&atilde;o dos ativos financeiros e n&atilde;o financeiros acumulados no passado. Esgotada essa alternativa ao longo dos meses, o efeito cremalheira ou a capacidade de lidar com as adversidades do padr&atilde;o de consumo j&aacute; conquistado induz a diferentes formas de endividamento (cart&atilde;o de cr&eacute;dito, presta&ccedil;&otilde;es), que pode ser fatal no momento seguinte. Um novo passo ocorre quando se abre m&atilde;o do padr&atilde;o de consumo, migrando do plano de sa&uacute;de particular para o sistema p&uacute;blico de atendimento &agrave; sa&uacute;de, do aluguel em resid&ecirc;ncias localizadas em bairros de classe m&eacute;dia para moradias em &aacute;reas perif&eacute;ricas, etc. Nesse passo a passo, acumula-se o desalento, perde-se a autoestima, aumentam o estresse e a tens&atilde;o emocional.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Quando um pa&iacute;s passa por uma recess&atilde;o prolongada ou por um extenso per&iacute;odo de crescimento econ&ocirc;mico muito baixo, a pobreza vai se configurando em diversos patamares que se diferenciam quanto ao acesso dos pobres a bens e servi&ccedil;os p&uacute;blicos e privados que atendam &agrave;s suas necessidades b&aacute;sicas de sobreviv&ecirc;ncia, com o m&iacute;nimo de dignidade humana. N&atilde;o basta destacar como evoluem os indicadores de concentra&ccedil;&atilde;o de renda e de riqueza nacional, &eacute; tamb&eacute;m necess&aacute;ria uma imers&atilde;o nas entranhas de cada patamar da pobreza a fim de se formularem e implementarem as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas mais adequadas &agrave; realidade de cada um.<\/span><\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Se a atual gera&ccedil;&atilde;o deixar como valor de legado para as futuras gera&ccedil;&otilde;es de brasileiros uma sociedade dividida entre poucos ricos e muitos pobres miser&aacute;veis, ter&aacute; confessado sua derrota na boa luta para a constru&ccedil;&atilde;o do futuro. E como disse o nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, em &ldquo;Elegia 1938&rdquo;: &ldquo;Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribui&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o podes sozinho dinamitar a Ilha de Manhattan&rdquo;.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\"><em>*<strong>Paulo Haddad<\/strong> &eacute; Membro do conselho consultivo no Instituto F&oacute;rum do Futuro. Economista, com especializa&ccedil;&atilde;o em Planejamento Econ&ocirc;mico no Instituto de Estudos Sociais de Haia &ndash; Holanda, Professor Em&eacute;rito da Universidade Federal de Minas Gerais, ex-Ministro da Fazenda e do Planejamento. Presidente da PHORUM Consultoria e Pesquisas em Economia e Diretor da AERI &ndash; An&aacute;lise Econ&ocirc;mica Regional e Internacional.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; No per&iacute;odo que se estende no p&oacute;s II-Grande Guerra at&eacute; 1980, o Brasil teve 33&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[3937],"class_list":["post-341293","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo","tag-economia","wpcat-11-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341293","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=341293"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341293\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=341293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=341293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=341293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}