{"id":337735,"date":"2022-03-11T17:20:44","date_gmt":"2022-03-11T17:20:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=337735"},"modified":"2022-03-12T03:12:05","modified_gmt":"2022-03-12T03:12:05","slug":"brasil-um-lugar-de-corruptores-sem-corruptos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2022\/03\/brasil-um-lugar-de-corruptores-sem-corruptos\/","title":{"rendered":"Brasil, um lugar de corruptores sem corruptos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>**Samuel Hanan<\/i><\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Brasil &eacute; frequentemente citado como um pa&iacute;s de mem&oacute;ria curta. Colecionamos raz&otilde;es para esta pecha, da qual a na&ccedil;&atilde;o n&atilde;o consegue se desvencilhar. Esc&acirc;ndalos hist&oacute;ricos se dissipam rapidamente na mente de nosso povo e os agentes p&uacute;blicos envolvidos em malfeitos com o dinheiro p&uacute;blico voltam a se eleger em pouco tempo, como se nada tivesse acontecido.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este fen&ocirc;meno &eacute; antigo, por&eacute;m persiste apesar da consolida&ccedil;&atilde;o da democracia e do dito amadurecimento pol&iacute;tico da popula&ccedil;&atilde;o. Exemplo mais recente desse comportamento nacional &eacute; a Opera&ccedil;&atilde;o Lava-Jato, deflagrada em 2014 e considerada a mais significativa a&ccedil;&atilde;o contra a corrup&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria do Brasil e uma das maiores do mundo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>At&eacute; 2018, os brasileiros tinham a certeza de que a Lava-Jato desvendara o maior esquema de corrup&ccedil;&atilde;o nacional, envolvendo a maior empresa estatal do pa&iacute;s, a Petrobras, agentes p&uacute;blicos, operadores do mercado financeiro e empreiteiras. Revelou-se o pagamento de propinas no valor de 1% a 5% de contratos bilion&aacute;rios superfaturados, movimentando fortunas ao longo de anos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os n&uacute;meros n&atilde;o deixam d&uacute;vidas sobre o gigantismo e o resultado da opera&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal, que ocupou por anos as manchetes da m&iacute;dia e teve repercuss&atilde;o internacional. As 79 opera&ccedil;&otilde;es deflagradas desde 2014 resultaram em mais de 550 pessoas denunciadas &agrave; Justi&ccedil;a, mais de 174 condena&ccedil;&otilde;es &ndash; algumas posteriormente anuladas -, 140 acordos de dela&ccedil;&atilde;o premiada &ndash; homologados pelo Supremo Tribunal Federal &ndash; e 17 acordos de leni&ecirc;ncia firmados com empresas envolvidas no esc&acirc;ndalo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nada menos do que R$ 4,7 bilh&otilde;es foram devolvidos &agrave; Petrobras e &agrave; Uni&atilde;o. Houve mais R$ 2,1 bilh&otilde;es pagos em multas compensat&oacute;rias, cujo total deve chegar a R$ 12,7 bilh&otilde;es em raz&atilde;o dos acordos de leni&ecirc;ncia. Outros R$ 14,7 bilh&otilde;es est&atilde;o previstos em repara&ccedil;&otilde;es. Isso totaliza R$ 34,2 bilh&otilde;es, valor que ainda ser&aacute; acrescido de corre&ccedil;&atilde;o pelo &iacute;ndice inflacion&aacute;rio definido pelo Judici&aacute;rio ou pelo Tribunal de Contas da Uni&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pela primeira vez na hist&oacute;ria brasileira, foram presos empres&aacute;rios donos de grandes empreiteiras, acostumados a ganhar as concorr&ecirc;ncias das maiores obras p&uacute;blicas. Muitos deles fizeram acordo de dela&ccedil;&atilde;o premiada, confessaram suas a&ccedil;&otilde;es como corruptores, detalharam suas opera&ccedil;&otilde;es ilegais, apontaram os corruptos que receberam propina e concordaram em devolver aos cofres p&uacute;blicos parte do que foi desviado por meio do superfaturamento nos contratos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dos processos resultantes da Lava-Jato, parte foi anulada por quest&otilde;es processuais e uma parcela menor foi extinta em raz&atilde;o de prescri&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se trata, portanto, de um atestado de inoc&ecirc;ncia porque nos casos de prescri&ccedil;&atilde;o n&atilde;o houve an&aacute;lise do m&eacute;rito, enquanto os processos anulados voltaram &agrave;s fases iniciais no Judici&aacute;rio, muitos agora em outros tribunais. &Eacute; evidente que at&eacute; a realiza&ccedil;&atilde;o dos novos julgamentos outros crimes comprovados pela Lava-Jato prescrever&atilde;o. Al&eacute;m disso, faltando apenas oito meses para as elei&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o haver&aacute; tempo h&aacute;bil para que a Justi&ccedil;a d&ecirc; novas senten&ccedil;as e, assim, muitos<\/p>\n<p>dos acusados &ndash; tecnicamente ainda fichas-limpas &ndash; poder&atilde;o concorrer a cargos p&uacute;blicos, inclusive aos mesmos postos que ocupavam por ocasi&atilde;o dos esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A quest&atilde;o &eacute; que, passado pouqu&iacute;ssimo tempo, a partir de 2020 o Brasil come&ccedil;ou a viver um fen&ocirc;meno extraordin&aacute;rio, um novo tipo de corrup&ccedil;&atilde;o no qual existem os corruptores enriquecendo com vantagens indevidas, por&eacute;m n&atilde;o existem os corruptos, ou seja, aqueles que recebem propina para viabilizar as falcatruas. M&aacute;gica? Cegueira seletiva?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2021 o quadro tornou-se ainda pior, com a sensa&ccedil;&atilde;o de que, de repente, apenas algumas pessoas s&atilde;o corruptas e respons&aacute;veis pelo maior esc&acirc;ndalo de corrup&ccedil;&atilde;o deste pa&iacute;s. Indiv&iacute;duos que, juntos, n&atilde;o lotariam um carro m&eacute;dio. E ningu&eacute;m mais.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todo o resto parece ter desaparecido de repente, como se os bilh&otilde;es devolvidos aos cofres p&uacute;blicos n&atilde;o fossem prova de nada ou talvez sejam fruto da bondade dos empreiteiros em repentino ato de benevol&ecirc;ncia patri&oacute;tica. &Eacute; uma esp&eacute;cie de aceita&ccedil;&atilde;o &ndash; ampla, geral, irrestrita e absurda &ndash; da ideia de que, por exemplo, &eacute; poss&iacute;vel a infidelidade conjugal sem amante. A fantasia est&aacute; mascarando a realidade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cabe lembrar o que disse o ministro Lu&iacute;s Roberto Barroso, em seu voto no julgamento pelo plen&aacute;rio do Supremo Tribunal de Justi&ccedil;a no julgamento da suspei&ccedil;&atilde;o do ex-juiz federal S&eacute;rgio Moro no processo envolvendo o ex-presidente Lu&iacute;s In&aacute;cio Lula da Silva e o triplex do Guaruj&aacute;: &ldquo;Na It&aacute;lia, a corrup&ccedil;&atilde;o conquistou a impunidade. Aqui, entre n&oacute;s, ela quer vingan&ccedil;a. Quer ir atr&aacute;s dos procuradores e ju&iacute;zes que ousaram enfrent&aacute;-la. Para que ningu&eacute;m nunca mais tenha a coragem de faz&ecirc;-lo. No Brasil, hoje, temos os que n&atilde;o querem ser punidos, o que &eacute; um sentimento humano e compreens&iacute;vel. Mas temos um lote muito pior, dos que n&atilde;o querem ficar honestos nem daqui para a frente, e que gostariam que tudo continuasse como sempre foi&rdquo;. A suspei&ccedil;&atilde;o acabou confirmada por 7 votos a 4, mas o voto vencido do ministro Barroso deixou uma reflex&atilde;o ainda muito v&aacute;lida, porque permanece atual.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se estamos vivendo um torpor coletivo, uma amn&eacute;sia geral, um devaneio absolut&oacute;rio, precisamos de ajuda m&eacute;dica urgente. Sem isso, o v&iacute;rus da corrup&ccedil;&atilde;o tomar&aacute; conta de vez de todo o organismo nacional, enquanto fingimos acreditar que era s&oacute; uma gripezinha e que ela j&aacute; passou.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>**Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). &Eacute; autor do livro &lsquo;Brasil: Um Pa&iacute;s &agrave; Deriva&rsquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; **Samuel Hanan &nbsp; O Brasil &eacute; frequentemente citado como um pa&iacute;s de mem&oacute;ria curta. 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