{"id":335272,"date":"2022-02-25T17:34:17","date_gmt":"2022-02-25T17:34:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=335272"},"modified":"2022-02-25T19:24:18","modified_gmt":"2022-02-25T19:24:18","slug":"o-desenvolvimento-perdido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2022\/02\/o-desenvolvimento-perdido\/","title":{"rendered":"O desenvolvimento perdido"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil, durante os cinquenta anos que v&atilde;o desde os anos 30, at&eacute; os anos oitenta do s&eacute;culo passado, cresceu a taxas chinesas, tanto que passou a ser conhecido como o &ldquo;pa&iacute;s do futuro&rdquo;. As novas gera&ccedil;&otilde;es tinham uma razo&aacute;vel certeza de que suas vidas seriam melhores do que a de seus pais e que seus filhos teriam oportunidades melhores do que eles pr&oacute;prios.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Havia pleno emprego, o que aumentava a mobilidade social e, apesar de problemas hist&oacute;ricos de bols&otilde;es de pobreza e analfabetismo, o otimismo prevalecia. Os governantes, via de regra, defendiam um projeto de desenvolvimento e, neste sentido, conseguiam galvanizar os brasileiros que tinham muito orgulho de seu pa&iacute;s.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Foram os anos em que a industrializa&ccedil;&atilde;o e o crescimento do Brasil andaram de m&atilde;os dadas, alimentando um ao outro, permitindo a gera&ccedil;&atilde;o de empregos de melhor qualidade e a formaliza&ccedil;&atilde;o crescente do trabalho. Foi este o ambiente que permitiu, ao Juscelino, prometer avan&ccedil;ar cinquenta anos em cinco, fazer Bras&iacute;lia, e consolidar a ind&uacute;stria brasileira.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>No fim deste ciclo, o Brasil tinha se tornado uma pot&ecirc;ncia industrial. Export&aacute;vamos crescentemente manufaturados, e nossa ind&uacute;stria de bens de capital fornecia &ldquo;portainers&rdquo; a portos americanos, linhas de prensagem &agrave;s maiores montadoras de Detroit, equipamento b&eacute;lico aos &aacute;rabes, e at&eacute; as maiores turbinas hidr&aacute;ulicas, do mundo, aos chineses.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A partir dos anos 80, crises externas como a do petr&oacute;leo e a forte subida dos juros americanos, somados a uma infla&ccedil;&atilde;o interna crescente, causaram mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas no pa&iacute;s. No campo pol&iacute;tico, as mudan&ccedil;as levaram ao fim da ditadura e, na economia, a d&iacute;vida externa e a infla&ccedil;&atilde;o substitu&iacute;ram o desenvolvimento como prioridade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A vis&atilde;o estrat&eacute;gica de um projeto de Na&ccedil;&atilde;o, foi trocada pela administra&ccedil;&atilde;o de problemas conjunturais e, acompanhando o mainstream do pensamento econ&ocirc;mico da ocasi&atilde;o, a partir dos anos 90, o Estado abandonou, progressivamente, o papel de coordenador e planejador do crescimento, at&eacute; extinguir o pr&oacute;prio Minist&eacute;rio do Planejamento, no atual governo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O neoliberalismo, pensamento dominante nos pa&iacute;ses centrais, nos &uacute;ltimos quarenta anos, chegou ao Brasil nos anos 90, e contribuiu na substitui&ccedil;&atilde;o do Estado, como indutor do crescimento econ&ocirc;mico, pelo mercado. Passamos a acreditar que bastaria fazer as reformas, sempre cobradas pelo mesmo mercado, para o pa&iacute;s, automaticamente, passar a crescer de forma sustentada.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Esta vis&atilde;o, que perdura at&eacute; hoje, desconhece que na hist&oacute;ria econ&ocirc;mica das Na&ccedil;&otilde;es n&atilde;o h&aacute; registro de pa&iacute;ses que tenham ficado ricos espontaneamente, ou que viraram desenvolvidos por obra da natureza, ou por acaso. Ao contr&aacute;rio, a hist&oacute;ria mostra que o desenvolvimento &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o planejada e desejada, que deve contar com o apoio da sociedade e do Estado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O &ecirc;xito, relativamente recente, de diversos pa&iacute;ses da Asia oriental, como Jap&atilde;o, Coreia, Taiwan ou China que, destro&ccedil;ados por guerras ou revolu&ccedil;&otilde;es, conseguiram, em poucas d&eacute;cadas, passar de pa&iacute;ses subdesenvolvidos a pa&iacute;ses ricos ou de renda m&eacute;dia, apenas confirma que o desenvolvimento pode ser alcan&ccedil;ado, quando for um objetivo comum &agrave; sociedade e ao Estado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O &ecirc;xito da&nbsp; China, ao se transformar, no arco de 40 anos, de uma economia agr&iacute;cola e atrasada numa pot&ecirc;ncia global, passou a amea&ccedil;ar a hegemonia tecnol&oacute;gica e econ&ocirc;mica dos pa&iacute;ses ocidentais, principalmente dos Estados Unidos, obrigando-os a rever suas estrat&eacute;gias de crescimento, e reabilitar o papel do Estado como indutor da economia.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Por sua vez, a recente pandemia causada pelo coronav&iacute;rus, deixou claro que o mercado n&atilde;o &eacute; suficiente para enfrentar crises mais s&eacute;rias e que a excessiva depend&ecirc;ncia de cadeias de produ&ccedil;&atilde;o globais aumentava significativamente a vulnerabilidade da maioria dos pa&iacute;ses, levando-os a reavaliar a import&acirc;ncia de contar com n&iacute;vel maior de produ&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A conjun&ccedil;&atilde;o destes fatores levou os pa&iacute;ses centrais a rever sua op&ccedil;&atilde;o pelo neoliberalismo, preponderante nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas. Mesmo sem abandonar o mercado, nem sempre muito livre, boa parte dos pa&iacute;ses ricos passou a valorizar o papel do Estado como indutor e coordenador do crescimento econ&ocirc;mico passando a adotar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas claramente desenvolvimentistas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A Alemanha, reconhecidamente a mais ortodoxa das economias europeias, ainda em 2019, chocou os liberais ao anunciar sua &ldquo;Estrat&eacute;gia Industrial Nacional 2030&rdquo;, uma pol&iacute;tica industrial intervencionista, com o objetivo expl&iacute;cito de garantir a competitividade de sua ind&uacute;stria, respons&aacute;vel, segundo o documento do governo, pelo bem estar da sociedade alem&atilde;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A elei&ccedil;&atilde;o do Biden, em 2020, levou os EUA a trilhar o mesmo caminho, adotando seu plano de moderniza&ccedil;&atilde;o produtiva, para, al&eacute;m de tentar manter sua superioridade tecnol&oacute;gica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; China, recuperar uma razo&aacute;vel autossufici&ecirc;ncia produtiva para reduzir a depend&ecirc;ncia de importa&ccedil;&otilde;es. Foram seguidos por muitos pa&iacute;ses, como os franceses, com plano &ldquo;Fran&ccedil;a 2030&rdquo;.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Estas mudan&ccedil;as recentes nas pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas de muitos pa&iacute;ses desenvolvidos, tem algumas caracter&iacute;sticas comuns. Todas elas recuperam o papel do Estado como planejador, indutor e coordenador de um modelo de desenvolvimento cujas atribui&ccedil;&otilde;es tinham sido repassadas ao &ldquo;livre mercado&rdquo;, nos &uacute;ltimos 40 anos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Enterram, de certo modo, a falsa dicotomia entre Estado e Mercado, como agente do crescimento e, ao reconhecer virtudes e defeitos de ambos, evidenciam a necessidade de ambos os atores trabalharem, sinergicamente, em prol de um projeto de desenvolvimento nacional com foco na prosperidade comum e no bem estar da sociedade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Voltando ao Brasil, a partir dos anos 80 do s&eacute;culo passado, desaprendemos a crescer, e esquecemos que o fim &uacute;ltimo de Estado &eacute; o bem estar de seus cidad&atilde;os. Passamos a priorizar o ajuste fiscal e as intermin&aacute;veis reformas, mantendo, durante trinta anos, uma pol&iacute;tica macroecon&ocirc;mica hostil ao investimento produtivo, que resultou na desindustrializa&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Coincid&ecirc;ncia ou n&atilde;o, a progressiva perda de participa&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria de transforma&ccedil;&atilde;o no PIB, a partir dos anos 80 convive com quatro d&eacute;cadas em que o Brasil cresceu muito pouco, bem menos do que a m&eacute;dia mundial, e muito menos do que seus pares, deixando, na pr&aacute;tica, a condi&ccedil;&atilde;o de pa&iacute;s emergente para se transformar, simplesmente, em submergente.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O pa&iacute;s aderiu tardiamente, e de forma um tanto envergonhada, ao neoliberalismo, e tamb&eacute;m est&aacute; atrasado nas mudan&ccedil;as macroecon&ocirc;micas que os pa&iacute;ses desenvolvidos, est&atilde;o promovendo, conforme vimos acima. Continuamos sem rumo, insistindo nas &ldquo;reformas&rdquo; e no ajuste fiscal esquecendo que tais temas, apesar de importantes, n&atilde;o s&atilde;o, absolutamente, a prioridade do pa&iacute;s.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas o Brasil empobreceu, em termos relativos, e o mais preocupante, &eacute; que, nos &uacute;ltimos anos, est&aacute; piorando ainda mais. A receita econ&ocirc;mica utilizada, a partir dos anos 80 claramente n&atilde;o funcionou e, portanto, dever&iacute;amos estar aprendendo com os erros passados e com os exemplos dos pa&iacute;ses que est&atilde;o dando certo, e n&atilde;o dobrando a aposta como sugerem o mercado e nosso pensamento econ&ocirc;mico dominante.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A sociedade brasileira tem que questionar a falta de rumo do pa&iacute;s, e voltar a se perguntar que pa&iacute;s queremos, e como podemos garantir um futuro melhor para as novas gera&ccedil;&otilde;es. Ela deve cobrar de nossos dirigentes um projeto para o pa&iacute;s, que recupere o desenvolvimento econ&ocirc;mico e cujos benef&iacute;cios sejam apropriados pela grande maioria de nossa popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Ou seja, o objetivo deve ser o crescimento sustentado, ao longo do tempo, a taxas iguais ou maiores do que a m&eacute;dia mundial, com redistribui&ccedil;&atilde;o de renda e nivelamento no acesso &agrave;s oportunidades por parte de todos os brasileiros. Acreditamos que a gera&ccedil;&atilde;o de empregos, especialmente de empregos de qualidade seja essencial para alcan&ccedil;ar estes objetivos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Para tanto, &eacute; indispens&aacute;vel recuperar tanto a capacidade de planejamento do Estado, quanto sua capacidade de retomar os investimentos p&uacute;blicos em infraestrutura, inclusive como indutores do investimento privado, al&eacute;m dos investimentos em educa&ccedil;&atilde;o de qualidade, e em ci&ecirc;ncia, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o. Transpar&ecirc;ncia e governan&ccedil;a dever&atilde;o nortear estes investimentos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Como j&aacute; dissemos a hist&oacute;ria recente confirma que o desenvolvimento anda, e continua andando, de m&atilde;os dadas com uma ind&uacute;stria competitiva, diversificada e sofisticada. Portanto, ser&aacute; indispens&aacute;vel promover um novo ciclo de industrializa&ccedil;&atilde;o, como instrumento de uma pol&iacute;tica p&uacute;blica de desenvolvimento, tendo a economia verde e a digitaliza&ccedil;&atilde;o como pano de fundo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Parafraseando Clemenceau podemos dizer que o desenvolvimento &eacute; um assunto demasiado s&eacute;rio para ser deixado exclusivamente aos economistas. Precisamos restabelecer a primazia da pol&iacute;tica sobre a economia, em lugar do mercado que nos levou &agrave; excessiva financeiriza&ccedil;&atilde;o da economia, e recuperar o bem estar da sociedade como objetivo &uacute;ltimo do Estado.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*Jo&atilde;o Carlos Marchesan &eacute; administrador de empresas, empres&aacute;rio e presidente da ABIMAQ &ndash; Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira da Ind&uacute;stria de M&aacute;quinas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil, durante os cinquenta anos que v&atilde;o desde os anos 30, at&eacute; os anos oitenta&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11,21201],"tags":[3937],"class_list":["post-335272","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo","category-destaques","tag-economia","wpcat-11-id","wpcat-21201-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/335272","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=335272"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/335272\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=335272"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=335272"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=335272"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}