{"id":331919,"date":"2022-02-10T16:58:24","date_gmt":"2022-02-10T16:58:24","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=331919"},"modified":"2022-02-22T20:48:13","modified_gmt":"2022-02-22T20:48:13","slug":"reducao-das-desigualdades-sociais-desafio-inadiavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2022\/02\/reducao-das-desigualdades-sociais-desafio-inadiavel\/","title":{"rendered":"Redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, desafio inadi\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Quando foi promulgada, em 5 de outubro de 1988, a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal brasileira foi considerada uma das mais avan&ccedil;adas do mundo na quest&atilde;o dos direitos e garantias individuais. Entretanto, passados 33 anos, constatamos que o pa&iacute;s ainda n&atilde;o conseguiu cumprir um dos princ&iacute;pios fundamentais da Rep&uacute;blica, elencado logo no in&iacute;cio da Carta Magna: a redu&ccedil;&atilde;o das desigualdades regionais e sociais.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&Eacute; chocante o que nos mostram os indicadores. Apesar de estar entre as 12 maiores economias do mundo, o Brasil &eacute; o nono pa&iacute;s mais desigual entre 164 na&ccedil;&otilde;es, conforme o ranking World Development Indicators (em portugu&ecirc;s, Indicadores de Desenvolvimento Social), publicado pelo Banco Mundial em 2020.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Em um intervalo de 60 anos, entre 1960 e 2020, o Brasil registrou aumento de 133,82% da concentra&ccedil;&atilde;o de renda em favor de 1% dos mais ricos da na&ccedil;&atilde;o, segundo estudo elaborado pelo IBGE &ndash; Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Em 1960, essa minoria de 1% detinha 12,10% da renda nacional. Em 2010, esse percentual havia subido para 17,20% e, em 2020, atingiu 28,30%. O fen&ocirc;meno se repete em outras faixas da popula&ccedil;&atilde;o mais abastada. Os 5% mais ricos, que concentravam 27,70% da renda nacional em 1960, acumulavam 36,30% em 2010, acr&eacute;scimo de 30,3%. Na faixa dos 10% mais ricos, sua participa&ccedil;&atilde;o pulou de 39,70% em 1960 para 49,80% cinquenta anos depois. Aumento de 22,9%. Nos bolsos dos 20% mais ricos do Pa&iacute;s estavam 63,30% da renda nacional em 2010, ante 54,40% em 1960. Entre eles, a concentra&ccedil;&atilde;o de renda aumentou 13,2% desde ent&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Se analisarmos a evolu&ccedil;&atilde;o das classes sociais no Brasil em per&iacute;odo mais recente, de 2008 a 2020, fica evidente o significativo empobrecimento da maior parte da popula&ccedil;&atilde;o nacional. Em 2008, as Classes &ldquo;A&rdquo; e &ldquo;B&rdquo; somavam 11,6% da popula&ccedil;&atilde;o. Em 2020 alcan&ccedil;avam 15,3% da popula&ccedil;&atilde;o. J&aacute; a Classe &ldquo;C&rdquo;, composta por 48,9% dos brasileiros em 2008, n&atilde;o somava nem 40% em 2020. E a soma das classes &ldquo;D&rdquo; e&nbsp;&ldquo;E&rdquo;&nbsp;passou de 39,6% em 2008 para 44,9% da popula&ccedil;&atilde;o em 2020. Ou seja: a Classe &ldquo;C&rdquo; perdeu para as classes &ldquo;D&rdquo; e&nbsp;&ldquo;E&rdquo;&nbsp;cerca de 31,9 milh&otilde;es de pessoas. Os ricos est&atilde;o cada vez mais ricos, a classe m&eacute;dia vem sendo reduzida e empobrecida, e os pobres est&atilde;o se tornando miser&aacute;veis.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Reportagem da BBC News Brasil, veiculada em 13 de dezembro de 2021, mostrou que 70% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira adulta ganharam em m&eacute;dia, em 2019, menos de R$ 2.000,00\/m&ecirc;s, o que equivale a cerca de 2 sal&aacute;rios m&iacute;nimos da &eacute;poca. Os dados tamb&eacute;m comprovam que 90% da popula&ccedil;&atilde;o de brasileiros adultos ganharam, em 2019, menos de R$ 3.500,00\/m&ecirc;s. Por outro lado, quem se insere entre o 1% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira mais rica, teve renda m&eacute;dia mensal de R$ 28.659,00, o correspondente a 28,5 sal&aacute;rios m&iacute;nimos da &eacute;poca (2019), muito mais que a renda mensal de 99% da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Os dados tamb&eacute;m comprovam que 89,16% da popula&ccedil;&atilde;o brasileira adulta com renda mensal de at&eacute; R$ 4.990,00, menos que 5 sal&aacute;rios m&iacute;nimos (em 2019), respondem por 66,44% do total da arrecada&ccedil;&atilde;o tribut&aacute;ria do pa&iacute;s. Aqui est&aacute; a comprova&ccedil;&atilde;o definitiva de que o Sistema Tribut&aacute;rio Brasileiro &eacute; um verdadeiro manic&ocirc;mio tribut&aacute;rio.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>As desigualdades sociais e regionais v&ecirc;m sendo fomentadas pelo Governo Federal h&aacute; mais de 20 anos. Esse abismo se acentua gra&ccedil;as, primeiramente, &agrave; tributa&ccedil;&atilde;o elevada, injusta e progressiva sobre o consumo. Ao optar por tributar fortemente o consumo, e n&atilde;o a renda\/capital, o Brasil escolheu o caminho errado. Essa sinuosa estrada arrecadadora n&atilde;o &eacute; nada segura e sacrifica o bolso dos mais pobres. &Eacute; a acelera&ccedil;&atilde;o das desigualdades ladeira abaixo.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Se por um lado o governo se mostra sens&iacute;vel &agrave; situa&ccedil;&atilde;o dos menos favorecidos implementando o programa Aux&iacute;lio Brasil no valor de R$ 400,00 mensais, por outro tira quase o total do benef&iacute;cio do trabalhador assalariado com renda de at&eacute; 2 sal&aacute;rios m&iacute;nimos por meio da abusiva tributa&ccedil;&atilde;o imposta sobre o consumo da alimenta&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica, higiene pessoal, vestu&aacute;rio e transporte, que lhe custam R$ 390,14 por m&ecirc;s.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>O abismo se aprofundar&aacute; se os cidad&atilde;os que ganham menos continuarem sofrendo os efeitos mais perversos desse modelo tribut&aacute;rio, pelo qual a carga tribut&aacute;ria recai mais em quem ganha menos. Esta &eacute; uma na&ccedil;&atilde;o&nbsp;Robin&nbsp;Hood &agrave;s avessas!&nbsp;<\/p>\n<p>Outra causa importante desse agravamento &eacute; a benevol&ecirc;ncia do Governo Federal na concess&atilde;o de ren&uacute;ncias fiscais. A receita da qual o Brasil abre m&atilde;o todos os anos soma R$ 300 bilh&otilde;es. Ou nada menos do que 4% do PIB Nacional. As raz&otilde;es para essas concess&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o apenas question&aacute;veis; significam escandaloso descumprimento da Constitui&ccedil;&atilde;o, porque s&atilde;o concedidos sem a observ&acirc;ncia do princ&iacute;pio da impessoalidade e se destinam n&atilde;o para a redu&ccedil;&atilde;o das desigualdades sociais e regionais, mas para as regi&otilde;es Sudeste e Sul, justamente as mais ricas e desenvolvidas do pa&iacute;s. Como se n&atilde;o bastasse, o Brasil ainda perde outra significativa do PIB para a evas&atilde;o fiscal. S&atilde;o U$$ 280 bilh&otilde;es que deixam de entrar anualmente nos cofres federais por pessoas f&iacute;sicas e jur&iacute;dicas que sonegam tributos. Um rombo de 13,4% do PIB.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Antes de se falar em reforma tribut&aacute;ria e do restabelecimento do pacto federativo, existem caminhos urgentes, necess&aacute;rios e fact&iacute;veis para o Brasil reduzir suas desigualdades sociais. O ponto de partida deve ser a redu&ccedil;&atilde;o da tributa&ccedil;&atilde;o sobre o consumo, diminuindo as al&iacute;quotas de ICMS, IPI, PIS, COFINS e outros impostos.&nbsp;<\/p>\n<p>Outra medida essencial &eacute; fazer uma mudan&ccedil;a profunda no Imposto de Renda, come&ccedil;ando pela corre&ccedil;&atilde;o anual da Tabela do Imposto de Renda Pessoa F&iacute;sica, evitando-se tributar infla&ccedil;&atilde;o e aumentar a tributa&ccedil;&atilde;o das pessoas f&iacute;sicas sem lei autorizativa. Al&eacute;m disso, &eacute; imprescind&iacute;vel aumentar a tributa&ccedil;&atilde;o sobre a renda &ndash; por meio do IRPJ -, criando novas e mais elevadas al&iacute;quotas, de modo a tributar maiores sal&aacute;rios e rendas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Tamb&eacute;m &eacute; urgente aumentar a tributa&ccedil;&atilde;o sobre heran&ccedil;a, hoje fixada em 4% a 7%, muito aqu&eacute;m do que &eacute; cobrado em outros pa&iacute;ses. Por fim, o Pa&iacute;s precisa estabelecer pol&iacute;tica de aumento real anual do sal&aacute;rio-m&iacute;nimo,&nbsp;com&nbsp;percentual ditado pelo aumento da produtividade, al&eacute;m, &eacute; claro, da obrigatoriedade da corre&ccedil;&atilde;o anual pelo &iacute;ndice inflacion&aacute;rio.&nbsp;<\/p>\n<p>O dramaturgo paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) h&aacute; muito tempo alertou: &ldquo;O que &eacute; muito dif&iacute;cil &eacute; voc&ecirc; vencer a injusti&ccedil;a secular que dilacera o Brasil em dois pa&iacute;ses distintos: o pa&iacute;s dos privilegiados e o pa&iacute;s dos despossu&iacute;dos.&rdquo;<\/p>\n<p>Sempre &eacute; tempo de ouvir a voz dos s&aacute;bios e de encarar os desafios, enfrentando o poder das elites e reduzindo privil&eacute;gios.&nbsp; Sem isso, o Brasil continuar&aacute; sendo uma&nbsp;fonte inesgot&aacute;vel&nbsp;de desigualdades sociais,&nbsp;penalizando&nbsp;a popula&ccedil;&atilde;o mais pobre.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>** Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando foi promulgada, em 5 de outubro de 1988, a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal brasileira foi considerada uma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11,21201],"tags":[3937],"class_list":["post-331919","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo","category-destaques","tag-economia","wpcat-11-id","wpcat-21201-id"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331919","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=331919"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331919\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=331919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=331919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=331919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}