{"id":330228,"date":"2022-02-03T21:36:16","date_gmt":"2022-02-03T21:36:16","guid":{"rendered":"https:\/\/redepress.ecompare.com.br\/noticias\/?p=330228"},"modified":"2022-02-22T21:02:39","modified_gmt":"2022-02-22T21:02:39","slug":"miopia-politica-nao-pode-condenar-a-zona-franca-de-manaus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redepress.com.br\/noticias\/2022\/02\/miopia-politica-nao-pode-condenar-a-zona-franca-de-manaus\/","title":{"rendered":"Miopia pol\u00edtica n\u00e3o pode condenar a Zona Franca de Manaus"},"content":{"rendered":"<p>Estamos em 2022, ano eleitoral. E em todo ano eleitoral, economistas not&aacute;veis convocados pelos pr&eacute;-candidatos &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica defendem a necessidade de o Brasil eliminar ou pelo menos reduzir drasticamente os gastos tribut&aacute;rios da Uni&atilde;o, hoje em torno de R$ 300 bilh&otilde;es\/ano. Invariavelmente, esses especialistas apontam para a Zona Franca de Manaus, citando-a como exemplo de ren&uacute;ncia fiscal despropositada. Trata-se, entretanto, de uma vis&atilde;o m&iacute;ope, que alicer&ccedil;a um discurso f&aacute;cil, por&eacute;m insustent&aacute;vel.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Ningu&eacute;m se contrap&otilde;e &agrave; necessidade de redu&ccedil;&atilde;o dos gastos tribut&aacute;rios da Uni&atilde;o porque, de fato, &eacute; um disp&ecirc;ndio exagerado, resultante da irresponsabilidade dos governantes e que consome quase 4% do PIB Nacional. Esse diagn&oacute;stico &eacute; correto. Errado &eacute; o rem&eacute;dio proposto, pelo menos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Zona Franca de Manaus, ali&aacute;s a &uacute;nica com previs&atilde;o constitucional (artigos 40, 92 e 92A do Ato das Disposi&ccedil;&otilde;es Constitucionais Transit&oacute;rias &ndash; ADCT, de 1988).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&Eacute; necess&aacute;rio compreender bem o papel da ZFM antes de conden&aacute;-la por meio de ret&oacute;ricas eleitoreiras. Criada em 1957 pelo presidente Juscelino Kubitschek, no arcabou&ccedil;o de seu plano estrat&eacute;gico para interiorizar o desenvolvimento nacional (Lei n&ordm; 3.173) , a ZFM foi depois alterada pelo Decreto-Lei n&ordm; 288\/67 de Castelo Branco e definida como &ldquo;&aacute;rea livre&rdquo; de com&eacute;rcio, de importa&ccedil;&atilde;o e exporta&ccedil;&atilde;o e de incentivos fiscais, com o objetivo de criar no interior da Amaz&ocirc;nia um centro industrial e com&eacute;rcio exterior. Era um passo decisivo de Castelo Branco para, como ele preconizava, &ldquo;integrar para n&atilde;o entregar&rdquo; a Amaz&ocirc;nia, alvo de cobi&ccedil;a internacional. A ideia era viabilizar um polo de produ&ccedil;&atilde;o de bens de alto valor agregado, a fim de substituir as onerosas importa&ccedil;&otilde;es de bens finais; de r&aacute;pida implanta&ccedil;&atilde;o e que n&atilde;o agredisse o meio ambiente e respeitasse a preserva&ccedil;&atilde;o da floresta tropical, a popula&ccedil;&atilde;o ribeirinha, os ind&iacute;genas, suas terras e suas culturas.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A primeira ind&uacute;stria se instalou no polo em 1970 e hoje, cinco d&eacute;cadas depois, a Zona Franca de Manaus est&aacute; consolidada como grande produtora de eletrodom&eacute;sticos, microcomputadores, motocicletas, bicicletas, aparelhos de ar-condicionado, transmissores\/receptores, e outros eletroeletr&ocirc;nicos, gerando emprego e renda fora dos grandes centros. Seu desenvolvimento deu-se, como previsto, com benef&iacute;cios tribut&aacute;rios, por&eacute;m hoje a ZFM responde por apenas de 6% a 8% do total renunciado pelo Governo Federal.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>H&aacute;, portanto, pelo menos outros 92% a 94% de ren&uacute;ncias fiscais destinadas a outros setores espalhados pelo Brasil, na sua maioria concentrados nas regi&otilde;es mais desenvolvidas do Pa&iacute;s. Essa realidade &eacute; ignorada por aqueles que elegem o polo industrial manauara como o grande vil&atilde;o nacional.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A Zona Franca de Manaus n&atilde;o merece essa pecha nem o nome oficial, que remete &agrave; bagun&ccedil;a no linguajar popular. Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; um para&iacute;so fiscal, tampouco uma Shangri-l&aacute;, devendo ser permanentemente avaliada e aperfei&ccedil;oada na dire&ccedil;&atilde;o de gera&ccedil;&atilde;o de maior valor adicionado local.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Os n&uacute;meros da Receita Federal d&atilde;o a sua dimens&atilde;o. O estado do Amazonas abriga 22,54% dos habitantes da Regi&atilde;o Norte (dados de 2020), participa com 22,55% do PIB &nbsp;regional e contribui com 39,25% dos impostos federais arrecadados naquela &aacute;rea. &Eacute; evidente a desproporcionalidade.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Em 2020, o Brasil somou R$ 298,5 bilh&otilde;es de gastos tribut&aacute;rios da Uni&atilde;o. Desse total, apenas R$ 19,5 bilh&otilde;es referem-se &agrave; ren&uacute;ncia fiscal conferida &agrave; Zona Franca de Manaus e &aacute;reas de livre comercio da Regi&atilde;o, n&uacute;mero ainda menor que 2019 (R$ 28,2 bilh&otilde;es).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Demonizar a ZFM com base unicamente nesse benef&iacute;cio &eacute;, portanto, argumento que n&atilde;o encontra sustenta&ccedil;&atilde;o. Tal ren&uacute;ncia, mesmo &iacute;nfima numericamente, &eacute; essencial para manter o polo, cuja import&acirc;ncia para o Pa&iacute;s n&atilde;o se discute. A falsa problem&aacute;tica da ZFM esconde o que verdadeiramente deveria ser questionado: a discricionariedade com que s&atilde;o destinados os outros 92% a 94% das ren&uacute;ncias fiscais.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 determina expressamente (artigos 3&deg;, 43, 151 e 165) que tais benef&iacute;cios devem ser concedidos com o fim prec&iacute;puo de diminuir as desigualdades regionais e sociais. Inquestion&aacute;vel que no caso da Zona Franca esse quesito &eacute; respeitado. Entretanto, a maioria esmagadora dos benef&iacute;cios fiscais da Uni&atilde;o foi e continua sendo concedida a alguns poucos setores da economia mediante a escolha de governantes, em ineg&aacute;vel afronta ao princ&iacute;pio constitucional da impessoalidade, al&eacute;m de dar margem a press&otilde;es e lobbies de determinados nichos econ&ocirc;micos.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Essa pr&aacute;tica privilegia alguns setores sem qualquer garantia de que tal benef&iacute;cio efetivamente contribui para a redu&ccedil;&atilde;o das desigualdades regionais, t&atilde;o evidentes neste pa&iacute;s.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>&Eacute; preciso enxergar que a ZFM provocou forte migra&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o do interior do Amazonas para a capital, atraindo cidad&atilde;os de todo o estado em busca de emprego e melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida. Em meio s&eacute;culo, Manaus cresceu 7,11 vezes, enquanto o interior cresceu apenas 3,06 vezes no mesmo per&iacute;odo. A capital se desenvolveu, mas tamb&eacute;m passou a enfrentar graves problemas, como a faveliza&ccedil;&atilde;o: &eacute; a segunda capital brasileira com maior n&uacute;mero de domic&iacute;lios favelizados (53,4%), atr&aacute;s somente de Bel&eacute;m (55%).<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Por outro lado, o esvaziamento econ&ocirc;mico e demogr&aacute;fico do interior propiciou forte preserva&ccedil;&atilde;o da floresta tropical no Amazonas, onde a conserva&ccedil;&atilde;o atinge n&iacute;veis em torno de 86% a 88%. Resultado da redu&ccedil;&atilde;o da explora&ccedil;&atilde;o da floresta, cujas chagas atuais s&atilde;o frutos de atividades predat&oacute;rias &ndash; como a pecu&aacute;ria extensiva, que derruba &aacute;rvores para aumentar a &aacute;rea de pastagem &ndash; ou ilegais, como o garimpo, contrabando de min&eacute;rios e metais e a extra&ccedil;&atilde;o de madeira sem certifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A campanha eleitoral e o presidente que vier a ser eleito necessitam vislumbrar o Amazonas al&eacute;m da Zona Franca de Manaus, conscientizando-se das enormes oportunidades que se abrem com a preserva&ccedil;&atilde;o da floresta: a capta&ccedil;&atilde;o e comercializa&ccedil;&atilde;o de cr&eacute;ditos de carbono, a explora&ccedil;&atilde;o do ecoturismo e a exporta&ccedil;&atilde;o de peixes e frutas tropicais, dentre outras atividades sustent&aacute;veis.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>A floresta em p&eacute; &eacute; um ativo riqu&iacute;ssimo dos pontos de vista econ&ocirc;mico, de credibilidade internacional e clim&aacute;tico. Essa preserva&ccedil;&atilde;o &eacute; fundamental para o regime de chuvas nas regi&otilde;es Centro-Oeste, Sudeste e Sul, onde se concentra expressiva parcela do agroneg&oacute;cio e do PIB nacional, n&atilde;o se ignorando tamb&eacute;m que mais de 65% da matriz energ&eacute;tica brasileira &eacute; de origem h&iacute;drica.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>Se esse olhar atento substituir o discurso f&aacute;cil, o Brasil s&oacute; ter&aacute; a ganhar.<\/p>&nbsp;&nbsp;\n<p>** Samuel Hanan &eacute; engenheiro com especializa&ccedil;&atilde;o nas &aacute;reas de macroeconomia, administra&ccedil;&atilde;o de empresas e finan&ccedil;as, empres&aacute;rio, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos em 2022, ano eleitoral. 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