Em cartaz de 7 de novembro a 9 de janeiro na Casa do Olhar Luiz Sacilotto, em Santo André (SP), a exposição “Cidades Invisíveis” reúne pinturas, trabalhos sobre papel e instalações que aproximam natureza, memória e ocupação urbana
Santo André (SP), 15 de outubro de 2026 – Uma praça pode desaparecer da paisagem antes que alguém perceba sua falta. Um parque, visto de cima, pode se resumir a uma pequena mancha entre avenidas e construções. No trabalho de Corina Ishikura, esses espaços ganham outra dimensão: tornam-se pinturas, perfurações no papel e estruturas de madeira que convidam o público a observar o que a rotina costuma deixar passar. É desse encontro entre a cidade que se mede e a cidade que se vive que nasce “Cidades Invisíveis”, exposição individual que será apresentada de 7 de novembro de 2026 a 9 de janeiro de 2027, na Casa do Olhar Luiz Sacilotto (Rua Campos Sales, 414, Centro), em Santo André (SP).
Com curadoria de Érica Burini, a mostra reúne 38 obras organizadas em oito séries. O conjunto parte de mapas e levantamentos sobre população e vegetação para investigar a ocupação dos espaços e a relação de seus habitantes com a natureza.
Apresentada no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC) em 2025, a exposição ganha uma configuração própria em Santo André, com novas pinturas e instalações concebidas em diálogo com as características do imóvel tombado que abriga a Casa do Olhar Luiz Sacilotto.
Entre escolhas de cor, escala e matéria, Corina transforma os dados em experiências visuais e espaciais. Nas obras, a concentração de habitantes e os contrastes entre os territórios ganham dimensões que o visitante pode perceber com o próprio corpo. “O meu trabalho fala muito dessa desigualdade – dessa distribuição desigual de população, uma concentração, por exemplo, na cidade de São Paulo que é muito grande – de concreto, de pessoas”, propõe a artista.
Essa reflexão aparece em “Pilares desmedidos”, instalação em madeira que estabelece uma relação entre a altura dos elementos e a população de cidades paulistas. O contraste entre o pilar mais alto e os volumes menores transforma a concentração urbana em uma experiência de proporção. Na montagem, a arquitetura participa da obra: o limite do pé-direito interfere na dimensão que a estrutura pode alcançar e na maneira como o visitante a percebe.
A cidade entre o papel, a madeira e a pintura
A diversidade de materiais acompanha diferentes maneiras de abordar a paisagem. Corina trabalha com óleo sobre linho e madeira, papel perfurado a laser, aquarela produzida com cinzas e instalações escultóricas. A passagem de uma linguagem a outra mantém relações recorrentes em sua pesquisa, como as aproximações entre cheio e vazio, matéria natural e intervenção humana.
Em “Há algo sólido no brilho do céu”, o território aparece em uma série de 27 trabalhos sobre papel, correspondentes às unidades da Federação. O processo de perfuração e pintura transforma informações cartográficas em imagens. “Cada pequena perfuração no papel representa uma cidade. Incorporo as cinzas desse processo à aquarela, com a qual pinto os círculos que traduzem a cobertura vegetal de cada estado”, revela Corina.
Já o título da série “Átrios invisíveis” remete ao espaço arquitetônico, associado, na reflexão da artista, à possibilidade de permanecer, contemplar e experimentar outra relação com o silêncio e a luz. Nas obras, os vazios têm presença e participam da construção da imagem.
A instalação “Foi casa” é composta por 28 peças de madeira, relacionadas a dados sobre a perda de cobertura vegetal nas unidades da Federação e no Brasil. As informações provêm de fontes como MapBiomas e o Sistema Nacional de Informações Florestais (SNIF): 27 peças correspondem às unidades da Federação e uma à representação do país.
Já as duas pinturas da série “Para passear”, realizadas sobre madeira, partem da observação das áreas verdes nos espaços urbanos. O mesmo campo de investigação se desdobra em três novas telas de “A poética do espaço”, produzidas em 2026, com um metro por um metro cada.
Nas novas telas, a artista amplia a paleta em relação aos trabalhos anteriores da série. “Essas cores, de uma certa forma, falam dos elementos que compõem a natureza: a água, a cor da terra, a cor da própria cidade”, diz Corina. “É um desdobramento da mesma série, olhando ainda para esses mesmos espaços de áreas verdes dentro de áreas urbanas.”
Literatura e ancestralidade
O título da exposição aproxima a pesquisa de Corina do livro “As cidades invisíveis”, de Italo Calvino. A interlocução literária também passa pelos haicais de Alice Ruiz, cuja atenção à natureza e síntese poética oferecem caminhos para a leitura das obras e para as atividades do projeto.
Na interpretação de Érica Burini, a síntese dos haicais ajuda a compreender como linhas, cores, volumes e intervalos concentram questões sobre a experiência urbana. “O trabalho da Corina também traz uma mistura entre o uso de uma linguagem ocidental da arte contemporânea com uma ética oriental a respeito da relação com a natureza, do silêncio, do vazio, de uma economia também dos elementos, das cores”, afirma a curadora.
Formada em Letras, Corina reconhece a leitura e as conversas com Érica como parte da construção do projeto. A aproximação com a cultura japonesa também encontra uma dimensão familiar: sua mãe é descendente de japoneses, enquanto o pai, artista, trabalhou com madeira. “Quando a gente vai fazer um trabalho, não pensa: ‘Vou fazer isso por conta disso’. As coisas acontecem, e essas influências vêm de forma orgânica. Elas se manifestam”, observa Corina.
Uma exposição em diálogo com a Casa do Olhar Luiz Sacilotto
Na Casa do Olhar Luiz Sacilotto, o caráter histórico do imóvel e as condições de uso de suas salas exigem soluções específicas de montagem. Para Érica, essa relação com o espaço também aciona lembranças das transformações urbanas. “A Corina também está falando de acionar a memória individual de cada um e refletir como é que as cidades eram antes, quando elas tinham mais áreas verdes, menos áreas verdes, e pensar nessas reivindicações”, afirma a curadora.
Para Corina, a experiência da exposição permanece aberta às respostas do público. “É uma provocação sobre como estamos nos relacionando com o espaço e sobre aquilo que escapa ao nosso controle”. A intenção, evidencia, é trazer por meio do trabalho “um olhar diferente para a natureza, para as cidades, para a forma como a gente pode habitar esse lugar”.
Atividades e programação pública
Além das exposições, o projeto prevê uma conversa pública com Corina Ishikura e Érica Burini na abertura de cada etapa, com espaço para ouvir memórias e desejos do público sobre as cidades. Em Santo André, o encontro será realizado em 7 de novembro, às 14h30. A visita guiada será realizada no último sábado, dia 09 de janeiro de 2027, às 11h, com a artista e a curadora.
Também estão previstas oficinas conduzidas por artistas locais, voltadas ao público feminino de diferentes faixas etárias. As propostas poderão trabalhar com bordado, colagem e monotipia, tendo os haicais do livro “Jardim de Haijin”, de Alice Ruiz, como ponto de partida para a experimentação. Em Santo André, a oficina será ministrada pela artista Bruna Marassato em 28 de novembro, às 10h, com duração de três horas, inscrição prévia e até 20 participantes.
Ao final da circulação, o projeto prevê a distribuição gratuita de um catálogo, com registros das exposições e textos de Érica Burini, Sylvia Furegatti e Allan Yzumizawa. Uma obra será doada a cada instituição cultural participante.
Após a temporada em Santo André, na região metropolitana de São Paulo, “Cidades Invisíveis” seguirá para Sorocaba, no interior paulista, onde será apresentada de 16 de janeiro a 4 de abril de 2027, e para Praia Grande, no litoral, na Baixada Santista, de 8 de abril a 28 de maio de 2027. Previsto no projeto, o percurso por essas três regiões leva a exposição a municípios fora do eixo das capitais Rio de Janeiro-São Paulo, com atividades que propõem o diálogo com o público e com artistas de cada município.
O projeto conta com fomento do Programa de Ação Cultural – ProAC Editais, produção da Indri Produções LTDA e apoio da Casa do Olhar Luiz Sacilotto. A realização é do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, do Sistema Nacional de Cultura (SNC), da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura e do Governo Federal.
Sobre a artista
Corina Ishikura nasceu, vive e trabalha em São Paulo. Desenvolve pesquisa em pintura, desenho, instalação e vídeo, utilizando levantamentos sociais, urbanos e cartográficos como ponto de partida para obras que exploram relações entre paisagem, natureza e presença humana.
Formada em Letras pela Universidade Mackenzie, realizou estudos em instituições como MAM-SP, Pinacoteca e FAAP, frequentou o ateliê de Kazuo Wakabayashi e estudou Artes Visuais com Elias Muradi. Participou de residências artísticas no Japão, pela Fundação Mokiti Okada, e na Kaaysá Art Residence, em São Sebastião.
Entre suas exposições individuais estão “Cidades Invisíveis”, no MACC, e “Quando sonhei que era uma montanha”, na GAIA/Unicamp. Sua trajetória inclui mostras em instituições como Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), durante a 16ª Bienal Internacional de Curitiba, Museu Nacional da República (MUN), MAC Niterói, Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) e Museu de Arte de Blumenau. Suas obras integram acervos públicos e privados.
Sobre a curadora
Érica Burini é historiadora da arte, pesquisadora e curadora. Formada em Artes Visuais e mestre em História da Arte pela Unicamp, atua na organização de exposições, mediação de conversas e edição de publicações. Colaborou com o Instituto Marco do Valle e integra a gestão do Ateliê397, espaço independente de arte contemporânea em São Paulo. Em 2025, participou de um intercâmbio de residência curatorial promovido pela YBYTU, no Brasil, e pela SAHA, em Istambul.
Serviço e ficha técnica
Exposição: “Cidades Invisíveis” | Individual de Corina Ishikura
Curadoria: Érica Burini
Cidade: Santo André (SP)
Local: Casa do Olhar Luiz Sacilotto Endereço: Rua Campos Sales, 414, Centro – Santo André (SP)
Abertura: 7 de novembro de 2026, das 14h às 18h.
Período: de 7 de novembro de 2026 a 9 de janeiro de 2027
Visitação / funcionamento: de terça a sexta-feira, das 10 às 12h e das 13h às 16h30; aos sábados, das 10h às 15h.
Fechamento: a Casa do Olhar Luiz Sacilotto não abre nos feriados e estará fechada de 19 de dezembro de 2026 a 3 de janeiro de 2027, durante o recesso de fim de ano.
Entrada: gratuita.
Classificação indicativa: livre
Acessibilidade: rampa de acesso; audiodescrição das obras e obra tátil.
Programação complementar
Conversa pública: 7 de novembro de 2026, às 14h30.
Visita guiada: 09 de janeiro de 2027, às 11h, com Corina Ishikura e Érica Burini.
Oficina: 28 de novembro de 2026, às 10h, ministrada pela artista Bruna Marassato; duração de três horas; até 20 participantes; inscrição prévia.
Circulação do projeto: Santo André, Sorocaba e Praia Grande.
Fomento: Programa de Ação Cultural – ProAC Editais.
Produção: Indri Produções LTDA.
Apoio: Casa do Olhar Luiz Sacilotto.
Realização: Governo do Estado de São Paulo / Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas; Sistema Nacional de Cultura (SNC); Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB); Ministério da Cultura; Governo Federal.
Balanço da exposição
Oito séries.
Total de 38 obras e instalações.
Linguagens: pintura, trabalhos sobre papel e instalações escultóricas.
Materiais e procedimentos identificados: óleo sobre linho tela e madeira, madeira queimada, perfuração e gravação a laser, imagens produzidas com cinzas e aquarela.
Conjuntos quantificados: 27 trabalhos de “Há algo sólido no brilho do céu”, dois de “Átrios invisíveis”, duas pinturas sobre madeira de “Para passear” e três telas de “A poética do espaço”.
Instalações: 4 instalações, sendo 2 de espaço e 2 de parede. Trata-se de um conjunto de 28 peças de madeira, e outra com caibros em diferentes comprimentos.
Novidades para esta etapa: três pinturas produzidas em 2026, as instalações “Floresta” e “Foi casa” e uma série de 27 trabalhos sobre papel.
Obras e conjuntos identificados para Santo André:
“Pilares desmedidos” – instalação em madeira queimada. Relaciona a altura dos pilares à população de cidades paulistas, evidenciando contrastes de concentração urbana. Dimensões adaptadas ao espaço.
“Dado indisponível” – Instalação em madeira com uso da tinta a óleo. Apropriação e subversão de ferramentas e métodos de medição e controle do território a partir de rankings de concentração de riquezas.
“Floresta” – instalação inédita em madeira. Relaciona a população das 27 unidades da Federação ao seu percentual de floresta nativa existente.
“Para passear” – duas pinturas a óleo sobre madeira. Trabalhos derivados da observação das áreas verdes inseridas nos espaços urbanos.
“Átrios invisíveis” – nesta mostra, serão apresentadas duas obras da série, em aquarela com incorporação das cinzas do papel e gravação a laser. A série investiga áreas verdes urbanas a partir de cidades visitadas pela artista por ocasião de suas exposições, após a pandemia.
“Há algo sólido no brilho do céu” – série de 27 trabalhos sobre papel. Perfurações a laser representam cidades, enquanto a aquarela com incorporação de cinzas se relaciona à presença de áreas verdes nas unidades da Federação. O projeto registra peças de 25 × 25 cm.
“A poética do espaço” – três pinturas a óleo sobre linho tela, de 2026. Obras de 100 × 100 cm cada, que investigam áreas verdes urbanas com uma paleta associada à água, à terra e à cidade.
“Foi casa” – instalação composta por 28 peças de madeira, relacionadas a dados sobre a perda de cobertura vegetal nas unidades da Federação e no Brasil.














