A importância de conciliar pensamento crítico e uso da tecnologia desde a infância

A importância de conciliar pensamento crítico e uso da tecnologia desde a infância

Por Emerson Francisco Santos

Uma pesquisa conduzida pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, que ouviu mais de duas mil pessoas em todo o país e integra um panorama divulgado em 2025, mostrou que 78% das crianças de zero a três anos utilizam telas diariamente, proporção que sobe para 94% entre as crianças de quatro a seis anos, com uma média de aproximadamente duas horas diárias de exposição já na faixa de zero a dois anos.

  

Diante desse cenário, a discussão sobre o uso consciente da tecnologia precisa considerar o tempo de exposição às telas e a forma como crianças e estudantes aprendem a interpretar informações, fazer escolhas e compreender o papel que os recursos digitais ocupam em suas vidas, especialmente em um contexto no qual o contato com esses dispositivos ocorre cada vez mais cedo.

  

A tecnologia pode contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico ao estimular o estudante a investigar, questionar e comparar informações, resolver problemas e produzir conhecimento a partir dos conteúdos com os quais tem contato. Esse processo favorece uma postura ativa diante dos diferentes estímulos presentes nos ambientes digitais e amplia a capacidade de avaliar aquilo que é consumido, compartilhado ou produzido.

  

Além disso, o aprendizado envolve, ainda, a compreensão sobre os motivos para utilizar determinado recurso, as informações que ele apresenta, a origem dos conteúdos, os interesses envolvidos em sua produção e as relações que podem ser estabelecidas com a realidade. Essa capacidade de análise ajuda o estudante a reconhecer situações sociais que ferem a dignidade humana e a refletir sobre as consequências de suas escolhas nos ambientes digitais e em outros espaços de convivência.

  

Desenvolvimento do pensamento crítico

Para contribuir efetivamente com o desenvolvimento do pensamento crítico, a tecnologia precisa estar vinculada a uma intencionalidade pedagógica, com propostas capazes de estimular investigação, reflexão, resolução de problemas e tomada de decisão. A incorporação de telas, aplicativos e outros recursos digitais ao ambiente escolar ganha sentido quando associada a objetivos de aprendizagem claros e a experiências que desafiem os estudantes a analisar situações concretas.

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O ambiente escolar pode criar situações em que os estudantes utilizem diferentes recursos para compreender problemas presentes em seu cotidiano e avaliar possíveis soluções. Projetos relacionados ao consumo de energia, saneamento, qualidade da água, saúde, urbanização, desigualdade e políticas habitacionais, por exemplo, permitem articular conhecimentos de diferentes áreas e refletir sobre as contribuições da ciência e da tecnologia para condições de vida mais dignas, seguras, acessíveis e sustentáveis.

  

Essa abordagem aproxima a tecnologia da realidade e favorece o desenvolvimento da capacidade de analisar informações, confrontar perspectivas, estabelecer relações entre diferentes conhecimentos e compreender as consequências sociais das decisões tomadas a partir deles.

  

Responsabilidade e fraternidade digital

A responsabilidade no uso da tecnologia precisa ser construída com orientação, diálogo, exemplo e oportunidades de escolha, incluindo a definição de acordos claros sobre quando, como e para quais finalidades os dispositivos serão utilizados. Esse processo contribui para que os estudantes compreendam que os ambientes digitais também exigem critérios, limites e responsabilidade sobre as próprias atitudes.

  

A formação, por outro lado, deve abordar continuamente temas como privacidade, proteção de dados, direitos autorais, respeito nas interações, cyberbullying, desinformação, exposição de imagens e uso ético da inteligência artificial, questões cada vez mais presentes no cotidiano e que exigem capacidade de avaliar consequências antes de produzir, compartilhar ou reagir a um conteúdo.

  

A responsabilidade digital também envolve o reconhecimento da dignidade do outro, expresso no cuidado com aquilo que é produzido e compartilhado, no respeito ao direito à imagem, na verificação de informações antes de sua divulgação e na construção de interações livres de ataques, constrangimentos, discriminação e exclusão.

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Nesse contexto, é possível falar em uma “fraternidade digital”, entendida como uma maneira de conviver nos espaços tecnológicos orientada pelo respeito, pela solidariedade, pela verdade e pela responsabilidade. O ambiente virtual é um espaço de convivência e as atitudes adotadas nele precisam expressar cuidado com o próximo e consciência sobre seus possíveis impactos.

  

Formação desde a primeira infância

A formação para o uso consciente da tecnologia pode começar antes de a criança utilizar dispositivos de forma autônoma, por meio da construção de hábitos, limites e formas adequadas de convivência com os recursos tecnológicos presentes na família e na sociedade. Esse aprendizado começa nas experiências cotidianas e acompanha o desenvolvimento da criança ao longo das diferentes etapas da infância.

  

Na educação infantil, esse trabalho pode ocorrer por meio de histórias, brincadeiras, conversas sobre imagens e regras, reconhecimento de emoções e atividades de lógica e pensamento computacional sem dispositivos. Com o avanço da idade, experiências digitais breves, acompanhadas por adultos e adequadas ao desenvolvimento podem ser incorporadas de maneira gradual, de acordo com objetivos claros e com a capacidade de compreensão de cada faixa etária.

  

A Sociedade Brasileira de Pediatria, em atualização publicada em 2026, reforça a recomendação de evitar telas antes dos dois anos e limitar a exposição a até uma hora por dia entre dois e cinco anos, orientação que reforça a importância de combinar critérios de tempo, acompanhamento e mediação por parte dos adultos.

  

A educação para o uso consciente também prepara a criança para riscos que se tornam mais complexos com a idade, como publicidade disfarçada, coleta de dados, conteúdos inadequados, desinformação, golpes, comparações sociais e contato com desconhecidos. A abordagem desses temas de forma gradual e adequada a cada faixa etária contribui para desenvolver a autonomia necessária para utilizar a tecnologia com segurança, responsabilidade e conexão com o mundo real.

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O papel da família

Neste sentido, pais e responsáveis são os primeiros mediadores da relação da criança com a tecnologia e exercem um papel fundamental ao orientar, acompanhar, estabelecer limites e oferecer exemplos coerentes, já que os hábitos observados dentro de casa influenciam diretamente a maneira como os dispositivos são incorporados ao cotidiano.

  

Como a casa é o primeiro espaço de convivência, formação e construção de hábitos, a família pode estabelecer momentos sem dispositivos, especialmente durante as refeições, as conversas, as atividades de lazer e antes de dormir, contribuindo para preservar o diálogo, o vínculo afetivo e a presença nas relações cotidianas.

  

O debate sobre tecnologia e educação exige equilíbrio, intencionalidade e acompanhamento, considerando que os recursos digitais fazem parte da vida contemporânea e que seus efeitos dependem das escolhas, das finalidades e da maneira como são incorporados à rotina e à aprendizagem. O domínio tecnológico envolve a capacidade de escolher quando, por que e como utilizar cada recurso, compreender seus impactos e preservar a autonomia para pensar, avaliar e decidir.

  

A formação de crianças e jovens para esse cenário envolve conhecimento, responsabilidade e pensamento crítico desde cedo, criando condições para que desenvolvam critérios diante das tecnologias disponíveis e das transformações que ainda surgirão. Essa preparação amplia a capacidade de avaliar impactos, realizar escolhas conscientes e utilizar o conhecimento de forma responsável nas relações com o outro e com a sociedade.

  

Emerson Francisco Santos é professor da unidade do Rio de Janeiro da Rede de Colégios Santa Marcelina, Instituição que alia tradição à uma proposta educacional sociointeracionista e alinhada às principais tendências do mercado de educação.