Pesquisa baseada em mais de 10 milhões de nascimentos utiliza técnica estatística avançada para identificar padrões de mortalidade e orientar estratégias de prevenção
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou padrões clínicos e territoriais associados à mortalidade neonatal entre bebês de muito baixo peso no estado de São Paulo. A pesquisa analisou dados populacionais de 10.265.105 nascimentos registrados entre 2004 e 2020, incluindo 137.224 recém-nascidos com peso entre 400 g e 1.499 g, grupo considerado de maior risco para complicações nas primeiras semanas de vida.
Entre esses bebês, 42.230 mortes ocorreram nos primeiros 28 dias de vida, o que corresponde a cerca de 31% dos casos analisados. Utilizando uma abordagem estatística que combina análise de classes latentes e análise espacial, os pesquisadores conseguiram identificar cinco perfis distintos de mortalidade neonatal, relacionados a problemas respiratórios, infecções, malformações congênitas, eventos ocorridos durante o parto e outras causas.
Os problemas respiratórios foram responsáveis por 46% das mortes, seguidos por infecções (28%) e malformações congênitas (9%). O estudo também identificou diferenças importantes no momento em que os óbitos ocorrem. Mortes relacionadas a complicações no parto tendem a acontecer nas primeiras horas de vida, enquanto aquelas associadas a infecções e outras causas ocorrem mais tardiamente, em média após oito dias.
A análise espacial revelou ainda concentração geográfica de determinados perfis de morte em regiões específicas do estado, indicando desigualdades na assistência ao parto e no cuidado neonatal. Enquanto óbitos precoces, associados a eventos ocorridos durante o parto, se concentram em algumas regiões, mortes tardias, frequentemente relacionadas a infecções, aparecem com maior frequência em outras áreas.
Segundo Carlos Roberto Veiga Kiffer, pesquisador da Unifesp e um dos responsáveis pelo estudo, a utilização de técnicas analíticas mais sofisticadas permite enxergar aspectos da mortalidade neonatal que não aparecem quando se analisa apenas a causa principal registrada no óbito. “Ao combinar análise estatística e análise espacial, conseguimos identificar padrões clínicos e territoriais da mortalidade neonatal que muitas vezes permanecem ocultos quando os dados são observados de forma isolada”, afirma.
Para o pesquisador, os resultados indicam que estratégias de prevenção precisam considerar os diferentes perfis de morte neonatal e as desigualdades regionais na assistência à saúde. Medidas como o fortalecimento da assistência ao parto, a qualificação do atendimento em unidades neonatais e a prevenção de infecções hospitalares podem contribuir para reduzir mortes evitáveis entre recém-nascidos de maior risco.













