Agilidade nas transferências digitais traz praticidade, mas exige que fintechs aprimorem o monitoramento de operações e a prevenção à fraude
O dinheiro mudou de ritmo. Com o Pix no Brasil, pagar uma compra, transferir valores ou dividir uma conta passou a levar segundos, a qualquer hora do dia. A popularização dos pagamentos instantâneos transformou a rotina de consumidores e empresas, mas também colocou um novo desafio para as instituições financeiras: identificar operações suspeitas antes que o dinheiro seja movimentado.
Para se ter uma ideia, em 2024, o Pix registrou 63,8 bilhões de transações no Brasil, segundo dados apresentados pela Compliasset em artigo publicado em agosto de 2025. O volume, por sua vez, evidencia a relevância desse meio de pagamento, mas também reforça a necessidade de mecanismos de segurança capazes de acompanhar a velocidade das operações.
Pagamentos instantâneos transformaram a gestão de risco
Lançado pelo Banco Central do Brasil (BC) em novembro de 2020, o Pix permite pagamentos e transferências liquidados em segundos, 24 horas por dia. A agilidade facilita a gestão do fluxo de caixa de empresas e consumidores, mas exige que fintechs e instituições de pagamento adaptem seus controles de segurança à velocidade das operações.
O principal desafio é identificar transações suspeitas antes da liquidação. Como o dinheiro pode ser transferido rapidamente, análises realizadas somente após a operação reduzem as possibilidades de bloqueio e recuperação dos recursos.
Por isso, o monitoramento em tempo real combina análise do histórico do cliente, frequência e valor das transferências e identificação de comportamentos atípicos. Dependendo do risco identificado, a instituição pode solicitar autenticação adicional ou bloquear preventivamente uma operação.
A gestão de risco também abrange falhas operacionais, indisponibilidade de sistemas, liquidez para cumprir obrigações de pagamento e conformidade com as normas do Banco Central. Para controlar essas exposições, as fintechs precisam definir limites operacionais, acompanhar indicadores de perdas, testar mecanismos de segurança e estabelecer procedimentos de resposta a incidentes.
A estratégia deve considerar o perfil dos clientes e o volume transacionado, equilibrando prevenção a fraudes, continuidade do negócio e experiência do usuário.
Como o monitoramento em tempo real ajuda a identificar fraudes?
Devido à rapidez dos pagamentos instantâneos, o acompanhamento das transações em tempo real permite analisar sinais que, isoladamente, poderiam parecer comuns, mas que, em conjunto, indicam comportamentos atípicos. Entre os aspectos observados estão a frequência e o valor das operações, mudanças no padrão de uso da conta e movimentações incompatíveis com o histórico do cliente.
A análise de dados, nesse processo, é central e ajuda a identificar essas diferenças e a direcionar verificações adicionais quando necessário. Uma solução de prevenção à fraude, por exemplo, é uma ferramenta tecnológica que analisa transações e dados de clientes para identificar operações suspeitas e reduzir o risco de golpes e perdas financeiras.
Ela pode reunir informações de diferentes fontes, automatizar etapas de análise e apoiar decisões com base em critérios previamente definidos.
Além das soluções de prevenção à fraude, as instituições financeiras podem recorrer a tecnologias complementares, como inteligência artificial e machine learning, que identificam padrões atípicos nas transações; fingerprinting de dispositivos, que ajuda a reconhecer aparelhos associados a atividades suspeitas; e análise de vínculos, que mapeia conexões entre contas, chaves Pix e destinatários para detectar redes usadas em golpes.
Já a biometria comportamental analisa padrões de digitação e navegação para identificar possíveis acessos indevidos, enquanto a autenticação adaptativa solicita verificações adicionais quando uma operação apresenta sinais de risco. Integradas ao monitoramento transacional, essas ferramentas ajudam a aprimorar a identificação de fraudes sem submeter todos os clientes às mesmas etapas de verificação.
A tecnologia, porém, não elimina todos os riscos: sua eficácia depende da qualidade dos dados, da revisão das regras e da capacidade de adaptação a novas estratégias criminosas.
Segundo o Banco Central, as perdas relacionadas a fraudes no Pix somaram R$ 4,9 bilhões em 2024, alta de 70% em relação ao ano anterior. No mesmo período, mais de 3,4 milhões de solicitações de devolução foram rejeitadas. Por isso, as fintechs, que operam serviços financeiros digitais e processam um volume crescente de transações, precisam atualizar continuamente seus mecanismos de detecção.
A recuperação dos valores também representa um desafio para o sistema financeiro: de acordo com dados citados pelo Tribunal de Contas da União, apenas 13% das solicitações de devolução registradas pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix em 2024 e 2025 resultaram na recuperação efetiva dos recursos.
Os métodos utilizados por criminosos mudam, e padrões antes considerados confiáveis podem deixar de sinalizar operações suspeitas. Sem uma revisão contínua, operações fraudulentas podem passar despercebidas ou transações legítimas podem ser bloqueadas indevidamente.
Equilíbrio entre segurança e experiência do usuário
O fortalecimento dos controles, no entanto, também deve caminhar junto com uma experiência simples para quem realiza pagamentos legítimos. Isso porque bloqueios excessivos, solicitações repetidas de confirmação e demora na liberação de operações podem prejudicar a confiança do cliente. Assim, a gestão de risco precisa equilibrar a identificação de ameaças com a redução de obstáculos desnecessários.
Para as fintechs, o desafio é manter os controles antifraude atualizados à medida que aumentam o volume de transações e surgem novas estratégias de golpe. Assim, o monitoramento contínuo, a análise de dados e protocolos claros para lidar com operações suspeitas ajudam a reduzir perdas financeiras e proteger os clientes.













