Outubro Rosa: reduzir o consumo de álcool também é uma forma de prevenir o câncer de mama

No mês de conscientização global, a SBOC chama atenção para um fator de risco modificável ainda pouco conhecido; vinho, cerveja, drinques e destilados estão associados ao aumento da incidência

O Outubro Rosa tradicionalmente chama a atenção das mulheres para a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama. Neste ano, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) propõe ampliar essa conversa e colocar em pauta um fator de risco que ainda é pouco associado à doença pela população: o consumo de bebidas alcoólicas.

  

A mensagem é particularmente relevante diante da dimensão do câncer de mama no país. O Brasil deverá registrar 78.610 novos casos por ano entre 2026 e 2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Excluídos os tumores de pele não melanoma, a doença responde por cerca de 30% dos novos casos de câncer entre as mulheres brasileiras.

  

“Outubro é o momento em que conseguimos ampliar muito a conversa sobre câncer de mama. Além de reforçar a importância do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento, precisamos aproveitar essa mobilização para falar sobre prevenção e sobre escolhas que podem contribuir para reduzir o risco da doença. O álcool é uma delas”, afirma a Dra. Clarissa Baldotto, presidente da SBOC.

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A associação entre álcool e câncer não é nova, mas vem ganhando atenção crescente das principais organizações internacionais de saúde. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classifica as bebidas alcoólicas como carcinogênicas para humanos (Grupo 1). Entre os tumores relacionados ao consumo está o câncer de mama feminino.

  

E não se trata de uma bebida específica. Vinho, cerveja, espumante, drinques e destilados entram nessa conta. Do ponto de vista do risco oncológico, o elemento central é o etanol presente nas bebidas alcoólicas e o acetaldeído produzido durante sua metabolização.

  

Estudos recentes reforçam que a relação é de dose-resposta: à medida que aumenta a exposição ao álcool, aumenta também o risco de câncer de mama. Uma revisão sistemática e meta-análise de estudos prospectivos encontrou aumento do risco mesmo com consumo inferior a uma dose padrão por dia. Outra meta-análise publicada em 2026, reunindo 37 estudos e mais de 2,5 milhões de mulheres, também encontrou associação entre consumo de álcool e maior incidência da doença.

  

“É importante traduzir esses dados corretamente. Isso não significa que uma mulher que consome álcool desenvolverá câncer de mama. O câncer é uma doença multifatorial. Significa que o álcool é um fator de risco modificável e que reduzir o consumo diminui a exposição a esse fator. Essa é uma informação que as mulheres têm o direito de conhecer”, explica a Dra. Daniele Assad, diretora da SBOC.

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O álcool pode contribuir para o desenvolvimento do câncer por diferentes mecanismos. Sua metabolização produz acetaldeído, substância capaz de danificar o DNA e interferir em seus mecanismos de reparo. O consumo também pode alterar níveis hormonais, incluindo o estrogênio, relevante para determinados tipos de câncer de mama.

  

Para a SBOC, a recomendação não deve ser transmitida de maneira alarmista ou culpabilizadora. Prevenção não significa atribuir responsabilidade à mulher que desenvolve câncer. Idade, predisposição genética, fatores hormonais, ambientais e comportamentais podem participar do desenvolvimento da doença, e muitas mulheres diagnosticadas não apresentam fatores de risco evitáveis evidentes.
O objetivo é outro: aumentar o conhecimento sobre aquilo que pode ser modificado.

  

“Quando falamos em prevenção, algumas mulheres podem pensar que precisam tomar uma decisão radical, como nunca mais consumir uma bebida alcoólica. A mensagem de saúde pública precisa ser compreensível e possível: quanto menos álcool, menor a exposição ao risco. Reduzir a quantidade e a frequência já é uma decisão importante”, acrescenta Daniele Assad.

  

A discussão também ajuda a rever uma percepção cultural particularmente presente em relação ao vinho. Embora diferentes estudos tenham discutido possíveis efeitos cardiovasculares de componentes da bebida, isso não transforma o vinho em uma bebida sem risco do ponto de vista do câncer. Para a prevenção oncológica, o etanol continua presente, independentemente de estar em uma taça de vinho, em uma cerveja ou em um destilado.

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Quatro décadas depois do início das campanhas que deram origem ao Outubro Rosa, a mobilização conquistou enorme capacidade de falar diretamente com as mulheres. O desafio agora é usar essa força também para atualizar a conversa sobre prevenção.

  

Mamografia e diagnóstico precoce continuam fundamentais, assim como o acesso ao tratamento. Mas o Outubro Rosa pode ir além: pode ajudar cada mulher a conhecer melhor os fatores relacionados ao risco da doença e decidir, a partir de informação científica, quais mudanças deseja incorporar à própria vida. Quando se trata de prevenção do câncer de mama, reduzir o consumo de álcool também conta.

  

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