A perda involuntária de urina, a dor durante as relações sexuais e a sensação de peso na região íntima podem se tornar mais frequentes com a chegada da menopausa. Embora as ondas de calor e o ressecamento vaginal sejam os sintomas mais conhecidos dessa fase, as alterações hormonais também afetam a saúde pélvica, podendo interferir no funcionamento da bexiga, na sustentação dos órgãos e na vida sexual. O problema é que muitas mulheres convivem com esses desconfortos sem procurar tratamento, por acreditarem que são consequências naturais do envelhecimento.
A questão ganha relevância diante do número de brasileiras que atravessam essa etapa. Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citadas pelo Ministério da Saúde, cerca de 37 milhões de mulheres no país têm entre 40 e 65 anos. Dados da Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) apontam que o Brasil possui cerca de 9,2 milhões de mulheres na menopausa (faixa de 50 a 65 anos) e 17 milhões no climatério (fase de transição a partir dos 40 anos), totalizando aproximadamente 27 milhões de mulheres que vivem esse período.
A redução dos níveis de estrogênio, característica da menopausa, provoca mudanças na elasticidade, na lubrificação e na vascularização dos tecidos da região íntima. Essas alterações podem contribuir para o surgimento de desconfortos e agravar problemas já existentes no assoalho pélvico, conjunto de músculos e tecidos responsáveis por sustentar a bexiga, o útero e o reto, além de participar do controle urinário e da função sexual.
“A musculatura íntima perde elasticidade e capacidade de resposta funcional ao longo do tempo, especialmente quando nunca recebeu cuidado específico. Isso pode gerar dor, insegurança e perda de qualidade de vida, mas é possível intervir”, explica Marielle Yali, fisioterapeuta da Clínica Videlis, em Ribeirão Preto (SP), especialista em menopausa e climatério.
Segundo ela, uma das principais dificuldades é fazer com que as mulheres reconheçam esses sintomas como problemas de saúde que merecem investigação. “Existe uma normalização do sofrimento feminino nessa fase. A mulher sente dor, perde o prazer, passa a evitar relações e aceita isso como destino, quando, na verdade, há tratamento eficaz”, afirma.
Tratamento vai além da reposição hormonal
Embora a redução hormonal tenha papel importante nas mudanças que ocorrem durante a menopausa, nem todos os sintomas íntimos podem ser atribuídos exclusivamente a ela. Alterações musculares, dificuldades de coordenação do assoalho pélvico e outros fatores físicos e emocionais também podem contribuir para os desconfortos.
A fisioterapia na saúde da mulher é uma das possibilidades de tratamento, especialmente nos casos de incontinência urinária, dor e disfunções musculares. A partir de uma avaliação individualizada, são identificadas alterações de força, elasticidade e coordenação, que orientam a escolha das técnicas utilizadas.
O acompanhamento pode incluir exercícios específicos, alongamentos, técnicas de relaxamento e estratégias para melhorar a resposta muscular. A indicação depende das características de cada paciente e pode ocorrer em conjunto com o tratamento ginecológico, incluindo terapias hormonais quando recomendadas pelo médico.
O objetivo é recuperar funções comprometidas e permitir que atividades cotidianas, exercícios físicos e relações sexuais deixem de ser limitados pelo desconforto.
Alimentação também entra na avaliação
Além das mudanças hormonais e musculares, condições metabólicas e nutricionais podem influenciar a saúde da mulher durante o climatério e menopausa.
A nutricionista Susana Merino explica que alterações como resistência à insulina, processos inflamatórios e deficiências nutricionais precisam ser consideradas no acompanhamento, especialmente quando existem queixas persistentes.
“A alimentação influencia a saúde dos tecidos, a resposta inflamatória e até a percepção da dor. Cuidar do corpo de dentro para fora faz parte do tratamento”, afirma a profissional da Clínica Videlis.
Por isso, o atendimento pode envolver diferentes especialidades, incluindo fisioterapia, ginecologia, nutrição e psicologia, conforme as necessidades identificadas. A proposta é avaliar o conjunto de fatores que interferem na qualidade de vida, em vez de tratar isoladamente cada sintoma.
Para Marielle Yali, a informação é fundamental para combater a ideia de que desconfortos íntimos precisam ser aceitos como parte do envelhecimento.
“A menopausa não representa o fim da sexualidade nem da vitalidade feminina. Ela escancara regiões do corpo que foram negligenciadas por anos. Quando a pelve é cuidada, a mulher redescobre conforto, prazer e segurança”, afirma a fisioterapeuta.
A especialista destaca que escapes urinários recorrentes, dor durante as relações e outros desconfortos persistentes devem motivar uma avaliação profissional, independentemente da idade. “A menopausa não tira a função do corpo. Ela revela onde o cuidado precisa começar”, conclui.













