Com “Habite-me”, artista integra o Ano Cultural Brasil–China; programação reúne festivais, oficinas e masterclasses em Pequim e Xangai
São Paulo (SP), 6 de outubro de 2026 – O espetáculo “Habite-me”, criado e interpretado pela atriz-marionetista Carolina Garcia Marques, chega à China como parte da programação do Ano Cultural Brasil–China. A artista representa o teatro de animação brasileiro em uma agenda de apresentações, oficinas e intercâmbios. A circulação conta com apoio da Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura, por meio do programa Brasil Conexões Internacionais.
De 6 a 12 de outubro, Carolina participa do Beijing International Puppet Festival, em Pequim, com o solo e uma oficina. Na sequência, de 14 a 17 de outubro, integra o China Shanghai International Arts Festival (CSIAF), em Xangai. A programação inclui ainda masterclasses de Contemporary Puppetry com Tito Lorefice, na Central Academy of Drama, em Pequim: no dia 27, para estudantes do terceiro ano, e no dia 28, para turmas do primeiro ano.
“Levar ‘Habite-me’ para a China é também perceber como essa pesquisa se transforma no encontro com outras pessoas e outros contextos. Representar o Brasil neste momento de aproximação entre os dois países tem um significado especial e desperta uma vontade de aprender. Espero que a gente possa compartilhar o que faz, conhecer o que os artistas de lá estão criando e ampliar essas relações. Uma experiência continua na outra, e esses encontros passam a fazer parte do trabalho”, afirma Carolina Garcia Marques.
Entre os dias 7 e 18 de novembro, o espetáculo Habite-me integra a programação do Daliangshan International Theater Festival, em Xichang, cidade situada no sul da província de Sichuan, na China, e sede da Prefeitura Autônoma Yi de Liangshan. As apresentações serão realizadas no Teatro nº 19 (NO.19 Theater), no dia 8 de novembro, às 14h30 e às 19h30.
A viagem acontece após uma sequência de apresentações e atividades pedagógicas. Em setembro, Carolina esteve no FITAZ, em La Paz, na Bolívia, onde apresentou “Habite-me” e ministrou a oficina “Cuerpo y títere: escucha, movimiento y presencia”. Depois, circulou por Maringá, Bela Vista do Paraíso e Londrina, no Paraná, com o espetáculo e oficinas de princípios básicos para o teatro de formas animadas. Nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, o solo integrou o Animaforma, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo.
Um corpo que se transforma em cena
Em “Habite-me”, Carolina se desdobra em sete personagens por meio de máscaras, bonecos e dança. O espetáculo explora diferentes maneiras de ocupar o próprio corpo e de se relacionar com o mundo. Na linguagem do teatro de formas animadas, bonecos, máscaras e objetos ganham vida pela atuação; nesta montagem, o corpo da intérprete também se torna espaço onde a narrativa acontece. “Habitar, para mim, começa na forma como eu ocupo este corpo e me relaciono com aquilo que está ao meu redor. Depois vêm a roupa, o outro, o contexto social, o planeta e o universo. O espetáculo percorre essas diferentes camadas de fazer parte”, explica Carolina.
Com direção e dramaturgia de Paulo Balardim, bonecos e máscaras da canadense Emilie Racine e trilha sonora original do compositor belga Tuur Florizoone, a montagem constrói imagens sobre amor, memória, envelhecimento, vida e morte. A cenografia é de Elcio Rossini, os figurinos são de Cris Lisot e a produção executiva é da Líria Cultural.
A criação começou em 2017, durante uma residência de pesquisa em Montreal, realizada por meio de uma parceria entre o Festival Casteliers, o Conselho das Artes de Montreal, o bairro de Outremont e o Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo. O processo prosseguiu no Brasil e reuniu profissionais de diferentes países.
Estreado em 2019, “Habite-me” recebeu, em 2021, o Prêmio APTR de melhor espetáculo em formato virtual. Em 2023, integrou a mostra oficial do Festival Mundial de Teatros de Marionetes de Charleville-Mézières, na França.
Da bicicleta aos palcos internacionais
A trajetória que agora leva Carolina à China começou na periferia de Porto Alegre. Aos 13 anos, ela assistiu a uma peça de teatro pela primeira vez, por meio da escola pública onde estudava. Naquele período, não tinha acesso regular à arte nem recursos para se deslocar em busca de formação. Um ano depois, uma bicicleta recebida de presente ampliou suas possibilidades de circular pela cidade.
Com ela, passou a chegar a projetos culturais, oficinas e grupos de teatro. “Eu fui buscando referências, oficinas e espaços. Com a bicicleta, conseguia chegar a lugares que antes estavam fora do meu alcance”, conta.
A primeira aproximação com a criação cênica aconteceu quando uma professora propôs à turma a montagem de uma peça. Carolina assumiu parte da organização e encontrou no processo atividades que continuariam presentes em sua carreira.
“A gente teve que construir o cenário, pensar no texto e organizar o que cada um faria. Eu já gostava dessa dimensão coletiva e percebi que o teatro reunia muitos elementos que me interessavam”, recorda.
Aos 15 anos, ganhou dos familiares um curso de teatro. Ao término das aulas, perguntou à professora como poderia continuar estudando sem pagar. A resposta a levou ao grupo porto-alegrense Ói Nóis Aqui Traveiz, que oferecia oficinas gratuitas. Carolina passou a frequentar o espaço, acompanhar ensaios e colaborar com as atividades do coletivo.
Sua trajetória profissional começou em 1994. Desde os primeiros anos, conciliou atuação, produção e formação. Trabalhou em espetáculos apresentados em escolas, integrou a primeira formação do grupo Povo da Rua e atuou na produção de festivais, entre eles o Porto Alegre em Cena.
Em uma das primeiras experiências independentes, ela e um colega percorriam escolas de ônibus para oferecer espetáculos. Levavam apresentações impressas, negociavam as sessões, vendiam ingressos antecipadamente e preparavam materiais pedagógicos para acompanhar as montagens. “A produção foi uma forma de sobreviver dentro do teatro, e não fora dele. A economia da cultura exige que a gente compreenda várias dimensões do trabalho. Eu posso atuar, dar aula, cuidar de um espaço, ajudar na montagem e entender o que as outras pessoas da equipe estão fazendo”, afirma.
A experiência prática foi acompanhada pela formação acadêmica. Carolina é licenciada em Artes Cênicas e especialista em Economia da Cultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Também é formada pelo Método Feldenkrais, abordagem de educação somática voltada à percepção do corpo e do movimento.
O encontro com os bonecos
O teatro de bonecos ganhou centralidade em sua trajetória a partir de um encontro com o diretor e pesquisador Paulo Balardim. Durante o lançamento de um livro sobre teatro de bonecos, foi organizada uma atividade de improvisação com formas animadas. Carolina colocou um boneco na mão pela primeira vez, participou da proposta e venceu o concurso realizado durante o encontro. Depois, recebeu o convite para um curso de seis meses. “Quando comecei aquela formação, pensei: era isso que estava faltando”, lembra.
A partir dali, iniciou uma investigação continuada sobre animação, movimento e matéria. Integrou a Caixa do Elefante Teatro de Bonecos e participou da criação de “A Tecelã”, espetáculo inspirado na obra de Marina Colasanti. Após dois anos de pesquisa, a montagem circulou por seis anos e chegou a festivais como os de Edimburgo, na Escócia, e Avignon, na França. Pelo trabalho, Carolina recebeu o Prêmio Braskem de melhor atriz no Porto Alegre em Cena, em 2011.
A pesquisa corporal ganhou novos caminhos com sua formação em educação somática. “O método apareceu quando eu buscava compreender melhor a relação do corpo com a matéria. No trabalho com bonecos, lidamos o tempo todo com gravidade, peso, calor, equilíbrio e movimento. A educação somática trouxe mais percepção, menos esforço e outra qualidade de presença para essa pesquisa”, explica.
Desde 2020, desenvolve “Corpo Percurso”, investigação que aproxima o teatro de luvas do corpo humano como espaço de representação. Nessa proposta, o intérprete atua simultaneamente como manipulador, personagem e território onde as cenas acontecem.
Carolina também é cofundadora do Espaço de Residência Artística Vale Arvoredo, no Rio Grande do Sul, e atua na curadoria cultural da Fazenda Tulha, entre Minas Gerais e São Paulo. Nessas atividades, articula criação, formação e relações com o território.
“Tenho dificuldade de me definir porque sinto que estou sempre em processo. Uma experiência continua na outra. O que espero é poder contribuir, dentro do meu tamanho, para ampliar nossa relação com o ambiente e com as pessoas, trazendo mais arte e mais camadas de conexão”, afirma.
SERVIÇO
AGENDA DA ARTISTA CAROLIN GARCIA MARQUEZ NA CHINA | OUTUBRO DE 2026
6 a 12 de outubro | Pequim: Beijing International Puppet Festival, com “Habite-me” e oficina.
14 a 18 de outubro | Xangai: participação no China Shanghai International Arts Festival (CSIAF).
27 de outubro | Pequim: masterclass de Contemporary Puppetry com Tito Lorefice, para estudantes do terceiro ano da Central Academy of Drama.
28 de outubro | Pequim: masterclass de Contemporary Puppetry com Tito Lorefice, para estudantes do primeiro ano da Central Academy of Drama.
7 a 18/11 | Xichang, China: Daliangshan International Theater Festival
Local das apresentações: Teatro nº 19 (NO.19 Theater)
Apresentações de Habite-me: 08/11, às 14h30 e às 19h30













