Jurema Cléa Figueirôa, a “Jureminha”, competiu em atletismo, basquete e vôlei, foi recordista brasileira no dardo e campeã nacional de basquete
Aos 13 anos, Jurema Cléa Figueirôa começou a jogar basquete. Pouco depois vieram o voleibol e o atletismo. Ao longo dos anos seguintes, a santista acumulou títulos, representou Santos, o estado de São Paulo e o Brasil, estabeleceu uma marca registrada como recorde brasileiro no arremesso de dardo e se tornou presença frequente nas páginas esportivas. Em uma época marcada por fortes restrições à participação das mulheres no esporte, “Jureminha”, como era chamada pelos jornais, chegou a ser apresentada pela imprensa como “a maior atleta dos Jogos Abertos do Interior”.
Apesar da projeção que alcançou entre as décadas de 1940 e 1950, sua trajetória tornou-se pouco conhecida posteriormente. É esse contraste entre reconhecimento público e apagamento da memória que orienta uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Baixada Santista.
Intitulado Entre silêncios e conquistas: a trajetória esportiva de Jurema Cléa Figueirôa (1940–1959), o estudo foi realizado pela estudante de Educação Física Isabele Bonfim Pereira, sob orientação do professor André Dalben, no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica, PIBIC/CNPq. O trabalho está vinculado ao Instituto Saúde e Sociedade e ao Departamento de Ciências do Movimento Humano da Unifesp.
A investigação utilizou a Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional, e localizou 343 ocorrências relacionadas a Jurema em 27 jornais e revistas nacionais e regionais. Os registros foram organizados cronologicamente e analisados considerando tanto a trajetória esportiva quanto as formas pelas quais a atleta era representada pela imprensa. Embora a maior parte das referências tenha sido encontrada em periódicos paulistas, 44 ocorrências vieram de publicações do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco.
A capacidade de atuar simultaneamente em diferentes modalidades é um dos aspectos que mais chamam a atenção nos documentos. Aos 15 anos, Jurema já figurava entre as melhores atletas paulistas no salto em distância. Aos 17, em 1944, venceu provas de salto em distância, salto em altura e arremesso de dardo em competição colegial e ficou em segundo lugar no lançamento de disco. No mesmo ano, conquistou o Campeonato Paulista no arremesso de dardo e registrou uma marca então considerada recorde brasileiro. A imprensa da época chegou a descrevê-la como a melhor arremessadora de dardo do país.
Sua atuação no atletismo não se restringia ao dardo. Jurema também competia em corridas de velocidade e revezamento, salto em altura, salto em distância e lançamento de disco. Em 1945, após disputar as principais etapas estaduais e nacionais da modalidade, foi convocada para os treinamentos preparatórios da seleção brasileira para o Campeonato Sul-Americano, em Montevidéu. A documentação localizada indica que ela teria sido chamada para representar o país na competição.
No basquete, integrou seleções brasileiras em diferentes momentos e participou de treinamentos para competições internacionais. Em 1951, representando São Paulo, conquistou o Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, foi convocada pela Confederação Brasileira de Basketball para integrar a seleção brasileira no IV Campeonato Sul-Americano Feminino.
Também construiu uma trajetória expressiva no voleibol. Foi campeã estadual pelo Boqueirão Praia Clube, representou diferentes equipes da cidade e, em 1953, aos 26 anos, foi convocada para a seleção paulista da modalidade. Durante a carreira, passou por instituições como Escolástica Rosa, Boqueirão Praia Clube, Santos Futebol Clube, Brasil Futebol Clube, Clube Náutico e Saldanha da Gama.
Os Jogos Abertos do Interior ajudam a dimensionar o lugar que Jurema ocupou no esporte daquele período. Até 1949, havia vencido seis das nove edições que disputara no basquete, seis das nove no voleibol e seis das oito no atletismo. Em 1947, recebeu três medalhas de ouro referentes à edição anterior dos Jogos, uma em cada modalidade. Pouco depois, venceu um concurso promovido pelo jornal O Diário na categoria “atleta espetáculo dos jogos abertos” e ficou em segundo lugar na categoria “atleta mais querido e completo”, disputada por homens e mulheres.
“Jurema não era uma personagem desconhecida em seu tempo. Pelo contrário: aparecia com frequência nos jornais, acumulava títulos e era tratada como uma referência do esporte feminino santista. O que nos interessa compreender é por que trajetórias como a dela acabaram ocupando um espaço muito menor na memória esportiva construída posteriormente”, afirma André Dalben.
Para Isabele Bonfim Pereira, uma das principais descobertas da pesquisa foi justamente a dimensão que a trajetória de Jurema adquiriu à medida que novos documentos eram encontrados. “Ao longo da pesquisa, fui percebendo o quanto Jurema foi uma atleta importante e reconhecida em sua época. Recuperar sua trajetória também é uma forma de valorizar as mulheres que fizeram parte da história do esporte santista e contribuir para que essas histórias possam inspirar outras meninas e mulheres no esporte”, destaca.
A carreira de Jurema se desenvolveu em um período no qual a presença feminina no esporte ainda era cercada por restrições institucionais e discursos que associavam força, competitividade, potência e vigor físico ao universo masculino. As mulheres eram frequentemente vinculadas a ideais de fragilidade, beleza, maternidade e vida doméstica. Determinadas práticas esportivas chegaram a ser consideradas incompatíveis com a chamada “natureza feminina”.
Mulheres também construíram a memória do esporte feminino
A pesquisa identificou ainda um elemento menos conhecido da história da imprensa esportiva: parte significativa da memória de Jurema chegou até o presente por meio do trabalho de mulheres que escreviam sobre esporte.
Entre elas está Lídia Federici, ex-atleta e cronista que dedicou entrevistas, colunas e reportagens a Jurema e a outras esportistas. O relatório mostra que Federici adotava uma escrita próxima das atletas, com linguagem pessoal e fortemente marcada por avaliações e adjetivações. A presença dessas cronistas ajuda a compreender que as mulheres não estavam apenas participando das competições, mas também produzindo registros públicos sobre o esporte praticado por outras mulheres.
“Quando olhamos apenas para os nomes que permaneceram consagrados, podemos ter a impressão de que as mulheres estavam ausentes de determinados espaços. A documentação mostra outra coisa. Elas competiam, venciam, eram notícia e também ajudavam a construir o esporte da cidade”, declara Dalben.













