Em 22 de setembro, o Dia do Contador chama atenção para uma profissão que ocupa um espaço cada vez mais estratégico na rotina das empresas. Em um cenário de juros ainda elevados, com a Selic em 14% ao ano após a decisão do Copom de agosto, conhecer a própria realidade financeira pode ser determinante para manter um negócio saudável. Mais do que registrar movimentações e cumprir obrigações fiscais, a contabilidade ajuda o empresário a identificar riscos, compreender resultados e tomar decisões com mais segurança.
De acordo com Jean Seidler, coordenador do curso de Ciências Contábeis da Estácio e Mestre em Ciências Contábeis, os problemas financeiros raramente surgem de forma repentina. Antes de o caixa faltar, sinais como redução da margem, atraso nos pagamentos dos clientes, menor giro dos estoques e aumento do peso das dívidas já podem indicar que a empresa precisa rever sua rota. “Não se trata apenas de cumprir obrigações fiscais. Trata-se de saber quanto a empresa realmente ganha, quanto precisa financiar, onde perde rentabilidade e por quanto tempo consegue honrar seus compromissos”, explica.
Dados recentes reforçam que a sobrevivência empresarial está diretamente relacionada à qualidade da gestão. Estudo divulgado pelo Sebrae em 2025, em parceria com o Banco do Nordeste, mostrou que empresas que combinaram acesso a crédito com orientação financeira e de gestão reduziram em cerca de 50% o risco de encerramento, alcançando uma taxa de sobrevivência de 89,5% em seis anos. Na mesma direção, levantamento do Sebrae/SC, com base em pequenos negócios entre 2020 e 2024, aponta que quase quatro em cada dez empresas analisadas não conseguem superar os primeiros anos de atividade, associando esse resultado, entre outros fatores, à falta de planejamento e à fragilidade na gestão financeira.
Para Seidler, o debate se torna ainda mais relevante diante do cenário empresarial brasileiro em 2026, marcado pelo elevado número de empresas em recuperação judicial e pelo avanço da inadimplência. O país encerrou o primeiro semestre com mais de 6,3 mil empresas em recuperação judicial, em um ambiente de juros elevados, crédito restrito e maior pressão sobre o caixa. Nesse contexto, a contabilidade permite que o empresário acompanhe caixa, margens, custos e endividamento, identifique sinais de deterioração financeira e avalie as medidas necessárias para preservar a saúde do negócio.
Nesse processo, um dos principais cuidados é não confundir faturamento, lucro e caixa. Uma empresa pode apresentar lucro e, ainda assim, não ter dinheiro disponível para pagar a folha ou outros compromissos, especialmente quando vende a prazo, recebe com atraso, mantém estoques elevados ou investe acima de sua capacidade de financiamento. Por isso, informações como fluxo de caixa, contas a receber, endividamento, estoque e margem precisam ser analisadas em conjunto.
O crescimento também exige planejamento. Aumentar as vendas pode significar mais necessidade de estoque, antecipação de custos e prazos maiores oferecidos aos clientes. Além disso, formar preços apenas com base na concorrência pode deixar de fora tributos, comissões, logística, perdas e despesas estruturais, fazendo com que a empresa venda mais sem necessariamente aumentar sua rentabilidade.
A atenção se estende ainda à reforma tributária, que já exige adequações em documentos fiscais, sistemas e processos. Paralelamente, a tecnologia e a inteligência artificial vêm automatizando tarefas repetitivas da área contábil, ampliando a importância de competências como análise de dados, interpretação das informações e avaliação de riscos.
“Quanto menor essa distância entre o que o empresário acredita que está acontecendo e o que os números demonstram, maior a chance de corrigir a rota antes que a dificuldade se transforme em crise”, resume Seidler.








