O avanço das apostas esportivas on-line no Brasil deixou de ser apenas um tema econômico para se tornar também uma preocupação de saúde pública. Neste ano, o Ministério da Saúde lançou um guia nacional voltado ao atendimento de pessoas com problemas relacionados aos jogos de apostas e vem ampliando as ações de prevenção e acolhimento no Sistema Único de Saúde (SUS). A preocupação acompanha o crescimento do setor, que movimenta até R$ 30 bilhões por mês no país, segundo estimativas do Banco Central, e os reflexos cada vez mais evidentes na saúde mental da população.
Para a psicóloga Simone Chandler Frichembruder, docente do curso de Psicologia da Estácio, o fenômeno vai muito além de uma simples escolha individual. Ela explica que a popularização das bets está relacionada a um contexto social marcado pelo endividamento, pela promessa de ganhos rápidos e pela forte presença da publicidade, especialmente nas redes sociais e no esporte. “O crescimento das bets não pode ser reduzido a uma falha individual. Elas oferecem esperança embalada como produto e a fantasia de uma solução imediata para dificuldades financeiras e frustrações, o que torna muitas pessoas mais vulneráveis a esse ciclo”, afirma.
Ao tentar recuperar o dinheiro perdido em novas apostas, o usuário pode entrar em um processo de repetição que favorece o desenvolvimento da dependência. Com isso, tornam-se frequentes sintomas como ansiedade, depressão, compulsão, isolamento social e agravamento das dificuldades financeiras. Muitas pessoas passam a recorrer a empréstimos, acumulam dívidas e se afastam de familiares e amigos por vergonha da situação.
Embora as apostas possam começar como uma forma de entretenimento, Simone ressalta que a transição para um comportamento compulsivo costuma acontecer de maneira gradual e, muitas vezes, imperceptível. Isso ocorre porque as plataformas utilizam mecanismos semelhantes aos das redes sociais, com algoritmos capazes de identificar o perfil do usuário e estimular sua permanência por meio de bônus, recompensas e notificações frequentes.
Os primeiros sinais também costumam aparecer de forma discreta. Mudanças bruscas de comportamento, irritabilidade, alterações no sono, pedidos frequentes de dinheiro, mentiras para esconder as perdas e o afastamento de atividades sociais podem indicar que a relação com as apostas deixou de ser saudável.
Embora pesquisas apontem maior participação de homens entre 16 e 39 anos nas plataformas de apostas, a psicóloga destaca que o problema não se limita a esse grupo. Pessoas com dificuldades financeiras ou sofrimento emocional podem estar mais suscetíveis, mas a dependência pode atingir indivíduos de diferentes idades e classes sociais.
Além do sofrimento de quem aposta, as consequências costumam atingir toda a família. O comprometimento da renda, o endividamento, os conflitos familiares e a perda de vínculos tornam o problema coletivo, reforçando a necessidade de identificação precoce e acolhimento.
“Não basta responsabilizar apenas quem aposta. É preciso compreender que existe um ambiente que favorece esse comportamento, com publicidade constante e mecanismos pensados para manter o usuário conectado. Informar a população e divulgar recursos como a autoexclusão são medidas fundamentais para reduzir os danos”, destaca Simone.












