Publicada na revista Global Food Security, pesquisa mostra que eventos extremos disparam a volatilidade de preços e a inflação alimentar, penalizando famílias de baixa renda e periferias
O impacto das mudanças climáticas na segurança alimentar do Brasil opera de maneira muito mais complexa e perversa do que a simples escassez física de comida nos supermercados e feiras. É o que revela um estudo (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2211912426000349?via%3Dihub), recém-publicado na revista científica Global Food Security.
A pesquisa demonstra que o aquecimento global atua como um potente amplificador das desigualdades sociais e estruturais do país. Em vez de provocar apenas desabastecimento generalizado, os eventos climáticos extremos (como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor) desorganizam as cadeias de transporte, distribuição e logística, desencadeando disparadas nos preços e volatilidade no mercado.
Embora a crise seja nacional, o estudo assinado pela professora Ana Rojas Acosta, do Centro de Desenvolvimento do Ensino Superior em Saúde (Cedess) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com Sonia Tello Rozas, da Université du Québec à Montréal (UQAM), detalha como os eventos climáticos extremos atingem o país de formas distintas dependendo do território.
Enquanto no Nordeste (89%) e no Centro-Oeste (65%) as secas prolongadas são apontadas pelos especialistas como a principal ameaça às safras e ao abastecimento, no Sudeste (62%) a maior preocupação concentra-se nas inundações e enchentes, que destroem infraestruturas de transporte e causam perdas imediatas na distribuição de alimentos. O resultado desse arranjo é o comprometimento direto do acesso econômico ao alimento: a comida continua existindo, mas torna-se inacessível para quem tem menor poder de compra.
Com base em uma metodologia mista que consultou quase uma centena de especialistas e gestores(as) públicos(as) de sistemas alimentares em todas as regiões do Brasil, o levantamento aponta que entre 78% e 86% dos(as) analistas identificam o encarecimento dos alimentos e a perda de renda como os principais canais de transmissão da crise climática para a mesa da população.
O estudo enfatiza o conceito de “injustiça climática”: populações de baixa renda, agricultores(as) familiares, comunidades rurais e moradores(as) de periferias urbanas são os grupos mais penalizados pela degradação do clima, embora sejam historicamente os que menos contribuem para a emissão de gases de efeito estufa. Para cerca de 97% dos(as) profissionais ouvidos(as), a garantia da justiça social é uma condição indispensável para assegurar o direito à alimentação diante da emergência ambiental.
“A fome induzida pelo clima no Brasil não é um problema estritamente técnico ou de produtividade agrícola; é um problema econômico, político e de direitos humanos”, avalia a professora Ana Rojas. “As famílias mais vulneráveis já comprometem a maior parte de seu orçamento com comida. Quando um evento extremo destrói estradas ou reduz safras regionais, o repasse de custos é imediato, e o poder de compra dessas pessoas desaba”.
Os limites da ação comunitária sem apoio estatal
A pesquisa também aborda o papel da governança pública e os gargalos institucionais. Embora reconheça a relevância de iniciativas comunitárias de resistência (hortas urbanas, cozinhas solidárias, feiras agroecológicas e bancos de alimentos), a autora alerta para o risco de transferir a responsabilidade da adaptação para as próprias comunidades vulneráveis.
A ausência de uma coordenação estatal contínua e integrada entre as políticas de combate às mudanças climáticas, agricultura familiar e assistência social faz com que as ações locais fiquem limitadas e sem financiamento estável.
“Não se pode romantizar a capacidade de lidar com as adversidades comunitária. Sem proteção social e políticas de Estado que regulem e protejam os preços e a distribuição, abandonar as periferias à própria sorte gera o que chamamos de ‘capacidade de lidar com as adversidades por abandono'”, alerta a professora.
A pesquisa conclui que o Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo e, ao mesmo tempo, um país marcado por profundas assimetrias regionais, serve como um alerta crítico para todo o Sul Global. Para enfrentar o cenário de incertezas climáticas, o estudo defende que as políticas de adaptação precisam superar o foco exclusivo no aumento da produtividade do agronegócio e priorizar redes de distribuição, estoques reguladores, fortalecimento da agricultura familiar e transferência de renda.








